Arquivo do mês: agosto 2012

Histórias do futebol: boas matérias não precisam ter só pessoas com origem humilde, difícil e pobre

O Globoesporte.com publicou duas reportagens bastante interessantes no dia 29 de agosto. Ambas mostram a situação atual de dois personagens polêmicos que ganharam manchetes no passado e ressurgem depois de meses de esquecimento. São matérias que se sobressaem pela originalidade da pauta, pela sinceridade das fontes e pelo esforço em trazer informações novas ao leitor em uma área – futebol – na qual a imprensa costuma repetir as mesmas fórmulas e criar falsas polêmicas com perguntas muito ruins.

A primeira matéria narra a trajetória recente de Diogo, um jogador de categorias de base do São Paulo que entrou na Justiça contra o clube. Ganhou fama repentina por dois motivos: outros atletas jovens mais talentosos e promissores também acionaram o mesmo clube na Justiça, buscando anular contratos assinados, e o São Paulo é descrito, usualmente, como clube exemplar na gestão das categorias inferiores. Três raios caindo no mesmo lugar é sempre sinal de matéria para o jornalismo.

Globoesporte Diogo

A segunda reportagem conta a história da ex-bandeirinha Ana Paula de Oliveira, que ganhou destaque por atuar numa profissão majoritariamente masculina, repleta de preconceitos e pressão. Ana Paula, uma espécie de musa da arbitragem, apitou jogos importantes, se envolveu em polêmicas por causa de erros em campo (como qualquer árbitro) e depois posou nua na revista mais famosa do Brasil.

Bons ingredientes – Há aspectos que ajudam a tornar os dois personagens interessantes. Ambos se envolveram em situações polêmicas. Diogo era um atleta de categoria de base em um clube conhecido por ter uma estrutura de excelência para os jogadores mais jovens. Ele entrou na Justiça alegando irregularidades. Praticamente, negava todo essa ideia pre-concebida. Já Ana Paula ousou pousar nua em uma profissão extremamente machista.

Os jornalistas que lembraram de ambos não caíram na mesmice de dar ênfase ou foco em aspectos que endeusam os personagens. Geralmente, muitos repórteres, quando precisam escrever um perfil de uma pessoa costumam escorregar e exagerar em alguns aspectos que denotam a origem humilde do personagem, a infância pobre, a superação das dificuldades.

Globoesporte Ana Paula 2

Nos dois casos, os jornalistas tiveram a felicidade de colocar em pauta personagens que já fizeram parte do imaginário do leitor e que desapareceram somente das páginas de jornais, pois continuaram trilhando as carreiras com sucessos ou derrotas, mantiveram planos e adotaram novas ações e estratégias. Geraram notícia, apenas não havia repórteres para ouvi-las.

Ao entrevistar a ex-bandeirinha e o atleta das categorias de base, os repórteres ouviram arrependimentos e convicções, presenciaram sentimentos como tristeza e raiva, transcreveram novos planos e estratégias dos dois personagens. Da mesma forma que a fama repentina de muitos deles parece porosa e insustentável, o ostracismo pode ser também um exagero.

Veja mais:

As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas.

Em Nova Iorque, até estatísticas sobre revistas policiais são divulgadas. Por que não deveriam?

Uma reportagem do The New York Times chamou a atenção para o nível de dados que são divulgados pelo Departamento de Polícia de Nova Iorque. Mais do que divulgar periodicamente os indicadores de diversos crimes, o que é comum em centenas de cidades ao redor do mundo, a polícia local disponibiliza para a imprensa e para a sociedade as estatísticas sobre abordagens e revistas feitas pelos policiais.

Revistas policiais NY

No Brasil, ainda é comum as autoridades públicas esconderem, deturparem ou divulgarem parcialmente os dados referentes à segurança pública e ao desempenho das forças policias. O país ainda não tem um sistema de informações nacional, atualizado, com a quantidade de ocorrências policiais.

Dados de segurança pública são produzidos com recursos públicos – e por isso deveriam ser disponibilizados, no detalhe, para a sociedade e para a imprensa. Se há o argumento das autoridades policiais de que eles são estratégicos para realizar o planejamento contra os criminosos, vale também a justificativa que estes dados também são valiosos para os próprios cidadãos planejarem a própria segurança, moldar a rotina e se precaver contra o crime.

