Sozinhos, os números informam. Contextualizados, eles esclarecem


Messi x Muller 6

Dois assuntos recentes deram oportunidade para a imprensa mostrar o quanto está interessada em lidar corretamente com estatísticas. Na cidade de São Paulo, a quantidade de assassinatos aumentou significativamente em 2012, mês a mês, e os jornalistas investigam os motivos desta escalada. Na área esportiva, o atacante argentino Lionel Messi marcou, no último jogo, o 90º gol no ano, distanciando-se dos recordistas anteriores. Nunca antes na história do futebol profissional um atleta havia marcado tantos gols em um único ano.

Na capital paulista, a quantidade de assassinatos dobrou em diversos meses do ano. Essa notícia, informada diversas vezes por dia ao longo do ano causou tensão na sociedade. As pessoas, amedrontadas, passaram a mudar hábitos. A violência passou a ser o principal e quase único assunto nas famílias. No entanto, quando contextualizados com estatísticas históricas e de outros estados, surge um outra informação.

Veja - Violência SP 3

São Paulo, tanto estado quanto capital, figuram ainda entre os mais seguros do país e, apesar do recrudescimento da violência, mantêm-se próximos da meta de computarem menos de 10 assassinatos em cada grupo de mil pessoas, indicador que situa uma região fora da condição de violência em estado epidêmico. A média brasileira foi de 23,6 assassinatos em cada grupo de 100 mil pessoas em 2011. Repare: uma informação não anula a outra, mas ambas oferecem ao leitor uma compreensão melhor do fato.

Na área esportiva, o atacante argentino marcou o 90º gol. Já havia ultrapassado o brasileiro Pelé (75 gols em 1958) e o alemão Gerd Muller (85 gols em 1972). O número é surpreendente. Mas não diz tudo. A média, tanto do brasileiro quanto do alemão, é de 1,41 gol/jogo, contra 1,32 do argentino, que ainda tem mais um jogo em 2012 e, se escalado, teria de conseguir fazer oito gols para superar a média dos dois concorrentes. Novamente, uma informação não anula a outra a e só ajuda o leitor.

Veja - MessiOs números, isolados, estão corretos, mas não dizem tudo. Eles surpreendem e intrigam e, por chamarem tanto a atenção, aparecem isolados na maior parte das reportagens. No entanto, quando inseridos historicamente ou contextualizados, o alarde diminui. Menos alarde, menos audiência – e por isso muitas trazem apenas a informação sem o contexto. Essa é uma justificativa.

Outra razão para os números alarmantes ou surpreendentes aparecerem isoladamente na maior parte das matérias é a pressa. leva tempo para buscar estatísticas que permitam ao leitor ou internauta analisar o número ao longo de um período mais longo. Diante da pressa de uma imprensa cada vez mais presente na internet, a regra é primeiro publicar o fato para somente depois melhorar a apuração e oferecer mais dados para ajudar a compreensão.

A revista Veja, na edição de 21 de novembro, produziu reportagens sobre os dois assuntos, dando aos temas o tratamento adequado – apresentou tanto a informação alarmente, isoladamente, sem deixar de inseri-la em um contexto. O leitor saiu ganhando.

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