O jornalismo hiperlocal pode ser apenas mais um modismo?


Os grandes jornais sempre tiveram dificuldades para encontrar um equilíbrio na pauta diária de forma que pudessem atender as expectativas dos leitores por notícias dos bairros, cidades, estados e dos países, sem esquecer de oferecer um cardápio de tudo o que ocorre no mundo.

Uma das formas de tentar oferecer, sem confundir, notícias que contemplem todos esses níveis é a segmentação dos jornais por cadernos. Mas, guardados os acertos, a baixa tiragem dos grandes jornais brasileiros perto da quantidade total de habitantes que residem nos estados nos quais eles estão sediados é um sinal inquietante de que algo não está certo.

Baixa audiência – Entre os jornais mais influentes do Brasil, o que tem a maior tiragem – a Folha de S.Paulo – oscila na faixa de 300 mil exemplares por dia. Muito pouco diante dos 44 milhões de habitantes no estado de São Paulo ou dos 190 milhões de brasileiros.

Essa questão não é nova. Muitos dos grandes e médios jornais já fizeram tentativas – todas fracassadas – de criar cadernos semanais para faze a cobertura dos bairros ou das regiões. As pautas, quase invariavelmente, escorregavam para o endeusamento dos moradores, principalmente os mais velhos, para o saudosismo ou para aquilo que era irrelevante.

Algumas experiências – O jornal O Globo fez duas tentativas. Primeiro, transferiu a cobertura hiperlocal dos bairros para a internet. Paralelamente, criou um projeto de jornalismo colaborativo chamado Eu-Repórter. O problema é que as notícias sobre os bairros, muitas vezes, não atrai atenção. Já as notícias produzidas pelos leitores ou com a colaboração deles pecam pela falta de contexto. São fatos inusitados diferentes, ou acontecimentos extremamente rotineiros, reunidos no mesmo local.

O jornalismo hiperlocal, com ou sem a colaboração dos leitores, precisa seguir uma receita para conseguir atrair a atenção da audiência: apresentar notícias que abordem fatos relacionados à localidade na qual o leitor mora ou trabalha; apresentar notícias que sejam atuais e estejam relacionadas aos temas mais comentados no momento; e apresentar notícias que alterem a vida do leitor ou da comunidade na qual ele vive – ou que tenha potencial para isso. Proximidade, atualidade e impacto social – se não juntos, quanto mais destes elementos na notícia, melhor para a audiência.

Obstáculos – O problema é que é muito caro para os grandes jornais produzir o jornalismo hiperlocal. Para isso, eles precisam de mais repórteres e mais estrutura. Uma alternativa tentada por muitas corporações de mídia é se aproveitar do desejo de muitos leitores de participar da cobertura, enviando, eles mesmos, relatos, informações, fotografias e vídeos. O ponto fraco desse caminho é a credibilidade e a confiabilidade da informação, já que os leitores, em geral, pressupõem que aquilo que está publicado foi apurado e comprovado.

Mesmo os jornais chamados de populares, que parecem atrair uma audiência considerável, muitas vezes têm um razoável número de leitores por causa de elementos como o sensacionalismo de muitas pautas e o preço baixo do que uma cobertura rigorosa e eficiente dos fatos que ocorrem nos bairros e nas comunidades.

Nas cidades menores, no interior dos estados, onde os jornais poderiam naturalmente direcionar a escolha das notícias publicáveis para o interesse estritamente local, a lista de problemas é ainda maior. De um lado, há uma dependência muito grande das verbas publicitárias das prefeituras, o que força muitos editores a relaxarem nas críticas ou evitarem reportagens críticas à administração local.

Até mais problemática é a ameaça de violência – um verdadeiro faroeste caboclo na qual os jornalistas podem ser alvos de emboscadas e assassinatos enquanto investigam desvios no uso dos recursos orçamentários ou apontam políticas públicas precárias.

Transição – Ainda não há fórmula duradoura para a mídia ser, ao mesmo tempo, hiperlocal, lucrativa e bem-sucedida. Há, por trás de tudo, a baixa escolaridade da população brasileira e o hábito de ler pouco, mesmo que esses males estejam passando por transformações importantes conforma a economia cresce e os indicadores de desenvolvimento social evoluem.

Os modelos de negócio na mídia estão passando por discussões e transformações profundas, com a abrangente e rápida transição da plataforma física – papel – para as digitais – computador, notebooks, celulares e tabletas. Talvez esteja nessa estrada, que ninguém ainda sabe onde vai levar, a fórmula para o sucesso editorial do jornalismo hiperlocal.

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2 Respostas para “O jornalismo hiperlocal pode ser apenas mais um modismo?

  1. Olá, eu tenho interesse em saber como fica a rentalibilidade destes sites hiperlocias (ou não fica no caso…) existe algum exemplo de modelo de negócio que não esteja baseado na venda de anúncios?’

    • Oi, Anita. Até onde sei, não há nenhum caso que tenha conseguido fugir desse modelo tradicional (venda de anúncios) como fonte principal de obtenção de receitas. En geral, este é o grande tema nos debates sobre jornalismo nos últimos dez. As empresas, sejam as tradicionais ou as novas mídias, tentam encontrar um modelo de negócios que tenha outras receitas além da simples venda de anúncio. Caso se interesse, visite o http://www.everyblock.com/. Não sei ao certo como eles conseguem receitas, mas eles têm sido bem-sucedidos em fazer o “jornalismo hiperlocal”. Abs

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