Se uma rua é a campeã de roubos de carros, os motoristas deveriam saber disso para decidirem se querem correr o risco de estacionar o carro nela. Se um bairro tem tido muitos roubos e furtos, as pessoas podem desejar não morar nele ou frequentá-lo – ou inquilinos podem querer exigir aluguéis mais módicos. É cruel pensar dessa forma, mas é um direito do indivíduo.

O Brasil precisa evoluir nessa área – na coleta, organização e divulgação de estatísticas públicas de interesse social. Na área de segurança, há um tabu ainda consistente, que pouco arrefeceu ao longo dos anos. Um exemplo positivo foi a decisão do governo estadual de São Paulo. Ele decidiu divulgar dados de crimes por bairro. Pena que tal postura só vingou depois de denúncias na imprensa apontando o mau uso, privado e privilegiado, dos indicadores até então mantidos em sigilo.

Saiba mais:

Qual é o perigo de divulgar informações públicas?

Nos EUA, carros roubados recuam 40%. Em SP, 21%. No Brasil, pouco se sabe.

Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil.

Em 2025, metrópoles brasileiras devem ter o dobro do PIB. Como organizar essa riqueza?

A Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) tem números superlativos. Hoje, tem quase 20 milhões de pessoas, cada uma com renda média anual de US$ 23 mil. Em 2025, segundo um trabalho baseado em estatísticas municipais elaborado pelo McKinsey Global Institute, deve ter população 18% maior, mas um PIB quase 110% superior, o que elevará a renda média anual de cada habitante em 60%, para US$ 37 mil.

A variação é significativa, mas o patamar está ainda longe de qualquer cidade de primeiro mundo. Em Nova Iorque, por exemplo, para comparação, terá cidadãos com renda média anual de US$ 79 mil. Outras metrópoles brasileiras também terão desempenho similar: PIB muito maior, população pouco maior e maior riqueza per capita entre 2010 e 2015:

– Rio de Janeiro e entorno: em 15 anos, PIB 97% maior, população 15% maior e renda média anual per capita 56% maior.

– São José dos Campos e entorno: em 15 anos, PIB 90% maior, população 15% maior e renda média anual per capita 50% maior.

– Salvador e entorno: em 15 anos, PIB 135% maior, população 26% maior e renda média anual per capita 78% maior.

– Belo Horizonte e entorno: em 15 anos, PIB 134% maior, população 21% maior e renda média anual per capita 80% maior.

– Fortaleza e entorno: em 15 anos, PIB 97% maior, população 15% maior e renda média anual per capita 56% maior.

McKinsey

Dinamismo mundial – O instituto da consultoria McKinsey analisou as estatísticas dos municípios ao redor do mundo para identificar as 600 com maior dinamismo para elevar a renda média global, considerando as cidades que formam as regiões metropolitanas.

O objetivo da instituição é oferecer dados para que empresas e autoridades planejem melhor a organização de tamanha riqueza que emergirá nessas cidades consideradas centros de irradiação e de gravidade da riqueza mundial. Serão as mais dinâmicas, de onde o dinheiro partirá e para onde certamente irá.

Planejar a riqueza – A pergunta que fica para os eleitores, para os candidatos e futuros eleitos é como gerenciar tamanha massa de pessoas e recursos em cada cidade. Em cidades mais organizadas ou com histórico de organização mais longínquo ou recente de boas políticas públicas em funcionamento, a riqueza e a população excedentes podem ser considerados bons problemas.

Em cidades brasileiras, repletas de exemplos nos quais a riqueza aumenta, mas é administrada e aplicada sem eficiência assegurada, o crescimento pode ser um problema.

Por isso, nas próximas eleições municipais, é preciso que os grandes problemas sejam pensados e debatidos e para eles sejam sugeridas diretrizes e propostas. Como garantir, no longo prazo, a mobilidade de 23 milhões de pessoas na RMSP? Como manejar os recursos ambientais, sobretudo hídricos, para garantir o abastecimento de água e a saúde pública ao mesmo tempo? Como distribuir a riqueza em todas as regiões?

