Arquivo do mês: setembro 2012

O que os colunistas disseram de interessante nos últimos dias

“Os responsáveis pelas contratações têm um estereótipo do que seja uma liderança ou um funcionário ideal e o aplicam aos candidatos, sem jamais verbalizar a regra ou mesmo dar-se conta de que ela existe em suas cabeças. A constatação tem algo de sombrio. A mente humana discrimina da mesma forma que respiramos, isto é, sem nem perceber.” Hélio Schwartsman, jornalista, no artigo “Preconceito Invisível”, na Folha de S. Paulo, dia 22 de setembro, sobre relatório do Ministério do Trabalho mostrando que as mulheres ganham menos que os homens.

“Enfim. É a primeira coisa que se pode dizer sobre a decisão da Justiça de que na certidão de óbito de Vladimir Herzog deixe de constar a mentirosa informação de suicídio. O Brasil começou a mudar. Lenta e tardiamente.” Miriam Leitão, jornalista, no artigo “Ainda que Tardia”, em O Globo, dia 26 de setembro, sobre Vladimir Herzog, jornalista que, em 1975, compareceu ao Exército para prestar depoimento e, horas depois, estava morto.

“Em outras palavras, a facilidade com o qual eu me sinto ofendido revela que eu mesmo devo concordar, ao menos em parte, com a ofensa que recebi. Ou seja, a suscetibilidade muçulmana manifesta que deve existir, na alma muçulmana, um conflito entre o tradicionalismo religioso e uma aspiração à liberdade em suas manifestações modernas ocidentais.” Contardo Caligaris, psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo, no artigo “Protestos muçulmanos”, no dia 27 de setembro, sobre as revoltas nos países muçulmanos após a publicação de um vídeo que ridiculariza esta religião.

“Muito mais além do que já houve ainda está para acontecer. Os ministros do Supremo vão discutir dura, detalhada e por vezes até asperamente todos os aspectos do processo, dos crimes imputados aos réus e das circunstâncias em que foram ou não cometidos, para mostrar as razões pelas quais condenam ou absolvem.” Dora Kramer, jornalista, no artigo “A Hora H”, no Estado de S. Paulo, dia 28 de setembro, sobre aqueles que se espantam com opiniões mais ríspidos entre integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) durante o julgamento do Mensalão.

Um passeio pelo Google Earth: base aérea norte-americana em Thule, na Groelândia

Thule GreenlandO blog inaugura hoje uma nova coluna: um passeio pelo Google Earth. Trará sempre uma notícia dos jornais, complementada pelas fotos presentes no aplicativo do Google. As fotos são da base aérea dos Estados Unidos em Thule, povoado próximo a Qaanaaq, Groelândia (Estado autônomo da Dinamarca).

O jornal O Estado de S.Paulo traduziu matéria do The New York Times, relatando as estratégicas discussões entre as grandes potências para explorar minérios, principalmente os raros, utilizados pela indústria eletrônica.

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Thule Air Base - Navio da US Coast Guard patrulha nas imediações da base aérea

A mídia brasileira perdeu a chance de mostrar por que o futebol inglês é o mais competitivo do mundo – e como o Brasil poderia seguir a trilha

O campeonato inglês de futebol é considerado por muitos torcedores ao redor do mundo – possivelmente a larga maioria – como o mais competitivo e organizado entre todas as principais e mais tradicionais ligas, incluindo a espanhola, a italiana e a alemã, entre outras.

Mas nem sempre foi assim. A grande mudança acabou sendo iniciada por uma tragédia: a partida final entre Nottingham Forest e Liverpool, pela Copa da Inglaterra, no dia 15 de abril de 1989, no estádio Hillsborough, em Sheffield, Inglaterra. Por causa do excesso de lotação, 96 pessoas foram mortas e 766 ficaram feridas, entre outras perdas.

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O desastre, como os ingleses chamam, deflagrou investigações por diversas instituições e resultou na publicação do Relatório Taylor, um documento com 120 páginas apontando orientações para modificar condições de policiamento, segurança e controle nos estádios e em eventos de futebol e evitar que novos fatos como os de Hillsborough acontecessem novamente.

A ausência de grades entre o gramado e as arquibancadas é apenas uma dessas sugestões, que aconteceram após uma série de transformações comportamentais, institucionais e econômicas no mundo do futebol inglês. A segurança atraiu público, dinheiro e fez do futebol inglês o campeão dos holofotes da mídia mundial atualmente.

Novo capítulo – Essa história é antiga, mas um fato torna obrigatório recontá-la. No dia 12 de setembro, uma investigação independente desmentiu diversos fatos. Mais do que apontar falhas no controle policial, concluiu que muitas provas e evidências que atenuavam as responsabilidades das autoridades policiais foram forjadas.

