Se você fosse presidente, qual caminho escolheria?


O jornal valor Econômico publicou um artigo muito interessante no dia 11 de novembro. O autor é Raghuram Rajan, ex-economista chefe do FMI e professor de Finanças na Universidade de Chicago. Ele aborda as causas e as conseqüências do recrudescimento da desigualdade social nos Estados Unidos.

O Censo dos EUA mostrou que, na última década, o 1% mais rico da população norte-americana enriqueceu muito velozmente, enquanto os 99% menos ricos ou mais pobres enriqueceram de forma bastante singela ou perderam renda.

Princípios – Um aspecto que chama a atenção no artigo são os princípios, amplamente liberais, que formam a espinha dorsal da argumentação de Rajan.

Para ele, educação de qualidade vem em primeiro lugar e tem impacto na redução da pobreza. Para ele, o indivíduo, acima de tudo, é responsável por buscar a solução para os próprios problemas. Para ele, apostar em soluções mágicas é enganar a parcela da população que acredita nelas e acaba arcando com o prejuízo ou com a frustração que elas deixam como rastro.

Separei alguns trechos do pensamento do autor, cujo artigo completo, infelizmente, está disponível somente para assinantes do jornal:

“Entretanto, reconhecer o fato de que o sistema educacional e o sistema de formação de capacitação são responsáveis por grande parte da crescente desigualdade sofrida pelas pessoas comuns prejudica a maior agenda populista, que é aglutinar as massas contra os muito ricos. A realidade tem a inconveniente implicação de que cabe aos pobres fugir da pobreza.”

“Não há soluções educacionais fáceis e rápidas – cada presidente americano, desde Gerald Ford em meados da década de 1970, apelou para reformas educacionais, com escasso resultado prático. Em contraste, culpar as pessoas no imerecido 1% representa uma agenda política redistributiva com efeitos imediatos.”

“Os EUA já tentaram soluções rápidas antes. A desigualdade de renda cresceu rapidamente na última década, mas a desigualdade de consumo não. O motivo: crédito fácil, especialmente os financiamentos habitacionais subprime, que ajudaram as pessoas desprovidas de meios a não ficar atrás de seus vizinhos. O fim dessa história, como todos sabem, não foi feliz. Os mais desfavorecidos acabaram por ficar em situação ainda pior, ao perderem seus empregos e casas.”

“Os ricos, certamente, têm condições de pagar mais impostos, mas se o governo aumentar os impostos sobre os ricos, deve fazê-lo com o objetivo de melhorar as oportunidades para todos, e não como uma medida punitiva para corrigir um erro imaginário.”

Comparação – É inevitável comparar com o pensamento reinante no Brasil. Dica a pergunta: se você fosse presidente da República ou governador, qual caminho escolheria? Soluções mais difíceis, com benefícios duradouros, mas conquistados somente no longo prazo? Ações mais rápidas, com resultados benefícios em pouco tempo, mas cuja duração é curta e as conquistas são temporárias?

No Brasil, vale lembrar que poucas vezes se questiona sobre o custo-benefício, a qualidade e a efetividade de tudo quanto é tipo de assistência que os governos oferecem para tentar resolver – com soluções rápidas, como escreve Raghuram Rajan – problemas nacionais seculares.

Em ambientes nos quais o debate sobre os erros e acertos da gestão pública é raso e extremamente politizado, quem fizer perguntas como essas será rapidamente enquadrado como simpatizante de políticas públicas mais à esquerda ou mais à direita, seja lá o que isso significar, e, a partir daí, qualquer argumento será desqualificado antes de ser compreendido.

Curto prazo? – Mas as perguntas são importantes na medida em que detectam, das autoridades e dos cidadãos, se ambos estão mais preocupados com soluções duradouras de longo prazo ou em remendos temporários de curto prazo.

Desconfie, então, quando o governante aprovar leis como meia entrada para o consumo de cultura e entretenimento, subsidio ou gratuidade para cursos de educação superior em instituições de qualidade mediana ou baixa, mais vagas nas universidades públicas em cursos que estão na rabeira da lista de profissões ou competências mais requisitadas pelo mercado.

A falta de assistência social de um Estado para os cidadãos é um erro, claro. O excesso, também. Medicamento bom é aquele que é ministrado com equilíbrio e por tempo determinado. Erros na posologia geralmente matam o paciente.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s