Incêndios nas favelas paulistanas: um roteiro para construir uma reportagem diferente


No dia 3 de setembro, mais um incêndio foi registrado em uma favela na capital paulista. Foi o 32º em 2012. O assunto é sempre muito polêmico. Em um município com pouco espaço para adensamento e crescimento de novas construções imobiliárias, casos como esses geram suspeitas se os incêndios foram casuais ou intencionais. O fato isoladamente – e o contexto ao longo dos anos – merece boa investigação jornalística.

Pelo Twitter e pela imprensa, o Corpo de Bombeiros informou que a quantidade de incêndios em favelas na cidade de São Paulo vem caindo nos últimos anos. Com o caso na favela Buraco Quente, no Campo Limpo, a instituição registrou, em 2012, até o início de setembro, 32 ocorrências deste tipo. Em anos anteriores, o Corpo de Bombeiros da cidade de São Paulo registrou mais casos: 130 em 2008, 122 em 2009, 91 em 2010, 79 em 2011. O gráfico é declinante.

Twitter Bombeiros

Mapa dos incêndios – Pois bem. Uma turma de jornalistas e programadores criaram um mapa com todos os incêndios ocorridos este ano. Visualizar geograficamente os fatos, todos juntos, ajuda a perceber novas informações e buscar relações e compreensão. Pelo Twitter, o jornalista Fabiano Angélico, prontamente, registrou: “A maioria deles (dos incêndios) está bem perto de artérias importantes da cidade”.

É um aspecto interessante que merece mais investigação. Com os 32 casos registrados em 2012, é difícil determinar precisamente se há uma relação direta entre os incêndios e a proximidade das favelas com as grandes avenidas e áreas mais valorizadas. O ideal seria jogar em um mapa todos os incêndios ocorridos desde 2008, por exemplo, para verificar, em uma amostra maior, com um universo mais abrangente, se essa constatação (que brota dos dados de 2012) se repete nos anos anteriores. Se for confirmada, dá notícia, com mais segurança.

Incêndios favelas 2012

Cruzamentos – Mas a investigação pode ir além. Imagine que, entre todos os incêndios registrados entre 2008 e 2012, a maioria ocorreu em favelas próximas a grandes avenidas. Agora imagine que a maior parte das favelas paulistanas está próxima de grandes avenidas. Se isso realmente for verdade, a notícia não é tão gritante assim. Afinal, se há mais corintianos em São Paulo, é de presumir que você verá nas ruas mais pessoas vestindo camisa do Corinthians.

O projeto FolhaSPDados publicou um texto e um mapa mostrando a quantidade e a localidade das favelas paulistanas. Segundo o jornal, há 1.633 favelas na capital paulista. É mais uma base de dados que pode ser sobreposta à inicial (a dos incêndios) e tentar pintar, em cores diferentes, quais favelas estão longe e próximas às principais artérias da cidade.

FolhaSPdados

Se poucas favelas paulistanas estiverem à beira de grandes avenidas, e se essas poucas localidades registrarem a maioria dos incêndios registrados no périodo desde 2008, há uma boa informação para inciar uma matéria interessante. A pergunta que teria de ser respondida, neste exemplo hipotético, é: porque há menos incêndios em favelas localizadas em regiões menos valorizadas e mais ocorrências em favelas situadas em áreas mais valorizadas?

É isso. As estatísticas – e a cartografia – podem servir como novas ferramentas para os jornalistas perceberem informações adicionais e outros pontos de vista para os assuntos cotidianos.

Atualização – Programadores e jornalistas já iniciaram um trabalho coletivo para organizar as estatísticas e os dados dos incêndios ocorridos na cidade de São Paulo nos últimos anos em um mapa, de modo que a observação espacial das ocorrências ajude a constatar novas informações. Vale acompanhar.

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