Arquivo do mês: abril 2012

Uma iniciativa inteligente do Zero Hora pode inspirar o restante da imprensa – e o próprio jornal

O Jornal Zero Hora, sediado no Rio Grande do Sul, tomou uma iniciativa inovadora para comemorar a 17.000ª edição. Selecionou todas as “capas mil” (da 1.000ª até a 17.000ª) e disponibilizou aos leitores um resumo de uma notícia de destaque de cada edição.

Fez melhor: colocou jornalistas para informar ao leitor os desdobramentos da notícia destacada. Nas palavras do próprio jornal:

“Para marcar a edição de número 17.000, Zero Hora mergulhou na sua própria história. Resgatou as capas mil (da 1.000 até a 16.000) e, de cada edição, escolheu um assunto de destaque para ser revisitado. Onde estão, por exemplo, os estudantes condenados por subversão em 1967, manchete da milésima ZH? Que fim levaram os meninos da seleção brasileira sub-20 campeã mundial em 2003? Qual foi o impacto do fechamento da fábrica de celulose Borregaard, em Guaíba, em 1973?”

imageIngrediente de sucesso – Revisitar reportagens antigas é um dos principais métodos para elaborar boas pautas jornalísticas. No Brasil, poucas iniciativas surgem com esse propósito na imprensa – e quanto aparecem, repercutem bem e positivamente. Em boa parte das vezes, o restante dos órgãos de mídia acabam “seguindo a história”.

Qual o ingrediente de sucesso desse tipo de pauta jornalística? Algumas elucubrações. Em um país que prevalecem alguns mitos, como “brasileiro não tem memória” e “o Brasil é o país da impunidade”, reportagens que tragam luz a casos antigos, sobretudo que envolvem a ação de governos ou de políticos, ratifica aquilo que os leitores creem ser o principal comportamento dos administradores públicos nacionais: apostar no esquecimento para sobreviver.

Zero Hora 2Quando reportagens confirmam que todos os acusados em casos de corrupção se safaram ou que uma política pública megalomaníaca ou eleitoreira gerou resultados inócuos, o cidadão parece ratificar que, ao desacreditar do país, do político ou do governo, fez a aposta certa. Afinal, em um país com milhões de promessas e poucos resultados, reina a desconfiança.

A iniciativa do Zero Hora merece créditos, méritos e prêmios e pode inspirar outros órgãos de imprensa – inclusive o próprio jornal – a seguir a trilha de histórias do passado com mais constância para reavivar a memória dos leitores.

Saiba mais:

1) O caso Celso Daniel. A Folha de S.Paulo revisitou, numa reportagem publicada em janeiro, os desdobramentos do caso Celso Daniel, cujo objeto principal é o assassinato do então prefeito da cidade paulista de Santo André que estava cotado para ser coordenador da campanha do então candidato Luis Inácio Lula da Silva à Presidência da República, em 2003.

2) Dez anos da Lei Rouanet. Aproveitar o aniversário de determinado fato, como o da lei que mudou o financiamento da cultura, pode ser um motivo inteligente de analisá-lo e entregar ao leitor informações valiosas.

3) Que fim levou? A Folha de S.Paulo, novamente em janeiro de 2012, colocou repórteres para informar ao leitor o paradeiro dos ministros demitidos em 2011 sob suspeitas de corrupção ou irregularidades.

4) Uma idéia. Um painel como esse traria algum resultado para melhorar a relação do eleitor com o combate à corrupção?

Quem é melhor? Leitores comentam e melhoram ótimas infografias entre Messi e Cristiano Ronaldo

O jornal espanhol El País elaborou um infográfico muito interessante comparando não somente a eficiência entre o argentino Lionel Messi e o português Cristiano Ronaldo, os dois principais jogadores do campeonato local de futebol da primeira divisão – o que é bastante comum fazer em qualquer país –, mas também analisando quais times conseguiram fazer mais gols do que os atletas em questão.

O resultado é bastante curioso e pode suscitar diversas análises e conclusões. Os jogadores são realmente fora de série e espetaculares? Os outros clubes que disputam o torneio são muito fracos? Fica ao gosto0 do leitor – ou do torcedor.

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Os comentários dos leitores – Ler os comentários dos leitores é um método bastante interessante para deixar a análise mais consistente. Um leitor escreveu o seguinte comentário: “Muy interesante estadística, porque demuestra por qué Messi es mejor que Cristiano, primero hay que quitar los goles “de regalo” los de penalty, 11 Ronaldo y 5 de Messi, entonces Ronaldo quedaría con 29 contra 34 de Messi. Y luego hay que ver quien anota más con jugadas individuales, por calidad propia: 10 de Messi, contra 1 de Ronaldo. Y para terminar,¿quién recibe más ayuda de su equipo? Ronaldo tiene 21 con ayuda contra 16 de Messi con ayuda. Con esto queda claro porque Messi es mejor que Ronaldo.”

