Arquivo do mês: julho 2012

Londres 2012: como a Foreign Policy superou o desafio de produzir reportagens inovadoras

Os grandes eventos – econômicos, políticos, esportivos ou culturais são um desafio para a mídia. Os jornalistas precisam apresentar ao público reportagens com abordagens inovadoras, exclusivas e surpreendentes. Nessa busca, muitas tentativas resultam em matérias bobas, fúteis ou apenas um pouco engraçadas.

cover_jul26_geolympicsA revista norte-americana Foreign Policy, quinzenal, conseguiu pensar uma boa reportagem – e cumpriu-a muito bem. Eles reuniram alguns casos que marcaram politicamente a realização dos Jogos Olímpicos, alguns deles bastante conhecidos – como o ataque terrorista perpetrado pelo Setembro Negro em Munique, Alemanha, em 1972, que resultou na morte de 11 atletas israelenses e cinco terroristas.

O interessante é que as desavenças geopolíticas entre as grandes potências mundiais ao longo da história refletiram em muitos Jogos Olímpicos. Os casos são bem narrados pela revista Foreign Policy.

Vale a pena a leitura. A revista é conhecida por analisar com bastante abrangência e competência as relações externas e as intrigas mundiais de poder entre as nações. A reportagem está em inglês.

A concepção e a estrutura da pauta são relativamente simples. Isso não faz da reportagem algo fácil de ser feito. O jornalista buscou adaptar o tema ao perfil da publicação. Depois, pesquisou, em todos os eventos olímpicos, exemplos nos quais as nações trouxeram para dentro de campo os conflitos políticos ou geográficos que viviam fora dele. Vários exemplos que têm o mesmo conceito ou os mesmos princípios por trás dão unidade à matéria. Depois, bastou descrever os episódios. É isso.

Nos EUA, autoridades fazem 1,3 milhão de pedidos de dados para operadoras de celular. E aqui?

Uma reportagem do The New York Times revelou que, nos Estados Unidos, as companhias de telefonia celular receberam 1,3 milhão de pedidos para prestarem informações sobre os clientes. A demanda vem de decisões judiciais e investigações policiais. A pauta produzida lá poderia ser copiada aqui no Brasil? Certamente.

O Brasil aprovou recentemente uma lei de acesso à informação. O cidadão tem direito de conhecer dados produzidos pelas três instâncias de governo (federal, estadual e municipal), dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, envolvendo autarquias, agências e quaisquer instituições públicas.

O conceito é: se a informação foi produzida por servidores públicos, que trabalham para a sociedade e em nome dela, com o gasto do dinheiro dos contribuintes, o cidadão tem direito a conhecê-la. Há regras de sigilo por um período finito de tempo, para determinados tipos de informação.

Apesar do sigilo envolvendo as investigações policiais e alguns pedidos judiciais, o cidadão tem o direito de conhecer o quanto as operadoras celulares estão recebendo dessas solicitações.

Dados individuais continuariam sob sigilo, acessível somente por demanda judicial, mas os dados absolutos anuais podem ser úteis para  os cidadãos avaliarem o quanto confiam informações por estes serviços.

As pessoas que assinam um serviço como o de telefonia móvel deveriam saber com qual frequência as autoridades governamentais estão legalmente solicitando algumas informações confidenciais, como envio de mensagens e de e-mails, ligações telefônicas feitas e recebidas e também a localização e do aparelho. O que você acha?

Todos os gols de Messi em uma única e magistral infografia. Quer saber como foi feita?

Messi O infográfico acima é de Fábio Abreu. Mostra o desempenho do craque argentino Lionel Messi. Ele conseguiu, de forma magistral, mostrar diversas características dos gols do jogador:

– Quantidade de gols por ano (inclusive, oferecendo uma noção da quantidade de gols feitos em um ano em relação ao total de gols já marcados por Messi na carreira até agora);

– Em que lugar do gol a bola entrou e de que lugar do campo o jogador chutou ou cabeceou para o gol;

– O desempenho do jogador antes e depois de o treinador Pep Guardiola assumiu o comando da equipe do Barcelona;

– A quantidade de partidas e de gols em um único gráfico que deixa claro que a eficácia do argentino aumentou ao longo dos anos, superando a marca média de um gol por jogo nas duas últimas temporadas.

