Arquivo do mês: agosto 2011

Brasil deveria ter painel igual ao Impostômetro para informar o que ocorreu com casos de corrupção?

Nas últimas duas semanas, três reportagens ajudaram os leitores a rememorar histórias envolvendo corrupção ou descumprimento de leis que, no passado, ganharam bastante repercussão durante semanas seguidas. No entanto, como de costume, foram esquecidas pelas redações e pela sociedade diante do frenético ritmo dos fatos e notícias que ocorrem todos os dias.

Casos relembrar OESP Enem 2009 Um dos casos aborda a tentativa de venda dos resultados da prova do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, realizada pelo Ministério da Educação, em 2009.

Outro fato remonta a processo judicial divulgado na mídia entre 2005 e 2006 mostrando que empresários e servidores públicos de elevado poder aquisitivo construíram mansões em área de preservação permanente na região dos Lençóis Maranhenses, no estado do Maranhão.

Casos relembrar Valor Lalau O terceiro tem como personagem o juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, que ficou famoso em 2002 por causa da acusação de desviar R$ 169 milhões de recursos públicos destinados para a construção de um fórum trabalhista na cidade de São Paulo.

Missão da imprensa – Na maioria das vezes, os casos voltam a ser alvos de reportagens por causa de decisões judiciais parciais determinando alguma ação, como uma audiência, a condenação em primeira instância ou o congelamento de bens, entre outras possibilidades.

É pouco, principalmente se considerarmos que a imprensa é uma instituição que tem a missão primordial de informar a sociedade sobre tudo aquilo que é relevante e vigiar personagens que, dentro dos governos ou de quaisquer órgãos públicos, detenham cargos ou poder de decisão sobre o destino das pessoas e dos recursos públicos.

Casos para relembrar UOLComo evitar o esquecimento – Uma idéia para evitar que casos estrondosos de corrupção ou transgressão da lei caiam no limbo do esquecimento, mesmo que temporariamente, é manter alguma equipe de reportagem com a missão de vasculhar e acompanhar, diariamente, as decisões dos tribunais de justiça.

Com a ajuda de juízes, promotores e advogados, é possível planejar um método e um processo pelo qual estagiários e jovens jornalistas, supervisionados por profissionais mais experientes, atualizem um painel publicado na internet com as informações mais recentes sobre diversos casos selecionados.

Os jornais detém arquivos de décadas de história política que poderiam ser vasculhados. A partir da seleção dos principais e mais notórios casos que mereçam ser acompanhados, a atualização seria feita na medida que tribunais publicassem novas decisões.

Impostômetro SP A consequência da lei do esquecimento que impera hoje entre jornalistas e leitores contribui para alimentar o pensamento popular de impõe uma máxima: basta um novo caso de corrupção para que os desmandos e desvios em evidência no presente sejam devidamente deixados de lado.

A ideia do Impostômetro – Anos atrás, a Associação Comercial de São Paulo e o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário se uniram para criar o Impostômetro, um painel instalado na lateral do prédio da associação que apresenta, em tempo real, simbolicamente, o quanto de impostos os governos em todo o Brasil estão arrecadando. A iniciativa ajudou a sociedade a ter uma noção da quantidade de taxas e impostos que paga e da velocidade do crescimento da arrecadação.

Por que não uma grande corporação de mídia, com recursos humanos, orçamentários e operacionais não poderia empreender uma idéia similar: criar um painel atualizado permanentemente com as mais recentes informações sobre casos de corrupção e transgressão da lei envolvendo o poder público?

Por que não ter esse “painel da corrupção” no portal da empresa na internet e também em praça pública, como fez a Associação Comercial de São Paulo, para chamar a atenção da sociedade para o desdobramento dos casos e inclusive para o ritmo do Poder Judiciário?

Um pouco de humor para rir e esquecer as agruras do futebol, da economia e da política

As charges dos blogs do Jean, Amarildo e Bruno.

