Arquivo do mês: março 2012

Infográficos ajudam a inovar a pauta do jornalismo esportivo e facilitam a compreensão

Dias atrás, o jornal The New York Times ganhou um medalhas em uma competição chamada Malofiej, uma espécie de Oscar da infografia. O trabalho mostrou a quantidade de vezes que os atletas da NFL, a liga nacional de futebol americano, foram mencionados no SportCenter e no Sunday NFL Countdown, programas do canal esportivo ESPN.

NFL players most mentioned

Durante a última Copa do Mundo, entre junho e julho de 2010, outra pauta parecida foi feita pelo jornal norte-americano. Os jornalistas organizaram um banco de dados para verificar quais jogadores foram mais citados no Facebook durante cada dia, da inauguração ao jogo final do torneio. Quanto mais mencionados, os jogadores aparecem maiores que outros.

O interessante é verificar a flutuação da audiência que cada atleta recebe de acordo com o papel que eles e as equipes deles obtém em campo. No dia 2 de julho, quando o Brasil perdeu para a Holanda nas quartas de final do torneio e foi desclassificado, Kaka e Felipe Melo foram os campões de audiência entre internautas de todo o mundo no Facebook.

Top World Cup players

A imprensa brasileira também tem se destacado nessa área. jornais e portais nacionais estão aprimorando e investindo mais na elaboração de infografias, estáticas ou interativas.

Foi o que fez o jornal O Estado de S. Paulo durante a cobertura da Copa do Mundo de 2010. A infografia, interativa, mostrou em quais países jogavam os atletas de cada seleção durante as copas de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010.

Estadão Copa 2010 Benefícios – O grande benefício dos três gráficos é permitir que o internauta ou leitor perceba facilmente e rapidamente a informação principal. Além disso, arejam a pauta dos cadernos esportivos, muitas vezes repletas somente de fofocas ou reproduções do que aconteceu nos jogos do dia anterior.

Nos dois trabalhos do jornal norte-americano, nota-se imediatamente quais atletas foram campeões de audiência e, durante a Copa, quais fatos estavam associados ao pico de visibilidade.

No infográfico do Estadão, a principal conclusão é que, a cada torneio, os treinadores buscam para compor as seleções jogadores que atuam numa quantidade maior de campeonatos estrangeiros. Em 1994, dez atletas atuavam no brasil e 12 no exterior. Em 2010, só três viram do campeonato brasileiro e 20 de ligas de outros países – e a maioria jogava na Itália naquela época.

O primeiro parágrafo vale a reportagem toda

Seja no jornalismo ou em qualquer profissão, o primeiro parágrafo, muitas vezes, é o que mais demora a ficar pronto sempre que há a necessidade de escrever um texto.

No jornalismo, a ordem é ir direto ao ponto, respondendo algumas perguntas essenciais: Quem fez o que? Para quem? Quando? Onde? Por quê? Se seguir essa regrinha básica e não tiver preguiça em escrever as respostas completas, o primeiro parágrafo nascerá facilmente.

No entanto, a ousadia é que rende fama e orgulho. No jornalismo, quando o primeiro parágrafo não traz a informação essencial logo na larga, surge o "nariz de cera", como é conhecido entre profissionais de imprensa.

Matéria Época O primeiro parágrafo é a arma para capturar a atenção do leitor até o fim da reportagem. A ousadia, com talento e eficácia, garante os minutos preciosos da audiência. O problema é que a dose tanto pode curar quanto matar o paciente. Se não acertar o tom, o jornalista perde o leitor já nas primeiras linhas.

Dicas importantes – Uma reportagem da revista Época, que aborda o crescimento da economia brasileira, ajuda a dar algumas dicas para aqueles que querem escrever um primeiro parágrafo com maestria, talento, ousadia – e obter êxito.

Os jornalistas usaram muito bem alguns elementos. O primeiro foi a metáfora explícita na cena de um filme conhecido, no caso, Ben-Hur. Não é necessário ter visto o filme – a descrição traz facilmente à mente a associação entre remar e trabalhar arduamente.