– A quantidade de partidas e o total de gols e assistências em um único gráfico, evidenciando novamente a importância do argentino para o time espanhol nas últimas quatro temporadas.

– Com que parte do corpo o gol foi marcado, ano a ano. Há, inclusive, um gol de mão.

A organização dos dados – As informações que constam no infográfico não estão catalogadas e disponíveis facilmente em algum portal – oficial do clube ou especializado em futebol. Fábio Abreu precisou coletar os dados na fonte original – assistiu todos os gols, várias vezes, e catalogou todos os dados.

Ele aproveitou vídeos disponíveis no Youtube. Um deles foi elaborado por um fã; outro é do programa de televisão do próprio Barcelona. Abreu assistiu oito vezes o primeiro e uma vez o segundo, para confirmar informações.

O autor desenhou em uma folha de papel oito áreas e e oito traves e, enquanto assistia os gols, marcava onde a bola entrou e de onde ela partiu. Para finalizar, pesquisou no Wikipedia e nas estatísticas da Uefa, a União das Federações Européias de Futebol, para verificar a quantidade de gol marcados e assistências (o último passe, que possibilita o gol) do argentino em cada temporada.

Os alertas – É claro que pode haver imprecisões de centímetros ao tentar apontar o local que a bola entrou ou de onde ela foi chutada, até porque os vídeos não oferecem vários ângulos e pontos de vista para todos os gols. “Mas na proporção da página isso é imperceptível”, avalia o próprio Fábio Abreu.

Ele alerta sobre dois cuidados que tomou para catalogar as informações e produzir a infografia. Primeiro: a bola está na proporção real em relação a trave. Segundo: desde que você confirme a informação que está descrita nas páginas do Wikipedia com outras fontes, não há problema em usar a enciclopédia virtual na pesquisa.

Sugestão de pauta – Será que os cadernos esportivos poderiam investir algum tempo, buscar ajuda nos departamentos de história e estatísticas dos clubes e tentar fazer o mesmo com as principais estrelas do Campeonato Brasileiro 2012?

Sete anos depois, New Orleans conclui obras contra enchentes: 214 km de barreiras, R$ 30 bilhões

JP-HURRICANE-1-articleLarge Uma interessante reportagem do jornal norte-americano The New York Times narra a conclusão das obras de proteção contra inundações na cidade de New Orleans, devastada pelo furacão Katrina sete anos atrás.

O assunto ganha interesse por alguns motivos. A obra é gigantesca: consumiu US$ 14,5 bilhões (R$ 29,4 bilhões) para edificar 133 milhas (214 quilômetros) de barreiras, portões contra enchentes, bombas e  proteções diversas.

A infografia, simples, é eficiente, apesar de não ser bonito. Infográficos, antes de belos, precisam ser certeiros ao narrar a informação. Poderia ser melhor, com imagens em profundidade.

0615-nat-webHURRICANE2 O jornal perdeu a oportunidade para editar uma sequência de de fotos-legendas na versão online – ou até na impressa, o que seria ousado, eficiente e causaria um efeito arrasador, positivamente falando. Obras de infraestrutura chamam atenção e geram curiosidade pela grandiosidade. Para narrar, seria mais eficiente mostrar em imagens do que em texto.

No Brasil, obras gigantescas de infraestrutura como o sistema de proteção contra enchentes de New Orleans já estão em andamento há vários anos – e devem consumir mais um bom período. Exemplos: transposição das águas do rio São Francisco e a construção das ferrovias Norte-Sul e Transnordestina.

Nos EUA, há 15 mil homicídios por ano. No Brasil, 45 mil. Mas isso é só o começo dessa história

murder-draft-1.previewNos Estados Unidos, cerca de 15.000 pessoas são assassinadas por ano – e a taxa de solução de crimes, decrescente, diminuiu para 65%. No Brasil, os assassinatos somam, anualmente, cerca de 45.000 pessoas – e ninguém sabe como está a taxa de solução nacional destes crimes. Mas, com esforço, essa estatística pode surgir em algum tempo. Basta seguir os rastros de um dos mais recentes projetos premiados nos Estados Unidos por unir jornalismo, estatística, programação de computador e ciências sociais.