Jean 10mai2011

Bruno 1ago2011

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O que os jornalistas disseram de interessante na última semana

“Quer dizer que a solução para os EUA é o PMDB? Bem, podemos pensar em exportar nosso bastião da "governabilidade" e seus satélites. O FBI vai ter trabalho, mas a Casa Branca pode conquistar seus 15 minutos de sossego na economia.” (Vinicius Mota, em "Obama e o PMDB", no jornal Folha de S.Paulo, dia 15 de agosto de 2011, analisando diferenças nas relações entre governo e congressistas no Brasil e nos EUA e afirmando que, enquanto aqui há partidos sempre prontos a trocar apoio por regalias, lá o presidente tem de conviver com a oposição se o próprio partido não obter maioria no Parlamento)

“Como os demais escândalos de corrupção das últimas décadas, os recentes muito provavelmente produzirão mais catarse do que vergonha genuína, daquelas capazes de evitar a repetição posterior dos vícios.” (Gustavo Patu, em "Nem multiplicando por três", no jornal Folha de S.Paulo, dia 15 de agosto de 2011, sobre a repetição de casos de corrupção no Brasil e a paralisação que eles causam no andamento dos temas mais sérios e importantes)

“Numa absoluta (e absurda) inversão de valores, as reações à ação da PF em cumprimento a decisão judicial ganharam mais destaque nos últimos dias que os atos cometidos em altos gabinetes dos Ministérios dos Transportes, da Agricultura e do Turismo. Ficaram em segundo plano o superfaturamento, o pagamento de propinas, o tráfico de influência, o empreguismo, o nepotismo, o acobertamento, o favorecimento e malversações do gênero que grassam em repartições públicas federais como parte da rotina.” (Dora Kramer, em "Inversão de valor", no jornal O Estado de S. Paulo, dia 16 de agosto de 2011, sobre políticos e autoridades que ficaram indignados com a exposição, na mídia, daqueles que foram presos sob suspeita de corrupção)

“Depois do mensalão, o PT percebeu que a "agenda ética" tem impacto residual na base da sociedade. E soube tirar dividendos da máxima brechtiana: primeiro vem o estômago, depois a moral.” (Fernando de Barros e Silva, em "A solidão de Dilma", no jornal Folha de S.Paulo, dia 17 de agosto de 2011, sobre a ausência de apoio e engajamento do PT à presidenta enquanto ela demite e tenta eliminar focos de corrupção na administração federal)

“As notícias chegaram todas numa única quinta-feira: números ruins da indústria e do desemprego nos Estados Unidos; suspeita das autoridades regulatórias americanas sobre os bancos europeus; relatórios de bancos revendo para baixo o crescimento na Europa e nos Estados Unidos. Quando o mercado opera em ‘modo crise’, ele só soma as más notícias.” (Miriam Leitão, em "Modo crise", no jornal O Globo, dia 19 de agosto de 2011, sobre o pessimismo do mercado que fica cada vez mais assustado conforme as velhas notícias são divulgadas)

Blogueiros podem fazer reportagens mais inteligentes que a imprensa? Em muitos casos, sim

Uma das mais recentes – e importantes – tendências do jornalismo atualmente é o uso de estatísticas e bancos de dados para suportar reportagens e histórias. Nos últimos anos, essa vertente tem ganhado espaço na produção de conteúdo.

Isso acontece não somente por causa das inúmeras possibilidades que as ferramentas digitais oferecem para entregar o conteúdo ao público – principalmente por meio de infografias interativas bastante atrativas – mas sobretudo porque os jornalistas enxergam no nicho algo com enorme potencial inexplorado. Após organizar e analisar estatísticas e dados, muitas boas pautas podem surgir. Os números, enfim, não precisam ser um fim em si mesmos – mas podem contar boa parte da história, inclusive a principal.

Três exemplos recentes mostram o potencial do uso de estatísticas para a produção de boas pautas e de histórias interessantes e inusitadas. Elas abordam temas como política e esporte, nem sempre áreas nas quais há dados organizados que permitam analisar algum tema específico de forma abrangente. Duas foram produzidas por blogueiros e uma pela grande imprensa.

Diante da dificuldade de esmiuçar as estatísticas e as fontes destes dados em áreas específicas, diversos blogueiros, que não são jornalistas,  têm conseguido produzir boas reportagens, seguindo princípios simples do jornalismo. O fato de conhecerem as regras do mercado no qual atuam, pensarem 24 horas no assunto e saber onde buscar informação ajuda bastante. Geralmente, o autor tem de coletar as estatísticas, uma por uma, e fazer o próprio estudo que, depois, dará suporte à reportagem exclusiva. Sorte da audiência.