A segunda foi resgatar o autor da metáfora – o divertidíssimo Nélson Rodrigues, dramaturgo e cronista dos mais hábeis ao usar a palavra. Nélson Rodrigues é conhecido pelo dom de criar frases de efeito que trazem enorme inteligência, poesia e didatismo. As frases do dramaturgo são espirituosas e humoradas – e isso criou um ambiente agradável entre jornalista e leitor.

O que há por traz desses dois elementos? Um conceito simples. Para capturar a atenção do leitor e para fazê-lo entender mais facilmente a importância de um assunto, muitos autores se aproveitam de imagens e idéias que já estão na memória e no balaio de informações que os leitores possivelmente já têm.

Quer testar? Lembre das letras das músicas de autores brasileiros consagrados, que tenha feito sucesso, que sejam consideradas muito boas, que tenham feito parte da história cultural do país. Se estiverem na cabeça nas pessoas, certamente elas já pararam alguns segundos para pensar o que essas músicas tentam transmitir de informação – o primeiro parágrafo do texto terá grande chance de capturar a atenção de quem lê. 

Em cinco anos, 50 mil pessoas assassinadas pelos cartéis de drogas no México

Um infográfico bastante impactante mostra que, entre 2007 e 2010, ocorreram quase 35 mil assassinatos no México relacionados à chamada guerra das drogas. Foram 34.550 casos, principalmente nas cidades de Juárez e Tijuana, na fronteira com os Estados Unidos. Os dados sobre violência relativos a 2011 ainda não foram divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Geografia mexicano, o Inegi.

Tudo indica que os dados são ainda mais assustadores, se considerarmos que a curva é crescente. Em 2010, 15,2 mil pessoas foram assassinadas pelos cartéis mexicanos das drogas, contra 2,8 mil em 2007.

Nos primeiros nove meses de 2011, segundo o The New York Times, 12.903 pessoas foram assassinadas na violência relacionada às drogas, um crescimento de 11%, segundo as autoridades mexicanas. O número subiu, então, para 47.515 casos. Seguindo os registros nos anos recentes e a tendência verificada desde 2007, os últimos três meses de 2011 devem ter contribuído seguramente para atingir 50 mil assassinatos relacionados ao combate contra as drogas no México.

Drug war interactive infographics

Além dos dados alarmantes, os homicídios com envolvimento dos cartéis respondem por uma parcela cada vez maior dentro do total de mortes ocorridas naquele país. Em 2007, esses assassinatos representavam 32% do total, contra 48% em 2008 e em 2009 e 50% em 2010.

O mapa interativo acima é de Diego Valle-Jones, especialista em análise de dados, codificação e visualização, todos voltados para o tema da criminalidade relacionada ao combate às drogas no México.

O The Guardian também analisou os dados e, da mesma forma que Diego Valle-Jones, demonstrou em um infográfico interativo suportado pelas ferramentas do Google – e também disponibilizou os dados. O jornal inglês conta 34.612 assassinatos relacionados à guerra contra as drogas entre 2007 e 2010.

Para saber mais:

Em setembro de 2011, o The New York Times elaborou um infográfico interativo duplo mostrando quais as áreas de influência e de disputa entre os cartéis de drogas no México e as cidades norte-americanas que as organizações usam par distribuir drogas pelos Estados Unidos.

Impressões sobre a estréia da TV Folha na grade da TV Cultura

Tv Folha O jornal Folha de S.Paulo criou a TV Folha, um programa de 30 minutos transmitido em horário nobre – sempre aos domingos, às 20 horas, na grade da TV Cultura. A TV Cultura e o jornal Folha de S.Paulo criaram um ótimo produto.

O tipo de iniciativa não é nenhuma novidade – empresas e instituições diversas sempre alugaram, comprara ou fizeram algum tipo de permuta para transmitirem programas próprios na grade das empresas que detêm concessões de televisão. Isso é normal, legal e até interessante. Clubes de futebol têm feito isso. Os programas são bons, enriquecem a grade da televisão brasileira, assiste quem quer.

Muita gente viu conspiração onde não existe. A TV Cultura tem uma das melhores produções da televisão brasileira, mas não é sucesso de audiência. A Folha de S.Paulo edita um dos principais e mais influentes jornais do Brasil. Ambas são ótimas empresas, produzem conteúdo de extrema qualidade, são confiáveis. Então, a parceria estabelecida entre elas parte de bases e princípios bastante sólidos.

