Arquivo do mês: setembro 2011

Infográfico mostra recrudescimento da pobreza nos Estados Unidos entre 2007 e 2010

A crise financeira internacional iniciada com a quebra do banco Lehman Brothers em setembro de 2008 continua a causar estragos em todo o planeta. Depois do problema centrado na dívida das empresas, das famílias e das pessoas nos países desenvolvidos, agora a turbulência está focada na dívida dos governos.

Vale lembrar que muitos dos governos com problemas de solvência hoje decidiram socorrer os entes privados endividados no início da crise a partir da emissão de títulos e moeda para captar dinheiro e emprestar aos enforcados. Agora, com dívidas explosivas e quase impagáveis, precisam economizar recursos e aumentar receitas, mas é difícil elevar receitas se a economia não cresce, pois o próprio poder público tem de cortar gastos e isso gera desaceleração na atividade econômica e menos arrecadação tributária.

Uma consequência dessa ciranda é o aumento do desemprego e da queda da renda das famílias. O The New York Times elaborou uma reportagem suportada pelos dados do órgão responsável pelo censo norte-americano evidenciando o recrudescimento da pobreza por todo o país.

Como há estatísticas à vontade, o jornal elaborou uma infografia bastante convencional, mas muito efetiva, usando tonalidades mais fortes ou mais fracas de algumas cores em um mapa dos EUA para mostrar em quais regiões a evolução da renda e da pobreza foi mais ou menos impetuosa.

A reportagem e a infografia poderiam sugerir para algumas redações uma matéria similar, comparando os mapas norte-americano e brasileiro. Os gráficos certamente mostrariam curvas inversas e os mapas tonalidades contrárias.

US poverty 2007 - 2011

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Boa reportagem une pauta e apuração bem-sucedidas com infografia bastante eficiente

A imprensa brasileira está utilizando mais e mais a análise de bancos de dados com milhares de estatísticas para oferecer para a audiência matérias mais analíticas e que ultrapassam a fronteira dos meros anúncios das fontes governamentais.

Até poucos anos atrás, era bastante comum folhear os jornais e constatar que a maioria absoluta das matérias tinha protagonista uma única fonte: algum órgão público. Hoje, mesmo que um estudo estatístico abrangente ainda não tenha sido feito, há a sensação que a mídia está analisando as informações e os dados que os governos lhe entregam e, após algum trabalho interno das equipes de reportagens, entregam aos leitores algum material diferenciado.

08ago11 homicídios SP Um exemplo é a reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo no dia 8 de agosto deste ano. Após a divulgação dos números parciais de violência em São Paulo, tanto capital quanto interior, os jornalistas organizaram as estatísticas históricas de homicídios e perceberam que, em 54 cidades, a queda acentuada de mais de 70% de assassinatos entre 2001 e 2011 não se repetiu.

A partir da descoberta, os repórteres puderem avaliar, localmente, quais os problemas enfrentados nas regiões nas quais os assassinatos persistem e solicitar das autoridades uma resposta para uma pergunta muito mais circunscrita, objetiva e direta.

Além de bem-sucedida no planejamento da pauta, na organização e na análise das estatísticas e na própria execução da matéria, a equipe do jornal ofereceu ao leitor uma forma bastante eficiente para a visualização fácil dos dados. Na imagem, percebe-se facilmente que há uma coloração mais fraca no mapa do estado em 2011, o que mostra redução média dos assassinatos, mas que há persistência de regiões problemáticas, evidenciadas na cor mais escura.

Infográficos ajudam a entender o mundo e os EUA nos dez anos após o dia 11 de setembro de 2001

A imprensa, no mundo todo, produziu material especial sobre o aniversário de dez anos do ataque terrorista às duas torres do World Trade Center, na cidade de Nova Iorque, no dia 11 de setembro de 2001. Segue três deles que ajudam a entender algumas transformações na década.

A revista britânica The Economist fez um gráfico simples, mas bastante elucidativo, a respeito de um lado pouco abordado pelas estatísticas: o total de pessoas mortas por causa dos atos terroristas, incluindo civis, ao longo dos últimos anos. É importante notar que a quantidade anual de pessoas mortas – entre combatentes, terroristas e inocentes – foi enorme na década de 90, antes do ataque em 2011, e ainda maior em diversos anos seguintes.