1) Blog do Navarro: especializado em futebol e no clube paulista São Paulo, é feito por um torcedor. Em recente reportagem, ele cruzou alguns dados: “as médias de públicos do campeonato brasileiro de 2003 a 2010 (com um longo período, evita-se a influência indevida de fatores excepcionais como boas ou má campanhas, centenários, etc), bem como a dimensão das torcidas na capital paulista (partindo-se do pressuposto de que, via de regra, os moradores da capital são os que frequentam os estádios).”

frequencia torcidas estádio

Com o exercício estatístico simples, a matéria quis mostrar e debater com o público qual é a equipe do futebol paulista que tem a torcida mais fiel. A conclusão é que os palmeirenses, seguidos por são-paulinos e por corinthianos, nesta ordem, são os mais fiéis. O texto gerou boa polêmica com os torcedores do Corinthians, até porque a torcida do clube, tradicionalmente, é chamada de “Fiel”.

2) Blog do Gaciba: produzido pelo ex-árbitro Leonardo Gaciba, trouxe outra notícia interessante que deixa qualquer jornal de primeira linha no chinelo. Um em cada quatro cartões amarelos mostrados para atletas nos jogos de futebol do Campeonato Brasileiro da Série A foram dados em momentos de bola parada. Isso significa que podem ser considerados motivos fúteis, cartões facilmente evitáveis, mais relacionados à indisciplina.

O ex-árbitro, agora comentarista esportivo, analisou todas as súmulas escritas pelos juízes após as partidas, computou os dados e descobriu um fato interessante, que serve não somente para o público leitor entender melhor os fatos que envolvem o futebol como também para os próprios atletas e comissões técnicas aperfeiçoarem o comportamento em campo. Matéria nota dez.

3) Estadão: representando a grande imprensa com um ótimo trabalho, o jornal O Estado de S. Paulo descobriu que procuradores da Prefeitura do Município de São Paulo ganham supersalários de até R$ 76,3 mil e que o valor pago a 140 dos 282 advogados da capital paulista é maior que remuneração de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), teto constitucional do funcionalismo.

OESP Servidores de eliteOs repórteres organizaram dados do site oficial “De Olho Nas Contas”, que detalha informações da folha de pagamento dos funcionários públicos da cidade.

As duas matérias têm um importante aspecto comum: em ambos os casos, os autores partiram de uma pergunta inicial e buscaram estatísticas para encontrar ou comprovar as respostas. Um segundo ponto é importante: jornalistas e blogueiro organizaram ou cruzaram estatísticas que não estão disponíveis em algum estudo ou levantamento original. No site “De Olho nas Contas”, há milhares de dados que precisam ser agrupados e organizados.

Dados nem sempre acessíveis – Nos três casos, é preciso contar com estatísticas oficiais ou de instituições consideradas “acima de qualquer suspeita” para que as conclusões não sejam destruídas, rebatidas ou colocadas em descrédito. Esses dados podem estar dispersos em diversos registros ou documentos. Nessas situações, o trabalho braçal e criterioso do repórter ou do blogueiro é fundamental, pois personagens ou leitores incomodados com as notícias sempre procuram desqualificar os métodos ou os autores. É isso.

Saiba mais:

Em dois textos recentes, o Café Expresso abordou reportagens interessantes e inovadoras com o uso de estatísticas, ajudando as equipes de reportagem a se destacarem e a fugirem da mesmice.

1) Uma interessante história de RAC no futebol. Victor Birner e equipe coletaram estatísticas para desvendar se os árbitros brasileiros mostram cartões excessivamente e se juízes diferentes adotam comportamentos diferentes na cobrança de penalidades.

2) Futebol na mídia: números e boa apuração ganham espaço onde reinam o óbvio, a futrica e o achismo. Balanços corporativos, médias de público, custo de cada gol, quantidade de treinamento e muitos outros dados foram utilizados para elaborar reportagens muito boas que fogem da mesmice.

Um infográfico interessante mostra o vaivém das bolsas de valores ao longo da semana no mundo

Desde o dia 5 de agosto, a partir do rebaixamento da nota de crédito da economia americana, as bolsas de valores ao redor do mundo viveram dias de instabilidade intensa.