O argentino, disse o torcedor, apesar de ter um gol a menos que o português (39 x 40), fez bem menos gols de penalti (5 x 11) e muito mais a partir de jogadas individuais (10 x 1), o que, segundo o comentário, demonstra a “qualidade própria” do atleta. Os números estão nos gráficos e a leitura parece bastante pertinente.

Mas pondera outro leitor: “El futbol es un deporte de equipo, cuando se depende de las individualidades, se llega antes al fracaso.” Tem razão também. Por ser esporte coletivo, a tendência é que a qualidade geral da equipe seja tão ou mais importante que a individual. Dessa opinião, poderia derivar uma pergunta: e se o argentino se machucar gravemente algum dia e desfalcar o Barcelona por alguns meses?

Na linha do que o último leitor comentou, a comparação entre Messi e Cristiano Ronaldo avança. O espanhol La Informacion publicou um infográfico com estatísticas mais recentes que apresenta números com outra abordagem para tentar mostrar quem é mais importante para a equipe.

Outra abordagem – O jornal fez um exercício considerando uma hipótese: caso os gols anotados por Messi e Cristiano Ronaldo fossem excluídos, qual seria o impacto para a quantidade de pontos conquistados por Barcelona e Real Madrid. É claro que a brincadeira parte do princípio que nada mais interferiria no resultado das partidas ao longo do torneio.

Messi x Cristiano

O resultado hipotético é que o Barcelona, sem os gols de Messi, perderia 19 dos 81 pontos conquistados até então. O Real Madrid perderia 13 de 85 pontos. Ambos os atletas têm 41 gols. A diferença é que os gols do argentino representam 42,7% dos 96 gols marcados pela equipe catalã, enquanto os gols anotados pelo português significam 38,3% dos 107 gols marcados pelo madrilistas.

Em suma, divirtam-se e melhorem as análises com seus próprios comentários.

Sugestão de pauta – A imprensa esportiva brasileira, que tem se esforçado para produzir pautas inovadoras e ousadas a partir do uso de estatísticas disponíveis ou da construção de bancos de dados próprios, poderia repetir o exercício dos jornais espanhóis El País e La Informacion e comparar a performance e a importância para a equipe entre duplas de craques brasileiros. Liedson (Corinthians) ou Luís Fabiano (São Paulo)? Neymar (Santos) ou Lucas (São Paulo)? Fred (Fluminense) ou Vagner Love (Flamengo)?

Saiba mais:

1) Infográficos ajudam a inovar a pauta no jornalismo esportivo e facilitam a compreensão.

2) Grandes duelos do futebol são oportunidade ímpar para mostrar, por infografias, quem são os melhores atletas

3) Exemplos mostram que blogueiros têm feito reportagens melhores que a imprensa em geral

Três exemplos de capas de jornal criativas e ousadas

A capa do jornal costuma ser um mosaico daquilo que aconteceu de mais importante no dia anterior. O editor precisa calibrar a quantidade de notícias buscando temas das mais variadas áreas de cobertura do diário. É difícil montar o quebra-cabeças, reunindo fotos, gráficos, títulos, palavras certas e precisas.

Alguns jornais – independentemente do perfil, do porte e da abrangência da circulação – buscam ousar na composição da primeira página. Alguns exemplos:

Diário do Comercio (SP) – O diário aproveitou a célebre imagem da campanha do presidente norte-americano Barack Obama com a frase dita por ele em um encontro com o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva para informar, na primeira página, o índice de popularidade recorde da presidente Dilma Rousseff. "Ela é o cara", estampa o jornal.

Correio Braziliense (DF) – A Comissão da Verdade, criada pelo governo federal para investigar o paradeiro de desaparecidos políticos durante o regime militar no Brasil, ainda causa constrangimentos e polêmica em ambos os lados – militares e defensores dos direitos civis. Um dos casos é emblemático: a morte, em cárcere, do jornalista Vladimir Herzog. O jornal, então, lembrou que os brasileiros não sabem, há 48 anos, o que, de fato, aconteceu. A imagem diz mais que tudo.

O Dia (RJ) – A recente morte do humorista Chico Anysio (1931 – 2012) deixou o mundo artístico – e os fãs dele – muito triste. O jornal fluminense encontrou um modo ímpar de informar os leitores, sugerindo que não somente o humorista faleceu, mas também os mais de 200 personagens criados por ele ao longo de uma carreira inteira.