Economist - Global terrorism

No portal da revista Wired, uma reportagem com muitas estatísticas analisa as mortes, os gastos com a guerra e com as ações contra o terrorismo e o armamento utilizado, com especial atenção para os chamados “drones”, os aviões de combate não tripulados da frota norte-americana. Mais do que identificar dados sobre diversos aspectos, foi importante a publicação mostrar a evolução de todos os números ao longo dos últimos dez anos para o leitor tirar as próprias conclusões.

Sep 11 aftermatch

Para saber mais:

Se você quiser se debruçar mais detalhadamente sobre alguns impactos que os ataques terroristas de 2001 causaram nos Estados Unidos, navegue alguns minutos pelo projeto do jornal The Washington Post chamado “Top Secret America”. Ele foi preparado e lançado antes do aniversário de dez anos dos ataques e mostram, com diversas estatísticas bem organizadas e um design bastante criativo, o quanto foi ampliada a máquina de segurança dos EUA sem que os próprios cidadãos percebessem.

Séculos de estatísticas ajudam a entender como sociedades evoluem ou regridem

O Brasil é um país com poucos números e estatísticas organizados nas mais diversas áreas. Basta tentar fazer uma reportagem ou investigação qualquer que essa escassez de informações aparece rapidamente.

Esse problema brasileiro – que não mata, mas certamente aleija – foi abordado em uma série de reportagens pelo jornal O Globo, desde o último dia 28. A primeira matéria tratou da falta de estatísticas organizadas na área de segurança pública, enquanto as seguintes mostraram que faltam estatísticas nos setores de educação e saúde.

18oldbailey2-popup Os números não são meros caprichos – e as reportagens evidenciam isso. A desorganização não permite o planejamento na identificação de problemas, na orientação de estratégias de ação e na mensuração de resultados. Em muitos casos, o governo federal até criou bancos de dados, mas eles simplesmente não são alimentados pelos donos da informação – na maioria das vezes, estados e municípios.

A série de reportagens ganhou um título bastante significativo e apropriado: “O apagão de informações”. Sem dados históricos e abrangentes, nenhuma sociedade consegue detectar avanços e deficiências de forma que possa corrigir erros ou insistir em experiências bem-sucedidas.

Caso exemplar – Apenas para servir de bom exemplo, o jornal The New York Times publicou uma reportagem abordando estatísticas a respeito do sistema de julgamentos criminais da cidade de Londres, na Inglaterra, a partir de dados arquivados de Old Bailey, a corte principal de julgamentos. Detalhe: os dados abrangem crimes julgados no período entre 1674 a 1913.

No Brasil, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) costuma ser um raro oásis para pesquisadores, jornalistas e cidadãos que desejam obter estatísticas econômicas e sociais sobre diversos aspectos do país. No entanto, mesmo a instituição não tem informações organizadas e confiáveis que remetam à primeira metade do século XX. O instituto só foi criado em 1934, quando passou a exercer o trabalho de mostrar o país pelos números, de forma sistemática e organizada.

Setores organizados da sociedade, incluindo estatais e não governamentais, até se esforçam para criar bancos de dados sobre saúde, educação, economia, política e outros aspectos, mas o Brasil vive, realmente, há tempos, um “apagão de informações”. As consequências desse hiato, desses buracos, é desastrosa, na medida que não permite às pessoas conhecerem e transformarem o espaço em que vivem e a realidade delas.

Sem papas na língua: opinião firme é isso aqui

“As entidades estudantis chilenas que organizam os protestos em curso já fustigavam, há anos, o governo de centro-esquerda de Michelle Bachelet. No Brasil, ao contrário, as principais entidades estudantis funcionam como extensões do PT e do PC do B. Financiadas pelo governo, a UNE e congêneres
incensam seus patronos, não se furtando nem mesmo a aplaudir os disfarces mais óbvios de nosso apartheid educacional. Elas celebram o ProUni, pelo
qual o governo concede ‘vouchers fiscais’ aos empresários do ensino superior enquanto condena os estudantes de baixa renda a preencher vagas ociosas nas piores faculdades privadas.” (Demétrio Magnoli, em “A UNE deles e a nossa”, em O Estado de S. Paulo, dia 1 de setembro, comparando o protesto das entidades estudantis no Chile com o comportamento da congênere brasileira)

