Arquivo do mês: julho 2013

The New York Times: infografia simples e eficiente mostra peso dos tributos pagos pelo brasileiro

O The New York Times produziu uma reportagem muito interessante sobre uma possível causa para as manifestações ocorridas em mais de cem cidades brasileiras em junho: o preço dos produtos e serviços. O custo elevado, por causa da carga tributária exagerada, aliado à baixa qualidade do que é ofertado, teria sido um dos principais combustíveis para os protestos.

NYTimes Samples of sales taxes

A pauta é bastante interessante e certamente o leitor brasileiro se identificará com a tese, por mais que considere que há outras causas. Outro aspecto elogiável da reportagem foi a infografia, bastante simples e eficiente.

Sobre uma fotografia de manifestantes durante uma passeata, o jornalista identificou o quanto de tributos o brasileiro paga para cada objeto presente na imagem. Sem recursos gráficos complexos, passou o recado com eficiência.

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Quem são e o que pensam as pessoas que estão à frente das notícias?

O mês de junho foi bastante trabalhoso para os profissionais de imprensa, que foram obrigados a buscar compreensão para fatos inesperados, que ocorreram sem aviso prévio e com dimensões substantivas.

Em junho, manifestações sociais seguidas, em mais de cem cidades, levaram centenas de milhares de pessoas às ruas, principalmente nas capitais. Caminhoneiros bloquearam diversas estradas pelo Brasil e empregados de empresas de ônibus paralisaram a prestação de serviços aos paulistanos, fechando importantes terminais e promovendo ações violentas.

A mídia precisou se desdobrar para entender e explicar tanta insatisfação ao mesmo tempo. Um fato, entre tantos outros, deve ser destacado no papel da imprensa. Ela decidiu mostrar à sociedade quem eram as pessoas à frente dos fatos. Essa decisão foi importante para os leitores terem outras informações que são fundamentais para compreender quem está demandando o que.

Em curto espaço de tempo, o jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, apresentou uma reportagem com dados relativos ao perfil e à origem dos líderes do Movimento Passe Livre, que apertaram o gatilho na série de passeatas nas cidades brasileiras ao reivindicarem a redução da tarifa de ônibus.

O jornal fez também um perfil de um dos mais antigos empresários de ônibus que faz negócios na cidade de São Paulo, pauta extremamente importante para oferecer melhor compreensão sobre os custos de parte considerável do transporte público.

Ainda sobre ônibus, a Folha de S. Paulo mostrou que é e o que já fez o sindicalista que representa empregados de empresas de ônibus, inclusive lembrando das maiores e mais problemáticas paralisações provocadas por ele na cidade.

Do Movimento Passe Livre, os leitores descobriram que radicalizar faz parte da estratégia. Em várias passeatas, ônibus, agências bancárias, orelhões e lojas foram depredados. Do empresário de ônibus, foi possível saber que ele domina o negócio na capital paulista há cinco décadas e que é um devedor costumaz de tributos, usando de várias manobras para permanecer no mercado e não pagar dívidas.

Do líder dos caminhoneiros, os leitores foram avisados que ele é dono de uma frota de caminhões, presta serviços para a estatal brasileira de petróleo e que os bloqueios das rodovias de 2013 é uma repetição do que já ocorreu em 1999, quando o mesmo sindicalista parou o tráfego nas estradas por quatro dias.

Já o sindicalista dos trabalhadores do sistema de ônibus é parte de uma longa série de conflitos, assassinatos e paralisações de ônibus – uma delas de nove dias em 1992 – envolvendo os diretores de um mesmo sindicato de motoristas e cobradores.

Qual área recebe mais recursos do orçamento público ou tem mais projetos de lei?

Duas interessantes visualizações mostram como usar recursos infográficos simples para dar sentido a um conjunto de informações jornalísticas e tornar mais fácil a compreensão do leitor.

Texas Tribune - Legislative Session BillsO Texas Tribune publicou uma visualização de forma que é possível perceber facilmente quais áreas são alvo de uma quantidade maior de projetos de lei arquivados pela assembleia legislativa do Texas, um dos 50 estados dos Estados Unidos, localizado na região sudoeste do país. É atualizado diariamente pela equipe de jornalistas.

Já o Financial Times criou o mesmo tipo de visualização para mostrar aos leitores e contribuintes o tamanho do corte de gastos nas despesas previstas pelos ministérios no Reino Unido. Dentro do orçamento total, é possível perceber quanto – em números absolutos e proporcionais – estava previsto para cada área e qual foi a redução ou ampliação de gastos.

Treemap – Esse tipo de visualização é chamado de ‘treemap’ (sem tradução eficiente em português). É uma forma espacial de visualizar estatísticas que signifiquem parte de um todo, uma parcela de um total, uma área que faz parte de uma área maior. Tem o benefício de dar hierarquia aos dados – quais são os maiores e os menos, comparados uns com os outros.

UK budget - FT

Possibilidades – Imagine que as exportações de um país são compostas por produtos de diversos setores. Cada setor tem um volume exportado diferente do outro. Um quadrado maior representa o volume total vendido a outros países. Esse quadrado maior é dividido em diversos quadrados ou retângulos, proporcionalmente ao que as vendas de cada setor representam em relação ao todo.

Esse tipo de visualização pode ser empregado também para mostrar a quantidade de um tipo de crime em cada estado brasileiro, de forma que a soma dos crimes em cada estado resulte em um quadrado maior – o total de ocorrências deste crime no país.

