Arquivo do mês: janeiro 2013

Projetos jornalísticos mapeiam a opinião de partidos e parlamentares no Brasil e nos EUA

O ProPublica, organização jornalística independente sediada em Nova Iorque, EUA, conseguiu montar um mapa que facilita bastante aqueles que querem entender o quanto é difícil e polêmico discutir e alterar a legislação sobre o porte de armas nos Estados Unidos. O trabalho, divulgado dia 16 de janeiro, mostra como deputados e senadores dos partidos Democratas e Republicano, além de um parlamentar independente, se comportam e opinam quanto ao tema.

A primeira conclusão que a visualização permite constatar é que há uma brutal distinção entre a opinião dos congressistas republicanos e democratas. Enquanto o Partido Republicano é majoritariamente favorável à manutenção do direito de possuir e portar armas de fogo, o Partido Democrata é amplamente favorável a restringir o porte de armas.

ProPublica

Após mais uma ocorrência de massacre em escolas norte-americanas, o presidente reeleito dos Estados Unidos, Barak Obama, incitou o Congresso a apertar a lei, tornando-a mais restrita. O problema é que a Segunda Emenda da Constituição daquele país deixa claro que todo cidadão tem o direito de manter e portar armas de fogo. A discussão é secular.

Estudo que facilita – A visualização interativa foi facilita pelo trabalho do Institute for Legislative Action (ILA), braço da National Rifle Association, associação que defende o direito de possuir e portar armas a todo cidadão. A organização situa cada congressista com base na opinião e ações deles sobre adotar um controle mais restrito ou manter o direito constitucional.

Com os dados, o ProPublica colocou programadores e jornalistas para apresentar os dados de uma forma visualmente agradável e inteligente, dando sentido às informações e permitindo aos internautas selecionarem as informações que querem do ponto de vista que desejam.

No Brasil – Imaginem usar a mesma solução para mapear a opinião dos congressistas brasileiros para os mais candentes temas em discussão – ou paralisados – no Congresso Nacional?

O projeto Estadão Dados, inaugurado pelo jornal O Estado de S. Paulo, começou a organizar e entender estatísticas sobre diversos assuntos, entre eles comportamentos dos parlamentares no Congresso Nacional, em Brasília.

Um dos trabalhos dentro do Estadão Dados chama-se “Basômetro” e permite entender como os partidos políticos e congressistas votaram – com o governo ou contra o governo – em diferentes projetos de lei ao longo de 2011 e 2012. Vale a pena conferir.

Basômetro

Outros aspectos – Tanto o trabalho do ProPublica quanto do jornal O Estado de S. Paulo ajudam os leitores a entenderem melhor temas complexos. Só se tornam úteis porque há um trabalho importante dos programadores e jornalistas em dar uma orientação, um sentido, às estatísticas. Caso contrário, seria apenas mais um almanaque.

Um aspecto interessante é que os dois projetos jornalísticos permitem uma visão” tanto da árvore quanto da floresta”, pois mostra como pensam e decidem tanto o congressita, individualmente, quanto os partidos políticos, conjuntamente.

Desafios diante da imprensa em 2013 – e nos anos seguintes

Alguns desafios diante da imprensa em 2013 – e nos anos seguintes – para os quais é difícil encontrar solução, mesmo diante do esforço e dos debates dentro das redações e nas salas de aulas. Claro, a lista é maior. Aqui, listo somente alguns:

1) Governos cada vez maiores, redações cada vez menores. A administração pública parece ocupar cada vez mais espaço, utilizar instrumentos financeiros e legislativos mais complexos, adotar mais artimanhas de contabilidade. Do outro lado, a imprensa sofre de um mal antigo: equipes cada vez menores, mais jovens e muitas vezes desmotivadas, que precisam entender de tudo. Sofre o cidadão, que depende da imprensa como fiscalizador independente de última instância. Atos oficiais e políticas públicas acabam sendo analisados superficial e esporadicamente. Em muitas empresas jornalísticas, há repórteres que ainda têm a possibilidade de se especializar em uma única área – somente execução orçamentária, por exemplo, em vez de toda a área econômica do governo – e isso traz credibilidade para o jornal na medida em que notícias exclusivas, relevantes, bem explicadas e abrangentes são divulgadas.

2) Fontes ocultas, interesses explícitos. Na política, na economia e nos esportes, há um uso exagerado das “fontes próximas ao presidente”, dos “interlocutores que preferem o anonimato” e de “auxiliares que participaram” das decisões. O repórter precisa, em muitas vezes, oferecer a possibilidade de manter o entrevistado escondido para obter informações relevantes. Mas muitas matérias são baseadas em uma única fonte oculta, sem que a apuração busque cruzar a informação recém-recebida com outras fontes, ocultas ou não. Isso gera descrença, já que a imprensa corre o risco de se prestar aos interesses particulares de quem lhe entrega a suposta notícia. A mídia precisa questionar com mais seriedade os interesses do personagem oculto, da mesma forma que os editores precisam avaliar a quantidade de vezes que o recurso foi utilizado, quantas vezes o jornal acertou e errou ao acreditar em tais fontes e a relevância da informação.

3) Muitas notícias, pouca informação. A imprensa, principalmente os jornais impressos, tem, além de informar, a função de registro histórico. Por isso, atos oficiais, que costumam ser divulgados dezenas de vezes diariamente, precisam receber automaticamente a atenção das redações. Imagine a quantidade de potenciais anúncios ou divulgações de todas as instâncias do poder público(Executivo, Legislativo e Judiciário) nos três níveis federativos (governo federal, estados e municípios). Impossível dar atenção qualificada a tudo isso. Assim, a mídia divulga inúmeras notícias sobre índices e relatórios mensais sobre a evolução da economia, por exemplo, e o leitor ou ouvinte parece cada vez mais  desinteressado. Continua a ser um desafio para a mídia capturar a atenção da audiência e, ao mesmo tempo, cumprir as funções institucionais que se espera dela – informar e servir como registro histórico.

4) Informação valiosa tem custo – e tem de ter preço. Há muita discussão e poucas soluções ainda sobre o financiamento da produção jornalística de qualidade. A internet, superficial na maior parte das vezes, atraiu enorme fatia dos anunciantes na medida em que conseguiu capturar a atenção das pessoas. A propaganda vai atrás da vitrine que o público está olhando, claro. A indústria do entretenimento também está mais sofisticada, criando alternativas bastante competitivas para os anunciantes. A imprensa, então, passou a enfrentar enorme concorrência pelas verbas publicitárias. Alguns órgãos de mídia tentaram diversificar fontes de negócios. Tentativas fracassaram, outras trouxeram dinheiro, mas nada substantivo. Recentemente, as grandes empresas decidiram cobrar pela leitura de notícias nos portais na internet a partir de determinada quantidade de textos lidos – o chamado “paywall”. Quem quer ler mais do que o mínimo oferecido gratuitamente precisa pagar. Diversos casos têm sido bem-sucedidos, mas ainda é cedo para dizer se os recursos das assinaturas digitais conseguiram reverter o enxugamento das redações. No geral, as pessoas estão acostumadas e esperam ler de graça na internet.