Reportagem excepcional evidencia dilemas – às vezes antagônicos – entre leitores e repórter


Zero Hora - Filho da RuaO Zero Hora publicou uma reportagem muito interessante dias atrás, chamada Filhos da Rua. Narra a trajetória de um garoto com dificuldades para abandonar as drogas e deixar de morar nas ruas. A reportagem, com autorização da Justiça, acompanhou o cotidiano do jovem por três anos seguidos.

A história particular do personagem principal acaba se transformando no pano de fundo para demonstrar vitórias e fracassos também das famílias e dos serviços de assistência social – além dos dilemas do próprio jornalismo. Veja a apresentação da reportagem, que ganhou uma versão multimídia:

Felipe é infantil, mas agressivo; pede ajuda mas não larga o crack; procura a família, mas vive nas esquinas. A sociedade sustenta seu vício com esmolas. A mãe cansou da luta para resgatá-lo. Projetos sociais dos governos fracassaram na missão de ajudá-lo. Por três anos, ZH seguiu seus passos e mostra como a mistura de omissão, pobreza, desestrutura familiar e falta de horizontes é berçário para o nascimento de um menino de rua.

O primeiro ponto interessante é o planejamento – a ideia de imaginar uma reportagem, planejá-la no longo prazo e entregar um resultado anos depois. O jornalista faz um estudo e o publica na forma de matéria. Simples de entender, difícil de conceber e entregar. Vários casos na imprensa já foram bem-sucedidos nesse tipo de pauta – e esse exemplo do Zero Hora merece elogios por ter sido bem-sucedido.

Os dilemas do leitor e do jornalista – No entanto, o aspecto mais interessante é a lição que essa história oferece aos jornalistas e aos leitores sobre os limites da profissão diante de situações extremas – e os dilemas éticos do profissional. Para um cidadão, mesmo aqueles com princípios morais porosos ou preocupações sociais restritas, é inconcebível abandonar uma pessoa em dificuldade extrema se ajudá-la é uma atitude possível no exato momento em que o fato está acontecendo.

Já para o jornalista – ou para o profissional que atua com jornalismo, o que inclui cinegrafistas e fotógrafos – a interferência no fato é algo inconcebível. Afinal, a profissão é reflexo da narração do fato da forma mais fiel possível, sem distorção e interferências.

Um exemplo hipotético clássico é o fotógrafo que, diante de uma enchente de proporções gigantescas e inéditas, vê uma pessoa lutar contra a correnteza até perder para ela. O que o fotógrafo deve fazer? Abandonar a possibilidade de registrar as imagens dessa luta e tentar ajudar a pessoa necessitada? Ou deve manter-se fiel à missão de capturar as imagens de toda a história, o que significa tirar fotografias do começo ao fim (e ninguém consegue prever quando será o final ou o último ato)? Se largar a máquina depois de fazer as primeiras fotos, pode perder a melhor cena e nunc a ninguém terá um registro do fato completo. Se permanecer com a máquina em mãos, pode ver uma pessoa necessitada morrer diante das lentes.

Comentários dos leitores – Muitos leitores do Zero Hora, assim que o tema e o teor da reportagem foi anunciado dias antes da publicação, escolheram um lado e reclamaram muito da postura do jornal, acusando-o de sensacionalista e explorar as dificuldades do personagem principal para vender mais jornal.

Outros, entenderam o objetivo do trabalho do diário e a função da jornalista Letícia Duarte. A repórter responsável pela apuração teve de fazer escolhas difíceis para fazer um relato fiel sobre o acontecimento. Na verdade, parece que ambos estão com a razão – cada qual no papel que tem de cumprir.

O jornal, no fim, não poderia ter deixado os leitores sem respostas, sob risco de se distanciar deles. E não deixou. Promoveu um amplo debate com especialistas, jornalistas e sociedade, pelo qual foi, ao menos, deixar claro qual é a responsabilidade e a função de cada instituição ou profissional. Se os jornalistas entendem Melhor assim.

Saiba mais:

Veja outro exemplo de reportagens planejadas com antecedência para serem publicas anos depois, entregando ao leitor um relato da evolução do fato após um período prolongado de observação.

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