Arquivo do mês: junho 2012

Reportagem excepcional evidencia dilemas – às vezes antagônicos – entre leitores e repórter

Zero Hora - Filho da RuaO Zero Hora publicou uma reportagem muito interessante dias atrás, chamada Filhos da Rua. Narra a trajetória de um garoto com dificuldades para abandonar as drogas e deixar de morar nas ruas. A reportagem, com autorização da Justiça, acompanhou o cotidiano do jovem por três anos seguidos.

A história particular do personagem principal acaba se transformando no pano de fundo para demonstrar vitórias e fracassos também das famílias e dos serviços de assistência social – além dos dilemas do próprio jornalismo. Veja a apresentação da reportagem, que ganhou uma versão multimídia:

Felipe é infantil, mas agressivo; pede ajuda mas não larga o crack; procura a família, mas vive nas esquinas. A sociedade sustenta seu vício com esmolas. A mãe cansou da luta para resgatá-lo. Projetos sociais dos governos fracassaram na missão de ajudá-lo. Por três anos, ZH seguiu seus passos e mostra como a mistura de omissão, pobreza, desestrutura familiar e falta de horizontes é berçário para o nascimento de um menino de rua.

O primeiro ponto interessante é o planejamento – a ideia de imaginar uma reportagem, planejá-la no longo prazo e entregar um resultado anos depois. O jornalista faz um estudo e o publica na forma de matéria. Simples de entender, difícil de conceber e entregar. Vários casos na imprensa já foram bem-sucedidos nesse tipo de pauta – e esse exemplo do Zero Hora merece elogios por ter sido bem-sucedido.

Os dilemas do leitor e do jornalista – No entanto, o aspecto mais interessante é a lição que essa história oferece aos jornalistas e aos leitores sobre os limites da profissão diante de situações extremas – e os dilemas éticos do profissional. Para um cidadão, mesmo aqueles com princípios morais porosos ou preocupações sociais restritas, é inconcebível abandonar uma pessoa em dificuldade extrema se ajudá-la é uma atitude possível no exato momento em que o fato está acontecendo.

Já para o jornalista – ou para o profissional que atua com jornalismo, o que inclui cinegrafistas e fotógrafos – a interferência no fato é algo inconcebível. Afinal, a profissão é reflexo da narração do fato da forma mais fiel possível, sem distorção e interferências.

Um exemplo hipotético clássico é o fotógrafo que, diante de uma enchente de proporções gigantescas e inéditas, vê uma pessoa lutar contra a correnteza até perder para ela. O que o fotógrafo deve fazer? Abandonar a possibilidade de registrar as imagens dessa luta e tentar ajudar a pessoa necessitada? Ou deve manter-se fiel à missão de capturar as imagens de toda a história, o que significa tirar fotografias do começo ao fim (e ninguém consegue prever quando será o final ou o último ato)? Se largar a máquina depois de fazer as primeiras fotos, pode perder a melhor cena e nunc a ninguém terá um registro do fato completo. Se permanecer com a máquina em mãos, pode ver uma pessoa necessitada morrer diante das lentes.

Comentários dos leitores – Muitos leitores do Zero Hora, assim que o tema e o teor da reportagem foi anunciado dias antes da publicação, escolheram um lado e reclamaram muito da postura do jornal, acusando-o de sensacionalista e explorar as dificuldades do personagem principal para vender mais jornal.

Outros, entenderam o objetivo do trabalho do diário e a função da jornalista Letícia Duarte. A repórter responsável pela apuração teve de fazer escolhas difíceis para fazer um relato fiel sobre o acontecimento. Na verdade, parece que ambos estão com a razão – cada qual no papel que tem de cumprir.

O jornal, no fim, não poderia ter deixado os leitores sem respostas, sob risco de se distanciar deles. E não deixou. Promoveu um amplo debate com especialistas, jornalistas e sociedade, pelo qual foi, ao menos, deixar claro qual é a responsabilidade e a função de cada instituição ou profissional. Se os jornalistas entendem Melhor assim.

Saiba mais:

Veja outro exemplo de reportagens planejadas com antecedência para serem publicas anos depois, entregando ao leitor um relato da evolução do fato após um período prolongado de observação.

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Brasil é o 14º maior emissor de CO2, de acordo com dados de 2009. Mas os números podem enganar

O The Guardian tem feito, nos últimos anos, excelentes trabalhos utilizando estatísticas e modelos de visualização de dados. A equipe do DataBlog, liderada por Simon Rogers, tem uma lista valiosa de ótimas reportagens utilizando tais princípios, muitas delas interativas.

Em janeiro de 2011, aproveitando dados da U.S. Energy Information Administration, analisou o histórico de emissões de CO2 dos países e extraiu mudanças ao longo do tempo. Mais: criou um mapa-mundi para mostrar quem são os maiores emissores. O Brasil é o 14º da lista.

