Arquivo do mês: agosto 2013

Contra delinquentes infiltrados nas multidões, só tecnologia e lei para evitá-los e prendê-los

Scanner facial

O jornal The New York Times publicou reportagem relatando avanços no desenvolvimento de tecnologia para vigilância de multidões. O desafio é conseguir rastrear em tempo real o rosto de milhares de pessoas por minuto e comparar com bancos de dados de imagens para detectar quem não deveria estar onde está ou quem é procurado pela Justiça.

A tecnologia, no atual estádio, já permite rastrear o rosto das pessoas a partir de fotografias, que são imagens estáticas, e comparar com banco de dados de imagens. No entanto, quando as imagens estão em movimento, as câmeras ainda não conseguem ser completamente eficazes, mesmo com o avanço da tecnologia de rastreamento em movimento e da velocidade de processamento de dados.

Em vários filmes de ficção científica, as pessoas andam pelas ruas e os rostos delas aparecem em monitores ou em televisores expostos nas vitrines de lojas de eletrônicos. A ideia dos especialistas é conseguir desenvolver dispositivos e sistemas que façam os mesmos.

O uso é bastante variado na fiscalização de multidões, desde entrada em estádios de futebol ou grandes eventos esportivos até o vaivém em aeroportos e grandes centros urbanos ou comerciais.

No caso do futebol, alguns países já conseguiram evitar que delinquentes se misturem entre as multidões e pratiquem crimes ou vandalismo. Pessoas envolvidas em badernas são listadas em um banco de dados e precisam se apresentar em delegacias horas antes dos jogos. Só são liberadas para irem para casa horas após o término das partidas.

No futebol, não basta cancelar o registro de torcidas organizadas. Elas voltam a funcionar, com nomes legais um pouco diferentes. Não adianta impedir os integrantes delas de comparecerem aos estádios. Eles entram, sem a camisa da torcida uniformizada. Lei e tecnologia, combinadas, são armas eficazes para combater vandalismo e delinquência.

Paulistanos terão em breve aplicativos para saber localidade dos ônibus. No mundo, isso é comum

Painel

A notícia foi publicada no jornal Folha de S. Paulo dia 26 de agosto. A Prefeitura de São Paulo deve lançar uma iniciativa que deve transformar bastante – para melhor – a convivência entre o passageiro e o sistema de ônibus na capital paulista.

Hoje, apesar de os ônibus serem novos e confortáveis, o tempo de espera nos pontos de parada é grande e o cumprimento dos horários é imprevisível. O passageiro, ao chegar no ponto, pode esperar cinco ou cinquenta minutos, no trajeto de ida ou de volta – ou nos dois.

Movimento mundial – A iniciativa da prefeitura paulistana segue movimento adotado em várias cidades e estados no mundo todo: abrir os dados e as estatísticas coletados e gerenciados pelo poder público para que os especialistas – desenvolvedores de internet e cientistas da computação – possam criar aplicativos para fornecer serviços aos cidadãos.

Vale lembrar, sempre: se as informações são coletadas pelo poder público, elas são de poder da sociedade, que é responsável pelo pagamento, via tributos, do funcionamento da máquina pública.

Ao abrir os dados públicos, a prefeitura permite criar um mercado privado de desenvolvimento destes aplicativos, gerar novos postos de trabalho e melhorar a prestação de serviços aos cidadãos.

London tube

Exemplos de fora – Dois exemplos são muitos interessantes, do mesmo desenvolvedor, utilizando dados em tempo “quase real”. O pecado, em ambos, é o alerta que o desenvolvedor faz: os dados são “aproximadamente” em tempo real, o que impede o usuário de se programar com base nos dois serviços, sob risco de perder o trem.