Nos Estados Unidos, Thomas Hargrove, repórter engajado no uso de dados e métodos das ciências sociais no jornalismo, ganhou recentemente um prêmio – o Philip Meyer Journalism Award – por ter coletado e analisado estatísticas sobre assassinados nos estados norte-americanos. O valor do primeiro prêmio, US$ 500, foi simbólico. O trabalho que ele desenvolveu, no entanto, chamado Murder Mysteries, ajudou inclusive alguns departamentos locais de polícia a reabrir casos antigos mediante o aparecimento de novas pistas.

Roteiro de um grande projeto – O início do projeto surgiu de uma pergunta: é possível detectar a ação de assassinos em série (os “serial killers”) a partir da análise dos relatórios de homicídios do FBI, o Federal Bureau of Investigation, órgão similar a Polícia Federal brasileira? Ele escarafunchou dados de 185 mil assassinatos não resolvidos entre 1980 e 2008 e produziu inúmeras reportagens.

Logo de início, descobriu que as forças policiais locais falharam em informar ao FBI diversos casos e, utilizando a lei de acesso à informação norte-americana, ele reuniu detalhes de 15 mil casos adicionais de assassinatos. Ele gastou mais de um ano nesse esforço, utilizando leis locais de acesso a informações públicas.

Murder Mysteries dataO passo seguinte – ou paralelo – foi desenvolver um algoritmo que permitiu cruzar e agrupar dados e detectou prováveis traços de mortes cometidas pelas mesmas pessoas, em série. O banco de dados completo foi disponibilizado na internet para acesso público.

Hargrove tem formação e experiência em áreas como jornalismo, análise de dados estatísticos, amostragem de pesquisas, programação e mineração de dados. Essas habilidades permitem a ele realizar projetos complexos e enfrentar os desafios inerentes tanto na busca, organização e análise de dados quanto na apresentação, de forma compreensível, das conclusões que brotam de milhares de células de estatísticas. Já estudou e publicou sobre temas como desaparecimento de crianças, mortalidade infantil inesperada e padrões em casos de homicídios não resolvidos – e todos resultaram, de certa forma, em aperfeiçoamentos nas políticas públicas.

A realidade brasileira – E no Brasil? Quantos assassinatos aconteceram nos últimos anos no país inteiro? O site do Ministério da Justiça não ajuda muito. Lá, há uma apresentação com dezenas de páginas e algumas estatísticas sobre ocorrências criminais referentes aos anos de 2004 e 2005. Para obter dados atualizados e organizados, vale acessar o Mapa da Violência, projeto de Julio Jacobo Waiselfiz.

Mapa da Violência 2011O pesquisador utilizada números do Datasus, o banco de dados do Sistema Único de Saúde, acessível a qualquer internauta. A vantagem é que o trabalho organiza e interpreta os dados, com explicações metodológicas , sem riscos de erro. No Datasus, o excesso de estatísticas e informações pode ser um inimigo para quem tiver pouca familiaridade com o tema.

Quanto à taxa de resolução desse tipo de crime, há uma percepção de que o desempenho não é bom. É difícil arriscar qualquer aposta. Especialistas costumam relacionar taxa maiores de solução de crimes com quantidade menor de assassinatos – e diversos estados brasileiros mostram trajetória decrescente homicídios.

Se os dados não estão à mostra, a saída para pesquisadores e jornalistas – com tempo, dinheiro e disposição – é aproveitar a Lei de Acesso à Informação recentemente aprovada no Brasil – e já em vigor para órgãos e autarquias públicas nas esferas federal, estadual e municipal. Infelizmente, não será um caminho fácil, principalmente para um país com cultura contrária à divulgação de informações e documentos públicos. Será necessário pedir informações em vários balcões. Mas é possível.

Para saber mais:

Acesse a lista de vencedores da última edição do Philip Meyer Journalism Award e conheça os projetos jornalísticos similares ao Murder Mysteries.