Entre as principais constatações da equipe do DataBlog do The Guardian, é que a China transformou-se no principal emissor de CO2 do mundo, ultrapassando os Estados Unidos entre 2006 e 2007. Os norte-americanos, inclusive, reduziram as emissões entre 2007 e 2009.

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Lição principal – Os jornalistas fazem questão de afirmar que as estatísticas precisam ser analisadas por várias frentes para obter um cenário mais próximo da realidade. Uma das formas é verificar as emissões dos países de acordo com a quantidade de habitantes. Com a maior população do globo terrestre, a China está bem abaixo dos Estados Unidos – que mantém-se na liderança sob este ponto de vista.

Pelas estatísticas, cada cidadão norte-americano emite 18 toneladas de CO2 por ano, contra menos de 6 toneladas/ano de um chinês e 1,4 toneladas/ano de um indiano. A média mundial, em 2009, era de 4,5 toneladas por pessoa.

Tão importante quanto as descobertas que as estatísticas mostram – ainda mais em um momento que os líderes mundiais se reúnem na Rio+20, no Rio de Janeiro, é não esquecer a lição do DataBlog. Os mesmos dados podem trazer informações muito diferentes – depende sempre do ponto de vista.

E o Brasil? – Ao analisar os dados, algumas conclusões rápidas surgem sobre o desempenho brasileiro. Entre 2000 e 2009, as emissões do país cresceram 22%. Mas, com pequeno esforço (em consideração a outras nações), o Brasil pode cair mais nessa lista – e quanto mais para baixo, melhor.  Cada brasileiro emite 2,1 toneladas/ano de CO2, abaixo da média latino-americana (2,6 toneladas/ano)

Para reduzir as emissões de CO2, as formas mais rápidas e consistentes são bastante complexas: investir pesadamente em transporte ferroviário de passageiros e de cargas e reduzir a devastação florestal.

Saiba mais:

A U.S. Energy Information Administration coleta e organiza diversas estatísticas sobre energia. É possível acessar dados para períodos longos e para vários países.

O mapa-mundi das emissões de CO2 pode ser acessado, em tamanho maior, por aqui ou aqui.

Quantos estudantes universitários concluem o curso no tempo adequado?

Tempo de graduação EUAO The Washington Post publicou uma sugestiva reportagem indicando que, nas universidades estaduais nos Estados Unidos, muitos estudantes de graduação estão concluindo os cursos além dos prazos estabelecidos. O mesmo sintoma é percebido no sistema privado de ensino superior.

O atraso em concluir o curso causa prejuízos. Quando as universidades são públicas (o que, nos Estados Unidos, nem sempre significa que são gratuitas), há um custo financeiro para o Estado que perdura além do prazo. Um estudante que não se forma ocupa o espaço de um calouro que poderia ingressar no curso.

Quanto há necessidade de pagar pelas despesas, o atraso em terminar o curso sobrecarrega a conta corrente dos pais e familiares, que pagam valores elevados além do prazo previsto.

No Brasil, é bem provável que haja o mesmo comportamento, tanto nas universidades públicas (que são sinônimo de gratuidade) quanto nas privadas.

O problema para uma investigação jornalística será a falta de estatísticas – e uma possível falta de interesse dos gestores das instituições de ensino em divulgá-las. Se o Ministério da Educação exigir a prestação dessa informação periodicamente, o trabalho pode ser facilitado. Caso contrário, o jornalista terá de acessar universidade por universidade, com especial atenção para as maiores e para as públicas, custeadas com dinheiro dos impostos.

Nova lei – Dentro do sistema público de ensino superior, a tarefa de descobrir em quanto tempo os estudantes de graduação estão se formando ganhou um aliado: a Lei de Acesso à Informação, promulgada em 18 de novembro de 2011 e que passou a valer a partir de maio de 2012.

A Lei nº 12.527 estabelece os procedimentos para o cidadão solicitar e receber informações de órgãos e instituições públicos. É aplicável aos três poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios.

As universidades públicas, federais ou estaduais, como instituições de Estado, também precisam criar mecanismos para prestar esclarecimentos e fornecer dados quando requisitadas pela sociedade dentro dos parâmetros da lei.

Sugestão de pauta – Certamente não será tarefa fácil, até porque, historicamente, as universidades públicas brasileiras costumam não ter uma política transparente de divulgação de informações operacionais e de gestão financeira. Mas a lei abrange toda a máquina pública – e pode abrir um campo interessante para o trabalho dos jornalistas.

Se os governos e ministérios serão obrigados a divulgar diversas informações, as instituições públicas de ensino superior devem informar em quanto tempo os alunos estão se formando.