Em um projeto, o especialista criou um serviço que mostra estações, itinerários, localidade dos trens na rede de toda a Grã-Bretanha (Inglaterra, País de Gales e Escócia). O cidadão pode escolher a estação e obter as informações. Em outro projeto, as pessoas conseguem as mesmas informações – quantidade, localidade e itinerário dos trens – do sistema metroviário de Londres, capital da Inglaterra.

Vale lembrar que Londres, como muitas cidades europeias, informa ao usuário, nos pontos de ônibus, em quantos minutos o próximo ônibus vai chegar. E o horário é realmente cumprido, tudo graças aos dispositivos GPS em cada ônibus – os mesmos dados públicos que a Prefeitura de São Paulo vai disponibilizar aos desenvolvedores de internet.

Em vez de ficar olhando fixamente para a rua sem saber quando o ônibus desejado via passar, o usuário poderá ir até o comércio mais próximo ou cumprir pequenas tarefas.

Exemplos – Muitas cidades têm os chamados “bus services trackers”, que são aplicativos que indicam ao usuário as rotas, os pontos de paradas, os horários e o local onde o ônibus está em tempo real.

O serviço da cidade de Chicago, nos Estados Unidos, é bem interessante e funcional. Cumpre todas as funções com facilidade e indica em quanto tempo o próximo ônibus chegará ao ponto de parada onde o passageiro se encontra.

Chicago bus tracker

Serviço da cidade de Chicago com informações sobre sistema de ônibus

Edimburgo, na Escócia, com cerca de 500 mil habitantes, e Londres, na Inglaterra, com cerca de 8,2 milhões de cidadãos, têm serviços similares, bastante eficientes e com informações completas.

Observação – Os ônibus na cidade de São Paulo foram caracterizados como confortáveis porque são novos e, na imensa maioria dos casos, limpos. Há problemas notórios no sistema de ônibus. Os principais são a falta de pontualidade (ninguém sabe quando o ônibus vai passar no ponto de espera), a demora para percorrer a rota (por causa do trânsito e das interferências nas vias) e a lotação nos horários de pico (como há nos melhores sistemas do mundo).

Todos querem um sistema de ônibus sem esses defeitos, mas vale recordar que, faz quase duas décadas, a renovação anual escalonada da frota é regra na capital paulistana. Os defeitos do sistema, mencionados antes, só serão resolvidos com mais linhas de trens e metrôs, e tecnologia, como informar o horário dos próximos ônibus nos pontos das principais rotas (assim acontece em várias capitais mundiais) e os aplicativos que usam os dados públicos do controle do sistema de ônibus para que o cidadão tenha uma ferramenta a mais para organizar a própria vida.

Por que muitas capitais mundiais têm – e o Brasil não tem – um mapa dos banheiros públicos?

Tine Müller, uma senhora dinamarquesa, buscou na prefeitura de Copenhague (1,2 milhão de habitantes) informações sobre a rede de banheiros públicos da capital dinamarquesa. Ela perguntou sobre a localização e as condições das instalações, se serviam para homens, mulheres e deficientes físicos. O objetivo dela criar uma solução que permitisse a cidadãos e turistas o acesso fácil ás informações e à infraestrutura.

FindToilletDK

Copenhague tem uma rede de quase 50 banheiros públicos espalhados pela cidade. A cidadã dinamarquesa obteve a lista de todas as instalações, com todas características e horários de funcionamento de cada uma delas, e trabalhou para criar um aplicativo acessível para qualquer pessoa. O objetivo agora é convencer todos os prefeitos dinamarqueses a “abrirem” esses dados públicos, para beneficiar residentes e turistas em qualquer parte do país.

Muito diferente do que ocorre no Brasil, capitais mundiais costumam ter um sistema de banheiros públicos. Além disso, costumam ter políticas públicas já bem organizadas para a divulgação de informações públicas – por exemplo, a lista com os endereços dos banheiros públicos. Junte as duas coisas. As pessoas passam a ter, facilmente, toda a rede de serviços públicos ou parte dela em um telefone celular.

