Arquivo do mês: março 2013

Segurança pública: homicídios não recuam, mas transparência aumenta. Como isso muda sua vida?

Estadão homicídios 2Em reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo dia 26 de março, o jornalista Bruno Paes Manso informa que a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo decidiu divulgar as estatísticas de criminalidade da capital paulista na internet, rua por rua. É um avanço talvez inigualável, comparável por ventura somente à criação da Lei de Acesso à Informação.

Pela iniciativa do governo paulista, as pessoas poderão acessar em um mapa quais ruas foram palco de crimes. Essa é uma solicitação muito antiga de jornalistas e pesquisadores, por diversas razões.

1) Os dados de segurança pública, por mais que sejam importantes para as autoridades planejarem o combate à criminalidade, são de toda a sociedade, pois foram produzidos a partir do pagamento de impostos que os cidadãos conferem ao poder público mensalmente. Informações produzidas por governos, em geral, são da sociedade, resguardados os casos mais sensíveis, como faz a Lei de Acesso à Informação.

2) Os cidadãos podem, a partir dos dados disponíveis, rua por rua, evitar os endereços mais críticos. É um direito que as pessoas têm buscar as rotas mais seguras para transitar, os bairros mais calmos para morar ou trabalhar.

3) Quanto mais locais forem os dados sobre criminalidade à disposição das pessoas, mais elas poderão cobrar das autoridades – sobretudo daquelas que são eleitas – ações para que os bairros onde moram e trabalham ganhem políticas públicas que mirem o reforço na segurança.

Estadão homicídios 1Este último item ajuda a explicar muito a relutância histórica que os governos têm em tornar públicas as estatísticas de segurança pública – e outros tipos de dados, sejam sobre saúde ou educação. Informação e conhecimento são armas muito valiosas que tornam os cidadãos mais poderosos para exigir providências – e isso aumenta a cobrança sobre as autoridades públicas.

Se a maior incidência de crimes desvaloriza uma região ou coloca em risco a vida de pessoas de forma desproporcional a outras áreas, essas pessoas podem cobrar respostas mais firmes dos governos.

As pessoas, com informações sobre a situação de bem-estar e de infraestrutura pública bairro por bairro, rua por rua, podem começar a tomar consciência de que é necessário se organizarem para reverter os problemas. Uma das saídas é exigir mais eficiência das autoridades públicas.

Essa decisão da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, mesmo que tardia, é louvável e não pode passar sem os merecidos aplausos. Segue a tendência de dar visibilidade aos dados públicos. Como bem lembra a reportagem, outras cidades importantes no mundo já publicam  estatísticas sobre criminalidade rua por rua – e ajudam os cidadãos. Imagine se os governos, tal qual decidiram fazer com as ocorrências criminais, começassem a divulgar o tempo de espera para consultas médicas, a quantidade de alagamentos, as ocorrências de coleta de lixo – tudo rua por rua?

Veja mais:

1) Qual é o perigo de divulgar informações públicas? 2) Nos EUA, carros roubados recuam 40%. Em SP, 21%. No Brasil, pouco se sabe. 3) Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil.

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Os números que formatam o debate sobre controle de armas nos Estados Unidos

NRA WashPostSemanas atrás, o Café Expresso já abordou os trabalhos feitos pela NRA (National Rifle Association), uma instituição que defende o direito do cidadão portar armas naquele país.

A atuação da NRA, além de suporte financeiro para os candidatos em eleições que tenham os mesmos argumentos da instituição (tudo dentro da lei, sem nenhum problema, regulamentado), também está focada no mapeamento do pensamento dos congressistas sobre o tema.

Cavar e escarafunchar os dados é o mais difícil, mas a equipe da NRA mantém a disciplina de coletar diariamente, em diversas fontes disponíveis, dados valiosos que acabam ajudando a organizar o que pensa cada deputado e senador sobre o porte e uso de armas nos Estados Unidos.

A partir de tais dados, os mais importantes órgãos de imprensa podem usar as ferramentas digitais disponíveis e dar forma aos números. Desta vez, o The Washington Post mostra facilmente a relação entre as doações financeiras em campanhas e o que pensam os congressistas dos EUA.

Novo projeto do ProPublica quer engajamento dos leitores para inspirar mudanças e consequências

O ProPublica, uma empresa jornalística bastante inovadora e investigativa, lançou uma iniciativa simples para envolver o leitor e colher dele contribuições que vão desde opiniões e informações para complementar matérias até sugestões e ideias.

A instituição quer que as reportagens tenham, como consequência, mais engajamento dos leitores e, dessa forma, aumentar as chances que as notícias e informações descobertas dos repórteres gerem mudanças – para melhor, claro – dos fatos mostrados.

Interrogações – A iniciativa recém-lançada e bem-intencionada, ainda terá de mostrar resultados. Praticamente todas as empresas jornalísticas têm ferramentas para envolver o leitor, seja com comentários ou pedindo a eles que comuniquem erros encontrados nas reportagens, até enviando fotografias e sugestões de temas que eles gostariam que as redações apurassem.

Quando pedir informações e dados para complementar as reportagens, terá de apurar as informações com repórteres suficientes. Para esse tipo de jornalismo, usa-se a expressão crowdsourcing, na qual as redações usam a “capacidade instalada” da audiência, ou seja, aproveitam a quantidade de pessoas disponíveis e as habilidades ou o conhecimento delas para ajudar no trabalho jornalístico.

GetInvolved

Curadoria de ideias – Pedir ideias e propostas aos leitores é muito interessante, mas exigirá que a redação eleja uma comissão de repórteres para atuar como curadoria das mensagens.

Além disso, os jornalistas terão de enviar as propostas para as autoridades ou responsáveis, acompanhar as consequências e dar uma resposta aos leitores. De nada adiantará se tal mecanismo se transformar apenas em mais um painel de comentários dos leitores.

Saiba mais:

Veja duas outras iniciativas do ProPublica que mostram a qualidade do trabalho jornalístico desenvolvido pela empresa. Uma matéria usa ferramentas de visualização de dados para mostrar facilmente como pensam os parlamentares norte-americanos a polêmica entre o direito constitucional de portar armas e o desejo de implementar leis que assegurem maior controle sobre elas.

Em outra investigação, autoridades federais dos Estados Unidos tiveram de determinar que companhias farmacêuticas informem quanto e como pagam médicos por atividades como pesquisa, consultoria, palestras, viagens ou simplesmente entretenimento.