A recém-lançada TV Folha tem características bastante interessantes:

1) A edição de imagem é quase poética, fática às vezes, cortante. É um tipo de edição forte. Se fosse uma reportagem no formato de texto, teria frases curtas, para passar a sensação de mensagens fortes.

2) O programa contará com todo o prestígio e a credibilidade dos colunistas e articulistas do jornal impresso. Vale lembrar que esse time tem sido, ao longo dos anos, um dos principais pilares do modelo de negócios do jornal. Ao assistir os blocos do primeiro programa, fica evidente que eles conferem conteúdo diferenciado. Para isso, os cinegrafistas trabalharam com maestria, capturando imagens por ângulos diferentes do que as pessoas costumam ver na televisão.

3) O primeiro programa da TV Folha trouxe entrevistas exclusivas. Uma delas foi com o prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab. Outra com o advogado do ex-goleiro Bruno (ex-Flamengo), preso e acusado do assassinato de Eliza Samudio. A terceira foi com o investidor Naji Narras, abordando a desapropriação da área conhecida como Pinheirinho, em São José dos Campos (SP).

4) O jornal impresso, na última remodelação editorial e gráfica, decidiu apostar no furo de reportagem como forma de manter audiência e credibilidade. A TV Folha mantém o mesmo princípio, em primeira impressão. A entrevista com o advogado do ex-goleiro Bruno mostra essa vertente.

5) Jornalistas são um pouco como celebridades – e os leitores comuns nunca têm a oportunidade de ver o rosto daqueles que escrevem diariamente as notícias. Ao colocar os próprios repórteres como entrevistados, como fonte, como notícia, a TV Folha oferece um ingrediente a mais. As tomadas de cenas mostrando as redações, as reuniões de pauta, o funcionamento das máquinas impressoras contribuem e reforçam essa intenção de trabalhar com a curiosidade do leitor do jornal impresso e do telespectador comum.

6) Resta uma pergunta, que somente o tempo responderá. A TV Folha é um produto criado para dar lucro à empresa-mãe ou somente para conferir credibilidade e valorização da imagem. Ao longo da história, no Brasil e em outros países, alguns jornais impresso adotaram a estratégia de levar para a tela a excelência que tinham nas páginas impressas. Todos gastaram muito dinheiro, tiveram prejuízo ou até faliram. O caso mais célebre no Brasil foi o da Gazeta Mercantil, principal jornal de negócios do país e que depois de tantas iniciativas custosas e sem receitas, parou as rotativas e fechou as portas.

Saiba mais:

O primeiro programa da TV Folha está disponível no portal Folha.com.

Apogeu e queda de Ricardo Teixeira: quem, da imprensa, se destacou – e por quê

Ricardo Teixeira, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) desde 1989, renunciou aos cargos, tanto na CBF quanto no Comitê Organizador Local da Copa-2014 (COL). As redações já vinham, há algum tempo, organizando informações para publicar instantaneamente. Esse planejamento antecipado deve-se por três razões: Teixeira é um personagem entre os mais polêmicos em um tema que envolve muita paixão, está passando por problemas de saúde e vivia na iminência de sair da CBF. Erta preciso, então, estar com material pronto para um acontecimento repentino.

Na internet, já há boas matérias, principalmente aquelas que funcionam como retrospectiva da vida do cartola do futebol e também bastidores da Confederação Brasileira de Futebol. Uma rápida análise sobre os infográficos e outros recursos para mostrar visualmente as informações ensinam o que fazer e o que não fazer para deixar os leitores bem informados.

O UOL publicou um belo conjunto de fotos-legendas organizados historicamente, dos fatos mais antigos aos mais recentes. Na prática, funcionou como uma linha do tempo bastante informativa. Estão lá fatos marcantes e pitorescos que mostram como decidia e agia o cartola máximo do futebol brasileiro. Nota dez.

O mesmo UOL, no entanto, editou logo na primeira página do portal um título: “Gráfico da linha do tempo de Ricardo Teixera”. Ao acessar, o que se viu foi uma série de fotografias que demonstravam o envelhecimento do cartola. Não entregou informação. Nota zero.

