Arquivo do mês: outubro 2012

Um roteiro para escrever sobre a dívida paulistana –ou de qualquer outra cidade ou estado

Com o fim das eleições municipais, um assunto ganhou espaço na imprensa: a dívida dos municípios com a União, especialmente a da capital paulista. O governo federal, noticiam diversos veículos e emissoras de rádio e TV, parece estar disposto a encontrar uma solução para renegociar os critérios dos contratos assinados entre 1999 e 2001 entre União, estados e municípios, principalmente – ou exclusivamente – para a cidade de São Paulo.

No geral, estados e municípios tinham dívidas que, com o fim da inflação exorbitante, passaram a tornar-se praticamente impagáveis e mais difíceis de serem empurradas para frente, por operações de rolagem (quando aquele que deve, em vez de pagar os débitos, renegocia os valores devidos com quem emprestou, normalmente a juros maiores).

Calote iminente – Estados e municípios interessados em rolar as respectivas dívidas (pela simples falta de dinheiro para pagar os débitos) encontravam taxas de juros cada vez maiores. Afinal, quanto maior é o risco de calote, maior é o juro exigido pelo emprestador.

A Selic média, taxa que serve referência, atingiu 45% ao ano em 1999, enquanto a inflação média anual foi de 8,6% entre 1995 e 2000. As dívidas eram cada vez mais maiores e o calote era iminente para muitos estados e municípios.

Por meio de leis distintas, a União assumiu dívidas de estados, Distrito Federal e alguns municípios entre 1997 e 2000. O governo federal tornou-se responsável por pagar os débitos junto a credores internos  e externos. Por apresentar risco menor de calote, a União conseguia rolar a dívida pagando taxas menores de juros em comparação à situação então vigente – estados e municípios tentando, cada qual isoladamente, renegociar com credores os débitos cada vez maiores. De outro lado, passou a cobrar juros dos governadores e prefeitos.

Um roteiro – Esse tema, agora novamente em evidência, servirá como pauta para diversas análises e reportagens. A dificuldade será contar essa longa história sem torná-la cansativa por causa dos detalhes, regras e vaivéns.

Será indispensável ao jornalista conhecer aspectos das leis, o contexto em que elas foram editadas e ter em mãos duas tabelas: a evolução da taxa Selic média e a evolução da taxa de inflação a partir de 1994. Vale ler as leis que suportaram a renegociação das dívidas com Estados e Distrito Federal (Lei 9.94/96) e com municípios (Medida Provisória 2.185-35/2001).

É preciso tomar cuidado para não cair em armadilhas. Dívidas são contraídas ao longo de décadas, administradas com maior ou menor correção dependendo do administrador. Para evitar erros ao apontar anjos e demônios, é importante ouvir especialistas independentes e ex-gestores de finanças dos governos.

Saiba mais:

O site Brasil Economia e Governo publicou boa análise sobre a evolução das dívidas públicas brasileiras e os contratos de renegociação então firmados na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Vale ler antes de se enveredar pelo tema, bastante árido.

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Jornal impresso pode interagir mais com leitores

Com a explosão de aplicativos e infografias no ambiente online, parece que interagir com leitores só é possível para o jornalismo na internet. Ledo engano. O jornal O Estado de  S. Paulo publicou nos últimos dias duas páginas com reportagens que interagem com os leitores – se não no momento na leitura, ao menos no momento da concepção.

Um pouco esquecidas nos últimos anos, esse tipo de ação é louvável no jornalismo, sobretudo em uma plataforma percebida como fadada à extinção por muitos especialistas exatamente por não terem os mesmos ingredientes dinâmicos que o jornalismo online.

OESP Interação com leitores 2OESP Interação com leitores 1

Tempos atrás, o jornal O Globo publicada regularmente no meio das reportagens janelas com opinião dos leitores comuns. A iniciativa não tem mais espaço no diário atualmente.

Essas iniciativas são interessantes porque  colaboram para fidelizar o leitor ao produto. No caso específico do Estadão, são maneiras interessantes de atrair o público mais jovem para o manuseio e para a leitura de jornais.