Na área política, o ‘treemap’ poderia ser usado para mostrar visualmente quais são as maiores e menores bancadas nas assembleias legislativas da União, dos estados e dos municípios.

O Texas Tribune foi bastante criativo ao utilizar esse tipo de visualização para um tema político, já que, geralmente, o treemap’ é empregado para assuntos econômicos e orçamentários.

Saiba mais:

O Many Eyes, projeto da IBM, é um dos mais consagrados sites para iniciantes elaborarem tipos variados de infografia a partir de ‘modelos pré-fabricados’. Basta inserir os dados e seguir as instruções.

Faixa exclusiva para ônibus em grandes avenidas: qual é a chance de dar certo?

A Prefeitura de São Paulo inaugurou, no dia 10 de julho, faixa exclusiva para ônibus nas avenidas Paulista (palco principal das manifestações na capital paulista que pediram, entre outras coisas, redução do preço da tarifa de ônibus) e Doutor Arnaldo.

Hoje, nas duas avenidas, há faixas para os ônibus, mas elas são preferenciais. Carros só podem invadir a agora faixa exclusiva quando a sinalização horizontal (as linhas brancas pintadas no chão que orientam motoristas e pedestres) for tracejada.

O objetivo é retirar carros da faixa de ônibus e, consequentemente, aumentar a velocidade do transporte público e incentivar as pessoas a abandonar o transporte individual.

paulista

Interferências naturais – A faixa de ônibus, seja preferencial ou exclusiva, permanece, no entanto, na pista da direita – sempre sujeita a interferências de outras vias, pois é por esta pista que saem carros e motos com sentido às vias perpendiculares e adjacentes (e vice-versa).

Por essa razão, boa parte dos 2,7 quilômetros da avenida Paulista tem sinalização horizontal tracejada entre as duas pistas mais à direita, exatamente para permitir que os carros entrem na antiga pista preferencial para ônibus e virem à direita em cruzamentos ou outras vias.

Nos trechos onde a sinalização horizontal é contínua, há muitos prédios comerciais e estacionamentos. Consequentemente, carros e motos precisam invadir a pista dos ônibus para poderem acessar tais estacionamentos e garagens.

Uma boa reportagem poderia analisar qual a probabilidade dessa nova medida na área de transporte público dar certo na capital paulista. Tecnicamente, é bastante complexo instalar faixas exclusivas de ônibus na pista mais à direita, sujeita a muitas interferências de outras ruas e avenidas. Por isso, corredores de ônibus e faixas exclusivas costumam construídos na pista à esquerda.

Sugestão de pauta – Da extensão total das avenidas Paulista e Doutor Arnaldo, qual é a parcela que já conta com sinalização horizontal tracejada (que já permite a invasão de automóveis e motos)?

No restante da extensão, onde há sinalização horizontal contínua (que não permite a invasão), em quais trechos há prédios com garagem e estacionamentos comerciais que, obrigatoriamente, atrairão automóveis e motos que terão de invadir a faixa exclusiva para ônibus?

Feitos os cálculos, será possível analisar, com maior assertividade, se as medidas – faixa exclusiva para ônibus nas avenidas Paulista e Doutor Arnaldo – tendem a serem bem-sucedidas ou não.

Infografia no jornalismo: beleza não é tudo se os números não forem fundamentais

O jornal O Estado de S. Paulo publicou uma boa reportagem tentando identificar o que pensam os mais variados partidos do Congresso Nacional sobre temas que devem ser debatidos durante uma possível reforma política.

Durante os dias que sucederam protestos em diversas cidades brasileiras, o governo federal sugeriu que regras do sistema eleitoral e partidário fossem alteradas para mudar a forma de fazer política no país e atender parte dos pleitos da população.

A equipe de reportagem do jornal conseguiu rapidamente consultar as lideranças dos partidos políticos representados tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado sobre diversos temas: unificação das eleições, foro privilegiado, reeleição, financiamento público, voto em lista e fim das coligações proporcionais.

Infográfico reforma política

A ideia foi cobrar respostas objetivas dos líderes partidários puderam, que podiam responder que o partido ao qual ele representa é a favor ou contra o assunto proposto ou ainda não tem posição sobre o tema.

O infográfico é muito bonito, atraente e eficiente – na medida em que permite ao leitor perceber dimensões (qual tema tem mais concordância ou discordância), variedade (a opinião sobre diversos assuntos) e detalhes (qual partido é contrário ou favorável e em qual casa do Congresso Nacional).

No entanto, a notícia entregue ao leitor é distorcida. No infográfico, o voto de um partido como PT e PSDB, as maiores bancadas no Congresso, valem o mesmo que os partidos políticos: um voto.

Pouco importa indicar que a maioria dos partidos apoia determinado assunto se as maiores bancadas parlamentares são contrárias ou ainda não têm opinião formalizada. Em assuntos como esses, seria natural que os congressistas seguissem a orientação dos partidos no momento de confirmar o voto.

No infográfico, parece que os deputados estão divididos entre manter ou acabar com a possibilidade de governantes serem reeleitos. No entanto, três dos quatro partidos com as maiores bancadas – PT, PMDB e PSDB – não opinaram.

O ideal, então, seria multiplicar a resposta do líder partidário pela quantidade de congressistas que ele representa – o tamanho das bancadas. Assim, o infográfico mostraria com mais exatidão se determinados assuntos presentes na discussão sobre reforma política têm chances maiores ou menores de serem aprovadas.