Hillsborough_disaster_SunNa época, a polícia agiu para culpar os torcedores do Liverpool e encobrir falhas próprias antes, durante e depois do desastre. Uma das grandes polêmicas em volta do caso pode ser exemplificada pela famosa capa do tabloide inglês The Sum, que dias depois do desastre, divulgou “alguns torcedores roubaram vítimas. Alguns torcedores urinaram sobre os corajosos policiais”.

Pois bem. A imprensa brasileira praticamente ignorou a divulgação do relatório independente, divulgado dia 12 de setembro. O jornal Folha de S. Paulo chegou a produzir uma matéria de oito parágrafos bem curtos, mas o texto ficou disponível apenas na versão online e não foi publicado na versão impressa do diário. Já O Estado de S. Paulo publicou apenas uma pequena nota sobre o tema.

Ganchos não faltam – Por que a imprensa brasileira deveria ter oferecido mais espaço ao tema? Simples. O Brasil vai sediar a Copa do Mundo em 2014. Há incontáveis casos de brigas em estádios e falta de segurança. Poucos estádios brasileiros oferecem boas condições de conforto e segurança. Em geral, o trabalhado de inteligência e controle das autoridades policiais pode ser classificado entre ruim e regular, com pouco uso da tecnologia.

Há, agora, dois “ganchos” (jargão que expressa a necessidade de haver uma razão para informar ou relembrar um assunto) para elaborar matérias sobre as condições de segurança e conforto dentro e fora dos estádios brasileiros: atualidade e proximidade. O relatório independente do caso de Hillsborough oferece um fato recente para contar uma história sobre o assunto e a evolução das reformas nos estádios no Brasil, visando a Copa de 2014, apresentam exemplos próximos da realidade do brasileiro.

O desastre que mudou a história do futebol inglês e o fez o melhor do mundo ganhou um novo capítulo – e a mídia esportiva brasileira perdeu a chance de aproveitar os ganchos existentes e entregar uma boa reportagem aos torcedores. Mas ainda dá tempo.

Saiba mais:

Kenneth Maxwell, historiador, escreveu artigo na Folha de S. Paulo sobre o assunto para assinantes). Fora este artigo, cujo tema foi escolha do próprio autor, o novo relatório sobre o desastre foi ignorado pela grande imprensa.

KENNETH MAXWELL

Só a National Geographic lembrou de contar essa história, que já dura séculos, mas está perto do fim

A National Geographic Brasil publicou uma excelente reportagem sobre os últimos 20 saveiros que ainda restam no litoral da Bahia. A matéria ficou ainda melhor porque foi editada aproveitando bastante de boas fotos-legendas (fotografias que são acompanhadas de legendas maiores, mais explicativas do que as usuais, bastante curtas e resumidas), como é costume da publicação.

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Os saveiros são barcos à vela que durante séculos fizeram – e os 20 remanescentes ainda fazem – o transporte de cargas entre a costa e os grandes navios cargueiros, desde as caravelas até os à vapor. Surgiram na Bahia, funcionaram principalmente durante o período que Salvador foi capital do império português no Brasil e foram, ao longo de décadas, imortalizados nos livros escritos por Jorge Amado.

A história foi descoberta pela National Geographic Brasil, mas pode servir de ponto de partida para todas as outras mídias, principalmente os jornais impressos (que, caso decidam abordar a pauta, deveriam usar largamente o recurso das fotos-legendas) e os programas televisivos.

Incêndios nas favelas paulistanas: um roteiro para construir uma reportagem diferente

No dia 3 de setembro, mais um incêndio foi registrado em uma favela na capital paulista. Foi o 32º em 2012. O assunto é sempre muito polêmico. Em um município com pouco espaço para adensamento e crescimento de novas construções imobiliárias, casos como esses geram suspeitas se os incêndios foram casuais ou intencionais. O fato isoladamente – e o contexto ao longo dos anos – merece boa investigação jornalística.

Pelo Twitter e pela imprensa, o Corpo de Bombeiros informou que a quantidade de incêndios em favelas na cidade de São Paulo vem caindo nos últimos anos. Com o caso na favela Buraco Quente, no Campo Limpo, a instituição registrou, em 2012, até o início de setembro, 32 ocorrências deste tipo. Em anos anteriores, o Corpo de Bombeiros da cidade de São Paulo registrou mais casos: 130 em 2008, 122 em 2009, 91 em 2010, 79 em 2011. O gráfico é declinante.

Twitter Bombeiros

Mapa dos incêndios – Pois bem. Uma turma de jornalistas e programadores criaram um mapa com todos os incêndios ocorridos este ano. Visualizar geograficamente os fatos, todos juntos, ajuda a perceber novas informações e buscar relações e compreensão. Pelo Twitter, o jornalista Fabiano Angélico, prontamente, registrou: “A maioria deles (dos incêndios) está bem perto de artérias importantes da cidade”.