Programadores e profissionais que lidam com os mais diversos ramos das ciências da computação e da informação podem utilizar esses dados públicos para criar softwares que, baseados em tais dados, entregam algum resultado para o usuário – no caso, a lista com todos os endereços dos banheiros públicos da cidade.

Troque banheiro público por qualquer outro serviço prestado pelas cidades: escolas, centros de saúde, bibliotecas, parques, telefones públicos, agências de correio, pontos de ônibus e muitos outros. Imagine a quantidade de serviços públicos que podem ser acessados facilmente pelos cidadãos, seja pela internet ou pelo celular de cada um.

Cidadão-fiscal – Em uma entrevista para uma revista local, a cidadã dinamarquesa explicou que, ao acessar o aplicativo com a rede de banheiros públicos da capital, as pessoas podem não somente descobrir o endereço ou as características da instalação mais próxima como também podem inserir comentários e fiscalizar as condições de uso, higiene e conservação. Ninguém é melhor para oferecer essas informações do que os usuários, resumiu ela.

O Brasil? Claro, primeiro, as cidades brasileiras precisam construir uma rede de banheiros públicos que cubra razoavelmente as cidades, ao menos as principais. Depois, as autoridades precisam oferecer aos cidadãos as informações públicas – isso é, “abrir” os dados públicos. Com esses dados acessíveis, os programadores fazem o restante do trabalho.

Por trás do exemplo da senhora dinamarquesa está um movimento civil organizado em várias cidades, estados e países ao redor do mundo que cobra das autoridades públicas o acesso facilitado a diversos tipos de informações públicas, principalmente aquelas que possam ter algum valor ou serventia à população. O Brasil, mesmo nessa área, também ainda avança muito lentamente.

Para saber mais:

Caso queira entender com um pouco mais de profundidade e abrangência, acesse a introdução (em inglês) de um guia criado exatamente para conscientizar cidadãos, jornalistas e fundamentalmente instituições públicas sobre os impactos positivos do movimento global por mais acesso aos dados públicos.

Jornalismo esportivo: ainda há boas reportagens

A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo dispensa comentários. Muito boa. Aborda um fato que os torcedores parecem já ter percebido, traz depoimentos e análises de diversos ex-jogadores, especialistas no assunto – a arte de fazer gols nas batidas de falta.

É um trabalho muito positivo, considerando o nível ruim do jornalismo esportivo, no qual os profissionais, em grande parte das vezes, estão envolvidos em clubismo e opinião sem embasamento suficiente, muitos inclusive brigando contra números.

A matéria poderia ter sido melhor, no entanto. Um exemplo: mais números para comprovar a tese. O texto informa que há queda nos gols de falta no
Campeonato Brasileiro (133 em 2011 contra 116 em 2012). A estatística deveria abranger um período mais longo, desde 2003, por exemplo, quando o campeonato nacional passou a ser disputado no modelo de pontos corridos.

A cobertura, em vez de trazer pequena matéria com treinador de goleiros, poderia ter ouvido treinadores das categorias de base para explicar se o fundamento – bater faltas – é exaustivamente treinado entre os atletas mais jovens e aspirantes – e, caso negativo, por quais razões.

A possibilidade de melhorar a reportagem, no entanto, não tira o mérito da pauta muito bem feita, criativa e cumprida.

Sugestão de pauta – A reportagem produzida pelo O Estado de S. Paulo deveria inspirar jornalistas esportivos a produzir boas matérias sobre outros fundamentos ou jogadas do futebol, como defesas de pênalti, cruzamentos e tabelas entre atacantes, entre outros.

Na mesma linha, as matérias poderiam trazer números sobre a eficiência dos atletas em fundamentos. Há consultorias que mensuram fundamentos e alguns clubes compram este tipo de serviço.

Tal qual  a reportagem do O Estado de S. Paulo, atletas considerados “ícones” nos fundamentos poderiam analisar o assunto.

Batedores de falta