“Reduzir de 25% para 20% o álcool anidro na mistura com a gasolina ficou longe da solução. O álcool anidro corresponde a apenas 35% da produção total de álcool. Significa que essa economia não passa de 1,75% do total. É uma decisão discutível sobre outros aspectos, mas, especialmente, por mais dois: não resolve o problema; e aumenta o consumo de gasolina – que, hoje, a Petrobrás também importa.” (Celso Ming, em “Engasgado no álcool”, em O Estado de S. Paulo, dia 1 de setembro, sobre erros do governo federal em tentar equilibrar a oferta e a demanda por álcool)

“Convenhamos, governo que quer cortar gasto de verdade não é governo que que possa manter 38 ministérios e ainda pense em criar mais um. Com a anunciada pasta das Micro e Pequenas Empresas, serão 39. Em 2002, antes de Lula assumir, eram 24.” (Dora Kramer, em “Muita sede ao pote”, em O Estado de S. Paulo, dia 31 de agosto, sobre firmeza do governo federal em manter as contas equilibradas)

“Quando uma decisão inesperada ou não convencional produz bons resultados, foi uma ousadia. Se dá errado e é preciso recuar, uma imprudência. Em caso de dano irreversível, um desatino. O governo foi ousado ao enfrentar a crise de 2009 com uma guinada na política econômica e medidas que fugiam ao figurino tradicional. Aquele sucesso em minorar a recessão e retomar o crescimento da renda ajuda a explicar a decisão de anteontem, inesperada e não convencional, de reduzir os juros antes de uma previsão consistente de queda dos índices de preços.” (Gustavo Patu, em “Ousadias e desatinos”, na Folha de S.Paulo, dia 2 de setembro, sobre críticas à queda inesperada da taxa de juros)

“É a segunda greve desses servidores em pouco mais de dois meses, algo inédito. (…) Não dá para engolir uma greve como essa, com implicações tão cruéis, mas o que fez o prefeito para evitar a sua repetição em período tão breve, além de dizer, diante do caos, que agora será ‘implacável’? O serviço, como se diz, é ‘essencial’, mas aqueles que o realizam são descartáveis.” (Fernando Barros e Silva, em “Morrer em São Paulo”, na Folha de S.Paulo, dia 2 de setembro, sobre greve do serviço funerário na cidade)

Um raro momento de bom jornalismo na cobertura esportiva

A matéria em questão foi publicada no portal Globoesporte.com e aborda a recuperação do jogador de futebol Luis Fabiano, atacante da seleção brasileira na última Copa do Mundo, que está em tratamento médico desde março.

Na mídia, há sempre uma questão discutida: quando será a primeira de reestréia nos gramados brasileiros. Essa resposta é sempre incerta e o leitor acaba lendo mais boatos do que informação séria.

O portal decidiu fazer uma reportagem que, no jargão jornalístico, é chamado de “passo a passo”. Mostra com detalhes cada etapa de determinado acontecimento. Inclusive, a matéria é interessante por oferecer procedimentos e caminhos para o leitor comum. Quem olhar todas as legendas terá um guia para entender porque determinados exercícios físicos são apropriados para determinadas situações. Vale um alerta: não faça nada sozinho em casa e sempre consulte médicos e fisioterapeutas.

A reportagem utiliza muitos recursos que deveriam ser sempre explorados pela mídia: fotos-legendas para explicar cada pequena etapa do fato e legendas que oferecem informações novas, diferentes e relevantes em cada imagem, descartando mensagens fúteis ou superficiais.

Foto-legenda Luis Fabiano A fonte da notícia é um especialista – e não um funcionário qualquer do clube. Muitas vezes, na ânsia de produzir “cliques” e audiência, a mídia ouve qualquer pessoa, que dá qualquer palpite, e o leitor recebe qualquer informação oriunda de uma fonte que preferiu não ter o nome revelado.

Enquanto diversos portais jornalísticos trazem textos informando que o retorno do jogador aos gramados será daqui poucos dias, o Globoesporte.com decidiu investigar e mostrar de forma detalhada, abrangente e profunda, quais as etapas vencidas pelo atleta, porque cada etapa foi importante ou necessária, como funcionam e quais os objetivos do uso de cada equipamentos ou método de fisioterapia.

A reportagem é uma verdadeira aula de jornalismo para a mídia esportiva. O Globoesporte.com poderia ainda ter debatido todo o conteúdo da matéria com especialistas de medicina e fisioterapia de fora do clube, para oferecer ao leitor uma segunda opinião. Mas, claro, diante de tudo o que foi apresentado, é um detalhe que pode ser descartado ou abordado numa matéria seguinte.