Saiba mais:

As pessoas comuns têm poder de guiar a cobertura da imprensa? Parece que sim

A pobreza diminuiu – e não há mágica e nem mágicos por trás desse avanço

As estatísticas, quase todas elas, mostram a redução da pobreza no Brasil, independentemente na faixa de corte – o valor médio da renda de uma pessoa ou de uma família para deixar de ser pobre.

A quase totalidade das pessoas creditam a redução da pobreza à gestão dos governantes nos últimos anos, que criaram ou intensificaram programas de distribuição de renda e políticas públicas que favoreceram a aceleração atividade econômica e a geração de emprego.

Beating povertyUma explicação começa a surgir como informação adicional. Como mostra o gráfico da revista inglesa The Economist, todas as economias latino-americanas tiveram desempenho similar ou melhor que o Brasil no esforço de reduzir a pobreza.

Essas estatísticas compreendem o período até 2009 – e acredita-se que nos anos seguintes, entre 2010 e 2012, o avanço deve ter permanecido na mesma direção. O que importa, sobretudo, é que parece haver uma explicação estrutural, e não somente conjuntural, para entender a redução da pobreza no Brasil.

Explicando melhor: ou todos os governantes no período e em toda o continente foram bem-sucedidos na administração das políticas públicas visando reduzir a pobreza ou algum fator econômico regional ofereceu uma plataforma uniforme e abrangente para a queda destes indicadores. Ou, inclusive, as duas ações, juntas.

Uma forma de reduzir a pobreza é transferir mais dinheiro dos impostos arrecadados para as populações menos abastadas. Outra maneira é fazer a economia toda crescer – e com isso gera-se mais empregos e aumenta a renda das famílias.

Em todos os países latino-americanos, tudo indica que a pobreza foi reduzida por causa da existência de mais empregos disponíveis e por mais distribuição de benefícios aos mais pobres.

Reportagem digital evita erros das mais antigas e das mais recentes práticas jornalísticas

As mais antigas e mais recentes ferramentas do jornalismo muitas vezes colidem umas contra as outras – e essa colisão gera energia nova. A reportagem multimídia Moendo Gente é um bom exemplo. Uniu a boa e velha reportagem com os melhores recursos visuais disponíveis. O tema é o menos importante. Merece aplauso o processo, desde o planejamento e a escolha do método até o apuro na condução da reportagem e na edição. O foco da matéria é o leitor, por mais óbvio que pareça, e não a preferência do jornalista que a produz.

Reportagem digital

A matéria, como ela própria explica, “é um mergulho no universo dos trabalhadores dos principais frigoríficos brasileiros”. Ela investiga os acontecimentos, coloca repórteres em campo, junta as pontas, investiga de novo. Busca estatísticas e as ordena, tira novidades a partir do cruzamento dos dados, investiga novamente. Ouve pessoas, narra dramas e questiona autoridades. Mostra tudo de forma visualmente agradável, bonito e atraente e ainda permite que o receptor da notícia – o internauta – interaja com a reportagem, selecionando aspectos que deseja conhecer.

Usa texto, mapas, vídeos. Um bom exemplo de reportagem multimídia que usa o melhor de todos os recursos e não cai no erro das mais antigas e das mais recentes práticas jornalísticas. Uma delas é exagerar no texto quando há reportagens investigativas de fôlego como essa, com profundidade. Outra é exagerar nas estatísticas e números que, mesmo que apresentados de forma atraente, não apenas dados de almanaque, que não respondem as mais importantes questões sobre o assunto.

Foi produzida pela ONG Repórter Brasil. Os jornalistas investigaram as relações de trabalho nos maiores frigoríficos brasileiros, organizaram estatísticas sobre acidentes de trabalho, apresentaram os elos entre as empresas e as redes de supermercados, no Brasil e no mundo. A ideia é mostrar que um local de trabalho negligenciado aqui precisa ficar evidente para um varejista e para um consumidor do outro lado do mundo.

