Nos EUA, há 15 mil homicídios por ano. No Brasil, 45 mil. Mas isso é só o começo dessa história


murder-draft-1.previewNos Estados Unidos, cerca de 15.000 pessoas são assassinadas por ano – e a taxa de solução de crimes, decrescente, diminuiu para 65%. No Brasil, os assassinatos somam, anualmente, cerca de 45.000 pessoas – e ninguém sabe como está a taxa de solução nacional destes crimes. Mas, com esforço, essa estatística pode surgir em algum tempo. Basta seguir os rastros de um dos mais recentes projetos premiados nos Estados Unidos por unir jornalismo, estatística, programação de computador e ciências sociais.

Nos Estados Unidos, Thomas Hargrove, repórter engajado no uso de dados e métodos das ciências sociais no jornalismo, ganhou recentemente um prêmio – o Philip Meyer Journalism Award – por ter coletado e analisado estatísticas sobre assassinados nos estados norte-americanos. O valor do primeiro prêmio, US$ 500, foi simbólico. O trabalho que ele desenvolveu, no entanto, chamado Murder Mysteries, ajudou inclusive alguns departamentos locais de polícia a reabrir casos antigos mediante o aparecimento de novas pistas.

Roteiro de um grande projeto – O início do projeto surgiu de uma pergunta: é possível detectar a ação de assassinos em série (os “serial killers”) a partir da análise dos relatórios de homicídios do FBI, o Federal Bureau of Investigation, órgão similar a Polícia Federal brasileira? Ele escarafunchou dados de 185 mil assassinatos não resolvidos entre 1980 e 2008 e produziu inúmeras reportagens.

Logo de início, descobriu que as forças policiais locais falharam em informar ao FBI diversos casos e, utilizando a lei de acesso à informação norte-americana, ele reuniu detalhes de 15 mil casos adicionais de assassinatos. Ele gastou mais de um ano nesse esforço, utilizando leis locais de acesso a informações públicas.

Murder Mysteries dataO passo seguinte – ou paralelo – foi desenvolver um algoritmo que permitiu cruzar e agrupar dados e detectou prováveis traços de mortes cometidas pelas mesmas pessoas, em série. O banco de dados completo foi disponibilizado na internet para acesso público.

Hargrove tem formação e experiência em áreas como jornalismo, análise de dados estatísticos, amostragem de pesquisas, programação e mineração de dados. Essas habilidades permitem a ele realizar projetos complexos e enfrentar os desafios inerentes tanto na busca, organização e análise de dados quanto na apresentação, de forma compreensível, das conclusões que brotam de milhares de células de estatísticas. Já estudou e publicou sobre temas como desaparecimento de crianças, mortalidade infantil inesperada e padrões em casos de homicídios não resolvidos – e todos resultaram, de certa forma, em aperfeiçoamentos nas políticas públicas.

A realidade brasileira – E no Brasil? Quantos assassinatos aconteceram nos últimos anos no país inteiro? O site do Ministério da Justiça não ajuda muito. Lá, há uma apresentação com dezenas de páginas e algumas estatísticas sobre ocorrências criminais referentes aos anos de 2004 e 2005. Para obter dados atualizados e organizados, vale acessar o Mapa da Violência, projeto de Julio Jacobo Waiselfiz.

Mapa da Violência 2011O pesquisador utilizada números do Datasus, o banco de dados do Sistema Único de Saúde, acessível a qualquer internauta. A vantagem é que o trabalho organiza e interpreta os dados, com explicações metodológicas , sem riscos de erro. No Datasus, o excesso de estatísticas e informações pode ser um inimigo para quem tiver pouca familiaridade com o tema.

Quanto à taxa de resolução desse tipo de crime, há uma percepção de que o desempenho não é bom. É difícil arriscar qualquer aposta. Especialistas costumam relacionar taxa maiores de solução de crimes com quantidade menor de assassinatos – e diversos estados brasileiros mostram trajetória decrescente homicídios.

Se os dados não estão à mostra, a saída para pesquisadores e jornalistas – com tempo, dinheiro e disposição – é aproveitar a Lei de Acesso à Informação recentemente aprovada no Brasil – e já em vigor para órgãos e autarquias públicas nas esferas federal, estadual e municipal. Infelizmente, não será um caminho fácil, principalmente para um país com cultura contrária à divulgação de informações e documentos públicos. Será necessário pedir informações em vários balcões. Mas é possível.

Para saber mais:

Acesse a lista de vencedores da última edição do Philip Meyer Journalism Award e conheça os projetos jornalísticos similares ao Murder Mysteries.

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10 Respostas para “Nos EUA, há 15 mil homicídios por ano. No Brasil, 45 mil. Mas isso é só o começo dessa história

  1. Brasil tem as mais Covardes leis do mundo, por isso tem tantos crimes!

  2. A proporção é maior se lembrar-mos que os EUA tem quase o dobro da população brasileira. Seriam algo em torno de 5 vezes “menos” assassinatos e não 1/3. Mas num país onde falta estrutura para tudo, leis medíocres e legislativo muitas vezes sob suspeita de conchavos com bandidos. Vamos esperar o que né?

  3. Jcasadei, errado não é quase o dobro, no EUA 316 MI no Brasil 196 MI…então sua conta não bate…

    • Caro Adriano, a informação do comentário anterior, no qual o leitor disse que os EUA tem uma população quase o dobro da brasileira, realmente não é correta, conforme os números que você resgata em seu comentário.

      Mas o leitor tem razão quando compara “proporcionalmente” a quantidade de crimes ocorridos no Brasil e nos EUA em relação à população de cada país. Dessa forma, mostra que a incidência é maior.

      Concordei com ele pois a leitura que ele fez (olhando o tamanho do problema proporcionalmente ao tamanho do universo) é mais correta do que uma simples comparação entre os números absolutos (15.000 contra 45.000) que eu fiz.

      Eu preferi entender o ponto de vista do leitor anterior – e por isso concordei com ele, por mais que a expressão “quase o dobro” não fosse assertiva e precisa. Abs e obrigado.

  4. CARACA ….OS EUA TEM MUITO MAIS POPULAÇÃO DO QUE O BRASIL E MESMO ASSIM O NUMERO DE ASSASSINATOS NO BRASIL É BEEEEEM MAIOR !!!!! POBRE BRASIL kkkkkkkkkk

    • Mas os Estados Unidos por ser um país desenvolvido é alto o número de homicidios. Muito alto. 15 mil é muito para um país que tem leis duras.

  5. Acredito que esses números,além de uma questão cultural,têm muito a ver com leis muito brandas para crimes bárbaros no Brasil,se fosse instituída a prisão perpétua com trabalho forçado,ou e até a pena de morte como em vários estados americanos,o índice reduziria a metade,ou mais!!

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