Blogueiros podem fazer reportagens mais inteligentes que a imprensa? Em muitos casos, sim


Uma das mais recentes – e importantes – tendências do jornalismo atualmente é o uso de estatísticas e bancos de dados para suportar reportagens e histórias. Nos últimos anos, essa vertente tem ganhado espaço na produção de conteúdo.

Isso acontece não somente por causa das inúmeras possibilidades que as ferramentas digitais oferecem para entregar o conteúdo ao público – principalmente por meio de infografias interativas bastante atrativas – mas sobretudo porque os jornalistas enxergam no nicho algo com enorme potencial inexplorado. Após organizar e analisar estatísticas e dados, muitas boas pautas podem surgir. Os números, enfim, não precisam ser um fim em si mesmos – mas podem contar boa parte da história, inclusive a principal.

Três exemplos recentes mostram o potencial do uso de estatísticas para a produção de boas pautas e de histórias interessantes e inusitadas. Elas abordam temas como política e esporte, nem sempre áreas nas quais há dados organizados que permitam analisar algum tema específico de forma abrangente. Duas foram produzidas por blogueiros e uma pela grande imprensa.

Diante da dificuldade de esmiuçar as estatísticas e as fontes destes dados em áreas específicas, diversos blogueiros, que não são jornalistas,  têm conseguido produzir boas reportagens, seguindo princípios simples do jornalismo. O fato de conhecerem as regras do mercado no qual atuam, pensarem 24 horas no assunto e saber onde buscar informação ajuda bastante. Geralmente, o autor tem de coletar as estatísticas, uma por uma, e fazer o próprio estudo que, depois, dará suporte à reportagem exclusiva. Sorte da audiência.

1) Blog do Navarro: especializado em futebol e no clube paulista São Paulo, é feito por um torcedor. Em recente reportagem, ele cruzou alguns dados: “as médias de públicos do campeonato brasileiro de 2003 a 2010 (com um longo período, evita-se a influência indevida de fatores excepcionais como boas ou má campanhas, centenários, etc), bem como a dimensão das torcidas na capital paulista (partindo-se do pressuposto de que, via de regra, os moradores da capital são os que frequentam os estádios).”

frequencia torcidas estádio

Com o exercício estatístico simples, a matéria quis mostrar e debater com o público qual é a equipe do futebol paulista que tem a torcida mais fiel. A conclusão é que os palmeirenses, seguidos por são-paulinos e por corinthianos, nesta ordem, são os mais fiéis. O texto gerou boa polêmica com os torcedores do Corinthians, até porque a torcida do clube, tradicionalmente, é chamada de “Fiel”.

2) Blog do Gaciba: produzido pelo ex-árbitro Leonardo Gaciba, trouxe outra notícia interessante que deixa qualquer jornal de primeira linha no chinelo. Um em cada quatro cartões amarelos mostrados para atletas nos jogos de futebol do Campeonato Brasileiro da Série A foram dados em momentos de bola parada. Isso significa que podem ser considerados motivos fúteis, cartões facilmente evitáveis, mais relacionados à indisciplina.

O ex-árbitro, agora comentarista esportivo, analisou todas as súmulas escritas pelos juízes após as partidas, computou os dados e descobriu um fato interessante, que serve não somente para o público leitor entender melhor os fatos que envolvem o futebol como também para os próprios atletas e comissões técnicas aperfeiçoarem o comportamento em campo. Matéria nota dez.

3) Estadão: representando a grande imprensa com um ótimo trabalho, o jornal O Estado de S. Paulo descobriu que procuradores da Prefeitura do Município de São Paulo ganham supersalários de até R$ 76,3 mil e que o valor pago a 140 dos 282 advogados da capital paulista é maior que remuneração de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), teto constitucional do funcionalismo.

OESP Servidores de eliteOs repórteres organizaram dados do site oficial “De Olho Nas Contas”, que detalha informações da folha de pagamento dos funcionários públicos da cidade.

As duas matérias têm um importante aspecto comum: em ambos os casos, os autores partiram de uma pergunta inicial e buscaram estatísticas para encontrar ou comprovar as respostas. Um segundo ponto é importante: jornalistas e blogueiro organizaram ou cruzaram estatísticas que não estão disponíveis em algum estudo ou levantamento original. No site “De Olho nas Contas”, há milhares de dados que precisam ser agrupados e organizados.

Dados nem sempre acessíveis – Nos três casos, é preciso contar com estatísticas oficiais ou de instituições consideradas “acima de qualquer suspeita” para que as conclusões não sejam destruídas, rebatidas ou colocadas em descrédito. Esses dados podem estar dispersos em diversos registros ou documentos. Nessas situações, o trabalho braçal e criterioso do repórter ou do blogueiro é fundamental, pois personagens ou leitores incomodados com as notícias sempre procuram desqualificar os métodos ou os autores. É isso.

Saiba mais:

Em dois textos recentes, o Café Expresso abordou reportagens interessantes e inovadoras com o uso de estatísticas, ajudando as equipes de reportagem a se destacarem e a fugirem da mesmice.

1) Uma interessante história de RAC no futebol. Victor Birner e equipe coletaram estatísticas para desvendar se os árbitros brasileiros mostram cartões excessivamente e se juízes diferentes adotam comportamentos diferentes na cobrança de penalidades.

2) Futebol na mídia: números e boa apuração ganham espaço onde reinam o óbvio, a futrica e o achismo. Balanços corporativos, médias de público, custo de cada gol, quantidade de treinamento e muitos outros dados foram utilizados para elaborar reportagens muito boas que fogem da mesmice.

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2 Respostas para “Blogueiros podem fazer reportagens mais inteligentes que a imprensa? Em muitos casos, sim

  1. Consuelo Zurlo

    Até porque tem muito jornalista bom que é blogueiro.

    • Isso mesmo. Tem razão. O interessante nos dois exemplos que textos de blogueiros mencionados é que ambos os autores não são jornalistas – e produziram duas ótimas reportagens, com método e critérios jornalísticos, que poderiam ser publicadas em qualquer mídia. Abraço!

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