O portal Globoesporte.com apostou no texto como forma de contar as histórias. De novidade, trouxe uma tabela que informa a evolução do faturamento e do lucro da CBF. Poderia ter ousado mais, com infográficos e outros recursos visuais. Mas entregou informação relevante. Nota sete.

A revista Época publicou na internet uma matéria extensa sobre Ricardo Teixeira e brindou os internautas com uma linha do tempo simples e bem feita, mostrando alguns dos principais casos envolvendo o cartola. Não explorou com profundidade e pesquisa histórica um conjunto maior de acontecimentos, mas ofereceu um bônus ao leitor. Nota sete.

Pesquisa histórica fez a Folha.com. Apostou em uma reportagem na qual o texto predomina, mas ofereceu vários “blocos” de dados para os leitores. Uma cronologia muito bem feita lista vários – se não todos – os fatos polêmicos envolvendo Ricardo Teixeira. Para os aficionados, mostra ainda todos os técnicos e todos os títulos conquistados na era Teixeira. Como é tradição, a pesquisa histórica é entregue também na forma de uma sequência de fotos, tal qual fez o UOL. Poderia ter oferecido ao leitor a possibilidade de acessar algumas reportagens relacionadas às fotos antigas. Mas é um belo trabalho. Nota dez.

O portal do jornal O Estado de S. Paulo produziu uma linha do tempo muito bem feita – talvez a mais completa da cobertura de hoje – por causa de dois aspectos: juntou pesquisa histórica e boa descrição do fato apresentado em cada imagem. Nota dez.

O jornal esportivo Lance! também fez uma boa cobertura. Além das principais informações, analisou para o leitor fatos que se encaixam na herança positiva e negativa da gestão de Teixeira no futebol brasileiro. O destaque da cobertura foi o álbum com as charges elaboradas por Gustavo Duarte e Mario Alberto – um verdadeiro espetáculo que mistura humor, ironia, conhecimento e muita técnica. Nota onze. Afinal, quem não gosta de charges?

Os pauteiros podem ajudar a salvar os jornais impressos?

Dias atrás, o Café Expresso elogiou a pauta e a reportagem sobre o aniversário de dez anos do caso, ainda inconcluso, do assassinato do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel. Depois daquela reportagem, a imprensa começou a dar mais atenção para a cobertura do tema, ainda mais porque o julgamento de cinco acusados está marcado para 10 de maio, com júri popular. O programa Roda Viva, da TV Cultura, entrevistou o irmão do ex-prefeito.

Lei Rouanet Reportagens como essas são importante para manter a sociedade informada sobre os desdobramentos de importantes casos, sejam eles econômicos, políticos ou policiais. Servem, também, para fazer um exame detalhado e apresentar as principais conclusões para os leitores ou telespectadores.

Outra matéria segue esse mesmo princípio. A Folha de S. Paulo aproveitou o aniversário de 20 anos da Lei Rouanet para oferecer aos leitores os impactos e as transformações causadas no cenário cultural pela legislação.

Boas razões – Aproveitar o momento em que algum caso completa cinco, dez, vinte ou mais anos para fazer uma reportagem é sempre bastante interessante para os leitores, que passam a ter condição de avaliar, de forma equilibrada, se as instituições públicas brasileiras estão funcionando a contento.

Em um momento em que os jornais impressos buscam um caminho diferente para manter a fidelidade dos leitores cada vez mais bombardeados pela velocidade e pela instantaneidade da divulgação de notícias, reportagens mais analíticas podem colaborar para manter os jornais como instrumentos essenciais, tanto para lazer como para os negócios.

Pautas como essas precisam ser planejadas com uma ou duas semanas de antecedência, de forma que muitos especialistas possam ser ouvidos e outras informações, às vezes estatísticas, precisam ser organizadas.

Os responsáveis pela pauta nos jornais precisam recorrer aos arquivos das redações, boa parte hoje já informatizados. Para aniversários de nascimento ou morte de pessoas importantes ou grandes acontecimentos mundiais, algumas ferramentas na internet ajudam no serviço, como as efemérides do Google.