É um aspecto interessante que merece mais investigação. Com os 32 casos registrados em 2012, é difícil determinar precisamente se há uma relação direta entre os incêndios e a proximidade das favelas com as grandes avenidas e áreas mais valorizadas. O ideal seria jogar em um mapa todos os incêndios ocorridos desde 2008, por exemplo, para verificar, em uma amostra maior, com um universo mais abrangente, se essa constatação (que brota dos dados de 2012) se repete nos anos anteriores. Se for confirmada, dá notícia, com mais segurança.

Incêndios favelas 2012

Cruzamentos – Mas a investigação pode ir além. Imagine que, entre todos os incêndios registrados entre 2008 e 2012, a maioria ocorreu em favelas próximas a grandes avenidas. Agora imagine que a maior parte das favelas paulistanas está próxima de grandes avenidas. Se isso realmente for verdade, a notícia não é tão gritante assim. Afinal, se há mais corintianos em São Paulo, é de presumir que você verá nas ruas mais pessoas vestindo camisa do Corinthians.

O projeto FolhaSPDados publicou um texto e um mapa mostrando a quantidade e a localidade das favelas paulistanas. Segundo o jornal, há 1.633 favelas na capital paulista. É mais uma base de dados que pode ser sobreposta à inicial (a dos incêndios) e tentar pintar, em cores diferentes, quais favelas estão longe e próximas às principais artérias da cidade.

FolhaSPdados

Se poucas favelas paulistanas estiverem à beira de grandes avenidas, e se essas poucas localidades registrarem a maioria dos incêndios registrados no périodo desde 2008, há uma boa informação para inciar uma matéria interessante. A pergunta que teria de ser respondida, neste exemplo hipotético, é: porque há menos incêndios em favelas localizadas em regiões menos valorizadas e mais ocorrências em favelas situadas em áreas mais valorizadas?

É isso. As estatísticas – e a cartografia – podem servir como novas ferramentas para os jornalistas perceberem informações adicionais e outros pontos de vista para os assuntos cotidianos.

Atualização – Programadores e jornalistas já iniciaram um trabalho coletivo para organizar as estatísticas e os dados dos incêndios ocorridos na cidade de São Paulo nos últimos anos em um mapa, de modo que a observação espacial das ocorrências ajude a constatar novas informações. Vale acompanhar.

O placar do Mensalão: quem condenou quem por qual crime de uma forma bem fácil de entender

O julgamento da Ação Penal 470 – conhecida como o Caso Mensalão – apresentou desafios para a imprensa. Deslocar jornalistas em quantidade suficiente para acompanhar os debates, as acusações e as defesas no Supremo Tribunal Federal, treinar os profissionais com os termos e trâmites de um julgamento como esse, buscar especialistas, simplificar e explicar didaticamente e contextualizar informações de forma resumida, entre outros.

Quando a leitura de votos dos ministros começou, para cada um dos acusados, para cada tipo de crime apregoado a cada réu, outro desafio surgiu: como mostrar ao leitor um placar que reunisse tantas informações ao mesmo tempo sem transformá-lo em um painel com centenas de dados confusos e desorganizados?

Afinal, há 11 ministros, 40 réus, sete crimes diferentes. Como há réus com dois ou mais crimes, há um total de 102 julgamentos – e cada ministro precisa dar um voto para cada um desses julgamentos, perfazendo um total de 1.122 votos (considerando que todos os ministros apresentarão votos para todos os crimes denunciados).

Mensalão Valor Econômico

O portal R7 e o jornal Valor Econômico encontrarão as melhores soluções visuais para mostrar de forma rápida, resumida e abrangente o placar do julgamento, considerando os votos de todos os ministros para todos os crimes denunciados.

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O que um traz na coluna, outro traz nas linhas, mas o resultado é o mesmo. A tendência é que, conforme todos os crimes denunciados sejam julgados, falte espaço horizontal ao infográfico do R7, já que a solução preferida foi escrever o nome dos ministros um embaixo do outro. O placar terá de crescer para a direita.

Já a solução do Valor Econômico permite que o placar cresça para baixo, já que o nome dos ministros foi escrito um ao lado do outro, no topo da tabela. Há a possibilidade, inclusive, de o placar final do julgamento inteiro caber numa única página de jornal, o que pode servir de instrumento de trabalho para jornalistas e outros profissionais.

O placar do R7, no entanto, conseguiu juntar numa mesma coluna a decisão dos ministros, independentemente se eles votarem pela absolvição ou pela condenação. Já o placar o Valor Econômico criou duas colunas, em cores diferentes, para mostrar a diferença do voto ao leitor.

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Vale ainda uma menção ao infográfico criado pelo portal G1 para mostrar qual réu é acusado de qual crime, de forma muito simples, didática e eficiente. O mesmo objetivo foi cumprido com maestria pelo jornal O Globo, em uma infografia interativa, com fotos dos acusados.

Veja mais:

A imprensa produziu diversos infográficos, muitos deles interativos, sobre o caso Mensalão. O VisualLoop, um portal que reúne infografias e visualizações, reuniu um conjunto delas.