Para saber mais:

A revista norte-americana Policy Foreign abordou com muita criatividade o estudo da McKinsey. Publicou fotos-legendas para 75 mais dinâmicas cidades. Infelizmente, as descrições resumidas de cada cidade nem sempre correspondem ao aspecto mais problemático, vibrante ou inovador da localidade. Mas a ideia foi muito boa. Vale conferir.

Um árbitro aposentado vem fazendo jornalismo esportivo bem melhor que boa parte da imprensa

Leonardo Gaciba, ex-árbitro de futebol, se aposentou em outubro de 2010. Sorte dos torcedores. Não, ele não era um péssimo juiz. É que, ao abandonar o apito, ele passou a trabalhar como comentarista esportivo para o canal de televisão fechada SporTV e a escrever textos para um blog no portal da mesma emissora.

Os textos abordam, é claro, õ trabalho da arbitragem, mas com uma abordagem bastante diferente. O último relato, por exemplo, é uma verdadeira aula de jornalismo. Gaciba coletou dados, analisou-os e entregou ao leitor conclusões sobre o comportamento dos árbitros com o uso dos cartões amarelo e vermelho. Descobriu que a média de cartões despencou no Brasileirão 2012 enquanto o número de faltas manteve estável.

Ele somou a quantidade de punições dadas aos jogadores nos campeonatos de 2008 até 2012 (considerando sempre as 12 primeiras rodadas, que representam cerca de um terço da competição) e detectou que os juízes estão aplicando menos cartões. mais que isso: a redução é significativa. E ele pergunta: o que mudou? Porque mudou? O que aconteceu? Com especialista e fonte, ele mesmo identifica hipóteses e as comenta.

Dados como esses – quantidade de cartões amarelos e vermelhos mostrados aos atletas nos últimos cinco anos – não estão facilmente disponíveis na internet. Por isso, a maior parte dos jornalistas esportivos prefere opinar com base no que eles sentem e acham no momento – e essa opinião pode acabar enviesada e contaminada por diversos componentes, como a paixão clubística do repórter, a raiva por causa de algum acontecimento em um jogo recém-concluído ou a bronca com algum árbitro ou jogador, entre outros.

O ex-árbitro Gaciba merece os parabéns. Para apresentar as estatísticas que apresentou – e têm mostrado em diversos textos – certamente ele tem pesquisado e organizado os próprios bancos de dados para poder analisar os números e oferecer aos leitores informações mais precisas e objetivas. Os dados ajudam a esclarecer e circunscrever os fatos e reduzem o espaço para opiniões infundadas. Se o ex-juiz de futebol pode fazer, porque a maior parte dos profissionais da imprensa continuam a trabalhar na escuridão dos fatos?

Londres 2012: cinco ótimas ideias do The Guardian colocam o internauta dentro dos Jogos Olímpicos

O jornal britânico The Guardian tem uma das principais equipes de programadores, jornalistas e designers trabalhando no desenvolvimento de reportagens baseadas no uso intensivo de estatísticas – vertente que tem sido denominada como “data-driven journalism”.

Os Jogos Olímpicos de 2012 são campo fértil para coletar dados e mostrá-los de forma inusitada, bela e mais eficiente – e a equipe do The Guardian tem sido bem sucedida neste esforço. Basta acompanhar tudo na seção olímpica do jornal na internet.

Mais do que beleza, o The Guardian procura apresentar trabalhos funcionais e eficientes, que entreguem informação útil. Nem ~todos os projetos são de fácil entendimento, mas, em geral, essa é a regra.

Efeito segunda tela – Um dos mais inovadores é a rede mundial de contatos de especialistas em competições olímpicas. O projeto permite que os internautas sigam, pelo Twitter, atletas, instituições, técnicos, blogueiros ou especialistas em 28 modalidades olímpicas. Como está escrito no anúncio, “siga-os enquanto eles escrevem pelo Twitter durante os jogos para colher a energia da atividade ao vivo e compartilhe visões técnicas ou triviais”.

Ótima ideia, realmente bastante útil e inovadora, principalmente em um momento em que ganha força o hábito de consumir informações simultaneamente pela televisão e internet – tendência de consumo denominada de “segunda tela”.

