Arquivo do mês: julho 2011

Relatos de um viajante em Cuba – e você compara com o Brasil

Havana, capital cubana, é uma cidade com cerca de 2,3 milhões de pessoas. Isso significa que é um espaço interessante para perceber o que as cidades oferecem de bom e de ruim para as pessoas, principalmente considerando que Cuba é um país socialista. Depois de alguns dias passeando por lá e refletir um pouco sobre tudo o que vi e ouvi, abordo alguns aspectos. De antemão, aviso: esse texto não é um ensaio sobre a situação de Cuba, mas apenas um conjunto de itens sobre os quais conversei com as pessoas comuns de lá.

Saúde pública: não usei, não vi, não pude conferir pessoalmente como CIMG5900 funciona o serviço público de saúde cubano. Mas ouvi bastante, principalmente de quem interessa ouvir uma opinião como essa, que é a população, os pacientes. Não tem reclamação. Os cubanos elogiam o serviço e afirmam que ele funciona bem. Em um caso relatado, uma criança tinha asma e como os remédios e procedimentos médicos não surtiam efeito prolongado, o serviço de saúde enviou para a casa dela uma equipe que constatou a causa: o mofo em partes da casa. O governo deu uma nova casa para a família. E a criança não teve mais crises de asma.

Vale lembrar que foi em Cuba que os programas de saúde da família ganharam força e destaque, na década de 80. Nesse modelo, uma equipe médica visita periodicamente as residências para orientar, detectar doenças, medicar e encaminhar as pessoas para a rede de saúde.

No Museu da Revolução, há uma ala pregando as melhorias na saúde da população tão logo os socialistas tomaram o poder. Tem muita propaganda ideológica. Um cartaz, no entanto, chamou a atenção. Não me recordo os números nem a moeda, mas a ordem de grandeza é mais ou menos essa: em 1959, o valor gasto pelo governo federal com saúde por pessoa anualmente era por volta de 25. Aumentou para 175 em 1999.

CIMG5640 Educação pública: novamente, as pessoas com quem conversei – taxistas, garçons, cozinheiros, estudantes – elogiam bastante, mas há algumas ressalvas. Um ponto forte é que lugar de criança é na escola. Até a nona série, é obrigatório estudar. Se o aluno não vai à escola, o governo envia assistentes sociais até a casa da criança para verificar o que está acontecendo. Os pais sabem que sofrerão sanções se não enviarem os filhos para as salas de aula. O analfabetismo em Cuba é zero, segundo pesquisas internacionais. O problema é que criança na escola não significa, necessariamente, criança culta. O Brasil tem um bom índice de crianças em sala de aula, mas a qualidade do sistema público de educação é sofrível. Em 2000, um estudo identificou que os alunos cubanos tinham médias muito mais altas em comparação aos latino-americanos. É um sinal interessante. Ao concluir o ensino médio, o aluno pode requerer vaga na universidade – pública. São diversas carreiras à disposição. No entanto, houve reclamação, indicando que as vagas em melhores profissões ficariam extra-oficialmente reservadas para a elite da burocracia cubana.

Segurança pública: o turista pode caminhar em qualquer horário do dia e da noite, em qualquer parte da cidade de Havana, nas mais ricas e nas mais pobres, mais claras e mais escuras, sem medo. Com ou sem policiais na rua, a sensação é de segurança.

CIMG5653Economia: esse é o principal problema do país, já que o modelo socialista baseado na atuação do Estado em todas as cadeias produtivas engessa a livre iniciativa, a produtividade, a criação de oportunidades. O embargo econômico que os EUA impõem ao país termina de eliminar a geração de oportunidades às pessoas. Há muita reclamação sobre esse aspecto: as pessoas querem trabalhar em outras áreas, fazerem o que gostam, ganhar mais dinheiro. Paralelamente à economia formal, há uma abrangente e gigantesca atividade informal, que não recolhe nem taxas e nem impostos. Produtos e serviços circulam no mercado negro e parecem ser oferecidos com o beneplácito das autoridades, já que são ofertados abertamente, à luz do dia, nas ruas. As gorjetas oriundas do turismo são uma fonte muito importante de renda para as famílias, até mais do que o próprio salário pago pelo Estado. Apesar da força o mercado informal, não há camelôs. Vendedores ficam, no máximo, nas garagens de algumas casas. Também não há mendigos, mesmo que haja pessoas – poucas, muito poucas – pedindo dinheiro.

CIMG5526 Moradia: as pessoas, em regra geral, são donas das próprias casas. O Estado fornece a casa para a família, que pode pagar ao governo pequenas quantias por mês, no longo prazo, para adquirir a casa e não ter de pagar mais aluguel. Em Havana, há muitas moradias em péssimas condições, em pequenos prédios de arquitetura espanhola. Assemelham-se aos cortiços brasileiros, mas considero que não é apro priado comparar dessa forma, porque as casas cubanas, mesmo que feias por fora, parecem ter melhores condições internamente. A arquitetura, apesar de mal cuidada, é maravilhosa, lembrando uma cidade colonial. Uma pessoa me disse que as famílias só podem vender a casa com autorização do Estado, que só aprovaria se não houver lucro na transação. Com exceção a um pequeno aglomerado de casas de madeira perto de uma fábrica fora da capital, não vi favelas. No entanto, não visitei todas as regiões do país.

Para saber mais:

Há sempre risco de distorção nos artigos do Wikipedia, mas o item sobre Cuba me pareceu bastante semelhante ao que vi e ouvi por lá. Por isso, sugiro leitura.

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