Histórias do futebol: boas matérias não precisam ter só pessoas com origem humilde, difícil e pobre


O Globoesporte.com publicou duas reportagens bastante interessantes no dia 29 de agosto. Ambas mostram a situação atual de dois personagens polêmicos que ganharam manchetes no passado e ressurgem depois de meses de esquecimento. São matérias que se sobressaem pela originalidade da pauta, pela sinceridade das fontes e pelo esforço em trazer informações novas ao leitor em uma área – futebol – na qual a imprensa costuma repetir as mesmas fórmulas e criar falsas polêmicas com perguntas muito ruins.

A primeira matéria narra a trajetória recente de Diogo, um jogador de categorias de base do São Paulo que entrou na Justiça contra o clube. Ganhou fama repentina por dois motivos: outros atletas jovens mais talentosos e promissores também acionaram o mesmo clube na Justiça, buscando anular contratos assinados, e o São Paulo é descrito, usualmente, como clube exemplar na gestão das categorias inferiores. Três raios caindo no mesmo lugar é sempre sinal de matéria para o jornalismo.

Globoesporte Diogo

A segunda reportagem conta a história da ex-bandeirinha Ana Paula de Oliveira, que ganhou destaque por atuar numa profissão majoritariamente masculina, repleta de preconceitos e pressão. Ana Paula, uma espécie de musa da arbitragem, apitou jogos importantes, se envolveu em polêmicas por causa de erros em campo (como qualquer árbitro) e depois posou nua na revista mais famosa do Brasil.

Bons ingredientes – Há aspectos que ajudam a tornar os dois personagens interessantes. Ambos se envolveram em situações polêmicas. Diogo era um atleta de categoria de base em um clube conhecido por ter uma estrutura de excelência para os jogadores mais jovens. Ele entrou na Justiça alegando irregularidades. Praticamente, negava todo essa ideia pre-concebida. Já Ana Paula ousou pousar nua em uma profissão extremamente machista.

Os jornalistas que lembraram de ambos não caíram na mesmice de dar ênfase ou foco em aspectos que endeusam os personagens. Geralmente, muitos repórteres, quando precisam escrever um perfil de uma pessoa costumam escorregar e exagerar em alguns aspectos que denotam a origem humilde do personagem, a infância pobre, a superação das dificuldades.

Globoesporte Ana Paula 2

Nos dois casos, os jornalistas tiveram a felicidade de colocar em pauta personagens que já fizeram parte do imaginário do leitor e que desapareceram somente das páginas de jornais, pois continuaram trilhando as carreiras com sucessos ou derrotas, mantiveram planos e adotaram novas ações e estratégias. Geraram notícia, apenas não havia repórteres para ouvi-las.

Ao entrevistar a ex-bandeirinha e o atleta das categorias de base, os repórteres ouviram arrependimentos e convicções, presenciaram sentimentos como tristeza e raiva, transcreveram novos planos e estratégias dos dois personagens. Da mesma forma que a fama repentina de muitos deles parece porosa e insustentável, o ostracismo pode ser também um exagero.

Veja mais:

As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s