Bolsas de valores A BMF&Bovespa caiu mais de 8% em um dia, subiu mais de 4% no dia seguinte, recuperou as perdas ao longo da semana – um movimento que dá credibilidade àqueles que dizem que os corretores que agem na compra e venda de ações, na verdade, são como gnus no meio de uma manada. Se um antílope sair em disparada para uma direção, o restante vai atrás, mesmo sem saber o motivo.

Causas e consequências à parte, o jornal O Estado de S. Paulo criou um infográfico simples mas diferenciado, com poucos dados, que dá uma noção clara do que acontece nas bolsas de valores ao redor do mundo. Mostrou, de forma linear, acompanhando o sobe e desce do desempenho das bolsas hora a hora, acompanhando a abertura e o fechamento dos pregões. Bastante eficiente, não?

Bolsas de valores 2 Uma semana atrás, no primeiro dia da nova crise global, agora lastreada no endividamento excessivo das grandes potências econômicas, o jornal Folha de S.Paulo trouxe em um gráfico o resultado consolidado das bolsas de uma forma já bastante corriqueira de se ver nas páginas da imprensa. Passa a informação com correção, mas parace que ficou faltando algo.

No fim de semana, domingo, dia 14, o Estadão refez o gráfico, com dados de toda a semana, mostrando como subiram e desceram as bolsas de valores, hora a hora, de segunda até sexta-feira.

Bolsas de valores 3

Somente um detalhe: não consegui interpretar porque as linhas do gráfico do Estadão não começam, sempre, obrigatoriamente, no zero, já que o eixo vertical quer evidenciar a escilação percentual. Todas as bolsas abrem as operações com zero porcento de oscilação. Vou perguntar para alguns amigos. Quando descobrir, escrevo aqui.

Alguns bandidos têm mais direitos que os outros?

A Gazeta - MacapáA polêmica começou na sexta-feira, dia 12 de agosto. A equipe de reportagem do jornal A Gazeta, de Macapá, capital do estado do Amapá, conseguiu as fotos, em situação constrangedora, no momento em que estão sendo fichados na delegacia de polícia, das autoridades públicas do Ministério do Turismo e dos representantes de uma organização não governamental que foram presos por causa de uma investigação da Polícia Federal (PF) que os acusou de desvios de recursos públicos originalmente destinados para obras de infraestrutura cujo objetivo era angariar o turismo regional.

Da presidenta da República aos mais altos escalões do Poder Judiciário e do Congresso Nacional, houve reprovação. O ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que os presos não são “bandido qualquer”, porque têm documentos e endereço fixo. Os presos, segundo a Constituição brasileira, têm direitos diversos, inclusive à preservação da dignidade deles. Lei não se contesta e não é a primeira vez que a Polícia Federal é acusada de cometer infrações à lei e ao regimento.

metro3(142) Faltou, apenas, às mesmas autoridades, aplicarem os mesmos princípios a outros bandidos, independentemente dos crimes cometidos. Jair Rivelino Satornino, de 31 anos, foi preso por ser considerado autor do assassinato de uma jovem, a pedido do próprio pai, que queria ficar com o dinheiro do seguro de vida dela. Ele aparece algemado, com roupas e de chinelos, na delegacia, no jornal O Estado de S. Paulo.

Um é acusado de assassinar. Os outros são acusados de roubarem milhões de recursos do orçamento público. Um é considerado bandido comum. Os outros, são considerados bandidos de uma categoria superior.

Não confunda: essa notícia foi publicada em um jornal de Huntsville, Estados Unidos

The Huntsville TimesO jornal The Huntsville Times é publicado na cidade de Huntsville, Alabama, nos Estados Unidos. As principais notícias estampadas na primeira página poderiam confundir um desavisado leitor brasileiro.

O título da principal matéria, sobre educação, anuncia: “Mais estudantes. Menos professores. Você faz a conta”, concluindo que para muitos estudantes, as aulas começam na segunda-feira, se eles conseguirem um lugar para sentar.

Lá, com os cortes do poder público para gastos sociais, como educação, professores foram demitidos e as salas de aula estão lotadas (com 45 alunos por classe).

Para saber mais: O The Huntsville Times costuma produzir capas muito interessantes. Em outra ocasião, o Café Expresso já abordou o tema.