Olympic experts' network

Preparação física – Outra ideia bastante interessante do The Guardian foi o projeto que narra informações fundamentais ou somente curiosas da preparação dos atletas, tanto física quanto mental, de acordo com cada modalidade, mostrando que há muito mais cuidado e ciência por trás do desempenho deles do que apenas vontade e inspiração.

Novamente, o anúncio promete exatamente o que cumpre: “Do jogador de basquete que come um quilo de carne por refeição ao atleta de canoagem que fica sem se alimentar, do corredor que cobre 120 quilômetros por semana para a ciclista que anseia coxas maiores”. Usa o velho truque do jornalista que manda usar informações inusitadas para atrair a atenção do internauta – mas entrega um bom projeto. Os depoimentos são muito interessantes.

Olympic bodies

Excursão virtual – Incrível também é a sensação de passear por todo o parque olímpico, tanto as áreas externas quanto as internas das instalações. O mecanismo é bastante conhecido e utilizado com bastante maestria na excursão virtual. Basta clicar em cada instalação e depois mover as setas para ir para cima, para baixo, direita ou esquerda, aproximar ou distanciar a imagem.

Num passeio virtual pelo estádio olímpico, por exemplo, é possível notar a quantidade de equipamentos na cobertura do estádio (que permitiu a queima de fogos na cerimônia de abertura) e também os cabos de aço de ponta a ponta na mesma cobertura para que as câmeras de televisão busquem ângulos diferenciados de imagens. Na vila olímpica dos atletas, somente um vídeo. Vale lembrar que toda essa imensa área da Zona Leste de Londres era degradada, com muitos prédios abandonados, considerada uma espécie de ferro-velho a céu aberto. Tudo foi demolido, reaproveitado, reciclado e reconstruído.

Tour virtual

Os mais populares – Em um infográfico interativo, o The Guardian mostra quem são os atletas olímpicos mais populares, dia após dia, durante a realização das competições. A audiência é verificada a partir das citações nas redes sociais. Conforme os jogos avançam e grandes vitórias ou derrotas acontecem, esportistas são mais ou menos citados – e, assim, entram ou deixam a lista dos cem atletas mais populares.

Essa ideia, apesar de interessante e eficiente, já foi colocada em prática pelo jornal norte-americano The New York Times, cuja equipe também tem no currículo diversos prêmios conquistados por produzir reportagens inovadoras a partir da mescla de conhecimento de estatísticos, jornalistas, programadores e designers.

Os jornalistas do The New York Times produziram soluções mais interessantes que o The Guardian para medir a popularidade dos jogadores de futebol durante a última edição da Copa do Mundo, na África do Sul, e dos competidores da NFL, a liga de futebol americano. Para dimensionar e comparar a audiência dos atletas, os nova-iorquinos preferiram usar a imagem de cada jogador em proporções maiores ou menores, mostrando facilmente quem é mais citado pelas redes sociais em cada momento.

topworldcupplayers

Seja um competidor – O The Guardian também quer saber se o internauta pode ser um medalhista. Para isso, criou um jogo interativo no qual é possível escolher entre quatro competições – natação, ciclismo, maratona e atletismo – e disputar as provas com os melhores atletas olímpicos de todos os tempos.

Medallist

O cenário é similar aos jogos de videogame antigos. O internauta insere nome, o tempo que deseja concluir a prova e pronto – o jogo faz o resto. É extraordinário ver o desempenho de todos os atletas concorrentes. O aplicativo do Guardian ainda permite compartilhar os resultados pela internet e convidar amigos para disputar as provas. Ao clicar no nome de cada atleta, a imagem muda para ele como se uma câmera de televisão passasse a acompanhá-lo. Imperdível.

Para saber mais:

Analise com calma as diversas reportagens já produzidas pelo DataStore do The Guardian. Eles publicam quase que diariamente novas matérias abordando assuntos variados, com foco na análise de estatísticas para descobrir novas abordagens encobertas. Durante os Jogos Olímpicos 2012, eles criaram um interessante infográfico interativo mostrando os recordes olímpicos desde 1900 , escreveram sobre uma nova possibilidade de avaliar o desempenho dos países nos Jogos Olímpicos e disponibilizaram em detalhes o orçamento para a organização do evento, indicando quem pagou a conta e quanto custou cada instalação.