Véspera de eleições municipais, dois temas importantes ficaram fora do debate

Véspera de eleições municipais. Os candidatos investiram em duas diretrizes durante a campanha. Em uma, propuseram superficialmente resolver problemas estruturais nas áreas de saúde, educação e transporte. Usaram e abusaram de ‘chavões’, com propostas que são sempre feitas e quase nunca cumpridas, mas que precisam ser repetidas anualmente. O povo quer ouvi-las.

Em outra direção, surgiram propostas mirabolantes – aumentar em dez vezes isso, reduzir em 20 vezes aquilo, criar um novo programa para resolver tal problema. Tudo isso permeado pela crescente influência das igrejas e por debates infrutíferos sobre religião e sexualidade.

Projetos de trens que jamais serão construídos e escolas em tempo integral com dois professores que nunca funcionarão fazem parte do cardápio de sonhos. O eleitor, na média, não questiona se há dinheiro e gente especializada para isso. Dois assuntos, no entanto, foram ignorados pelos candidatos a prefeito e vereador. Um deles – o saneamento básico – é uma responsabilidade das prefeituras. Outro, o potencial digital, é uma oportunidade para elas.

Água e esgoto para todos – O saneamento básico foi resolvido nos países desenvolvidos ainda no início do século XX, mas permanece inconcluso em todo o Brasil. Das residências brasileiras, 85,7% têm abastecimento de água e 55,8% tem coleta de esgoto por rede. As condições dos rios que atravessam os centros urbanos atestam isso. É uma responsabilidade das autoridades locais, que podem cuidar da tarefa com dinheiro próprio ou delegar para alguma empresa pública ou privada fazer. Na maioria das cidades brasileiras, o serviço é prestado por empresas estaduais, que recebem essa concessão dos municípios.

Uma lei federal, em janeiro de 2007, tentou acelerar o processo no Brasil. Determinou que os prefeitos têm de fazer um plano com ações para que 100% das casas sejam atendidas com rede de esgoto e de água. Até hoje, somente 11% cumpriram a obrigação. Quem descumprir não mais receberá dinheiro do governo federal – a principal fonte de recursos – para investir em saneamento. Esse prazo vencia em dezembro de 2010 e foi prorrogado para dezembro de 2013. A bomba vai estourar no colo dos próximos prefeitos. O que já está ruim pode piorar – mas nenhum candidato tratou do tema na TV.

Potencial digital –Outro tema importante que foi negligenciado pelos candidatos é o que poderia ser chamado de “serviços municipais digitais” – tudo aquilo que poderia ser feito pela internet. Em inúmeras cidades europeias, norte-americanas e também asiáticas, há forte movimento das prefeituras para ampliar o uso da internet para atender a população em situações e áreas variadas. Nova Iorque é um exemplo.

O prefeito Michael Bloomberg criou um departamento e um cargo específico para levar para as plataformas digitais e móveis os serviços da prefeitura e o relacionamento entre o município e o cidadão. Rachel Sterne Haoté o que poderia ser chamado de secretária da prefeitura nova-iorquina nessa área. Ela é a “chief digital officer”. Mais do que prestar mais e melhores serviços públicos à população, o objetivo central é aproveitar o potencial que a internet tem para transformar a gestão pública. Pense como a internet mudou a indústria, o comércio, a economia. Agora imagine o que ela pode fazer na prestação de serviços públicos.

Do planejamento inicial para explicar a ideia e engajar a população até as primeiras iniciativas começarem a funcionar, tudo demorou meio mandato. Isso mesmo, meio mandato. Rachel Sterne Haot foi empossada em janeiro de 2011, quando o departamento ou secretaria dela, o NYC Digital, foi criado por Michael Bloomberg, prefeito de Nova Iorque desde 2002, já no terceiro mandato (dois pelo Partido Republicano, o terceiro de forma independente).

Deu certo? Deu. O plano de trabalho lançado em 2011 tem 33 ações em cinco áreas – indústria, engajamento civil, acesso à internet, governo aberto e educação – e 75% foram cumpridas. Os 25% restantes estão em andamento. Nenhuma ação ficou apenas no papel. Tudo isso em menos de dois anos.