A um ano da abertura dos Jogos Olímpicos em 2012, Londres tem 88% de tudo pronto


A organização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil começa a ganhar as páginas dos jornais, exclusivamente por causa das notícias negativas e da recorrente mistura entre bens públicos e ganhos privados, atrasos em obras e planos, estouros orçamentários, falta de planejamento, de licitação e de controle.

Parece reprise. Há exatos quatro anos, o Brasil sediou os Jogos Pan-americanos, no Rio de Janeiro. Em julho de 2007, durante as competições, os brasileiros começaram a tomar conhecimento da dimensão dos recursos públicos empregados – R$ 3,3 bilhões – e do despreparo das autoridades públicas em cumprir obrigações como construir as instalações esportivas e as obras de transporte público – estas, apelidadas como “legado” para a sociedade. Vale lembrar que o parque aquático, o velódromo e os dois estádios construídos ou reformados em 2007 não estão aptos para os Jogos Olímpicos de 2016.

A história todo mundo já conhece. Obras sem planejamento, sem projetos de engenharia e sem orçamentos realistas. Custos bastante acima do divulgado inicialmente, cobertos inteiramente pelos cofres públicos. A iniciativa privada, que seria investidora em cerca de 30% das obras, participou apenas como fornecedora de bens e serviços de construção das obras.

A organização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016 no Brasil seguem o mesmo roteiro do Pan-americano de 2007, só que envolvendo recursos públicos em volume muito maior. Os estádios, que poderiam ser eminentemente investimentos privados, transformaram-se em despesa pública, incluindo gasto público tanto em arenas públicas quanto privadas. Obras de mobilidade urbana e reforma urbanística das cidades não existem ou estão muito atrasadas. Os planos formulados inicialmente crescem todos os trimestres e não há nenhuma garantia que os orçamentos públicos atualmente relacionados aos dois eventos esportivos não crescerão ainda mais.

A organização dos Jogos Olímpicos de 2012, em Londres, é a antítese do Brasil e tem muito a ensinar aos brasileiros. Algumas lições esbarram na instituição de leis e ferramentas de gestão. Outras, talvez as mais importantes, são culturais e conceituais, baseadas em princípios.

– Os governos envolvidos criaram uma agência (Olympic Delivery Authority, ODA, em inglês) exclusivamente para construir e entregar, com um ano de antecedência, todos os equipamentos e a infraestrutura para os jogos. O Brasil aprovou lei similar, pois se comprometeu a fazer isso. A lei brasileira, no entanto, não prevê metas e prazos para a entrega das instalações esportivas.

Londres 2012 arena 2 – O último relatório da agência britânica indicou que, em março de 2011, 83% das obras de instalações esportivas e de infraestrutura de transporte e energia tinham sido entregues em dia ou adiantadas. Segundo reportagem publicada no Financial Times, dia 20 de julho, 88% estavam concluídas e entregues.

– Em julho, os ingleses entregaram a quinta instalação, de um total de seis: o centro de imprensa, que comportará mais de 20 mil jornalistas.

– Além do centro de imprensa, já foram entregues para testes o velódromo (ciclismo), estádio (futebol, atletismo, abertura e encerramento), arenas para handebol e basquete, parque de canoagem e subestação de energia e central de calor, além de três estações de acesso metroviário ao centro olímpico. As obras seguem firmes nos 11 condomínios residenciais para atletas, que serão entregues no fim de 2011. O parque aquático será entregue, no prazo, no primeiro trimestre de 2012.

– Há muita preocupação com o legado. O que fazer com todas essas instalações? As unidades de saúde, o estádio,  os centros esportivos, os 11 conjuntos de alojamentos, com 2.818 apartamentos? Para uma parte dos alojamentos, já foi realizada uma pré-venda para empresas privadas. Para o restante, já três consórcios ou empresas privadas pré-selecionadas para assumir a administração e venda dos apartamentos. O estádio será concedido para um clube inglês, depois de desmontadas algumas seções, cujo objetivo é reduzir o custo de conservação.

– Os gastos das autoridades londrinas são publicadas na internet: datas, quem gastou, que tipo de gasto, quanto foi pago. Despesas com quaisquer coisas. Os salários de todos os diretores, conselheiros ou principais gestores da ODA britânica são publicados no relatório anual deles.

Londres 2012 basquete – Londres foi escolhida em julho de 2005. Em julho de 2006, já tinha pronto o plano principal para a construção do parque olímpico em uma antiga área industrial no leste da capital, degradada e com solo contaminado.

– Em março de 2007, o orçamento para as Olimpíadas 2012 foi apresentado: 9,32 bilhões de libras. Em março de 2011, foi revisto: 9,29 bilhões de libras. Nenhum centavo a mais. Somente 8,09 bilhões de libras foram disponibilizados para gastos. Houve contingenciamento (por causa da crise financeira que eclodiu em setembro de 2008) e reserva de recursos para riscos diversos.

– Um consórcio formado por três empresas foi contratado em agosto de 2006 para gerenciar custos e cronogramas das obras com três objetivos: garantir que as instalações esportivas e a infraestrutura fossem entregues no prazo; garantir que os orçamentos não aumentassem; buscar a redução nos preços a partir do gerenciamento eficiente dos projetos. As economias feitas seriam repartidas entre empresa e governo.

– O consórcio já recebeu 515 milhões de libras por metas atingidas e superadas. Conseguiu fazer com que todas as obras fossem entregues nos custos e prazos estabelecidos em 2007 – ou até antecipadas – e conseguiu reduzir custos de outros projetos, de forma que ficou com uma parte dos ganhos obtidos. As obras do estádio olímpico, por exemplo, começaram com três meses de antecedência.

– Há metas e controle. Em todos os anos, a autoridade olímpica londrina lançou planos de metas anuais, cada qual com dez itens, considerados marcos fundamentais para o progresso da construção do parque olímpico. É possível acompanhar o progresso de acordo com as metas diariamente. A agência publica regularmente relatórios para todas as etapas cumpridas ou em andamento.

– Em 2008, para evitar atrasos e imprevistos motivados por conflitos em torno de contratos e obras, entrou em funcionamento uma instância independente de arbitragem para buscar soluções pragmáticas para quaisquer disputas.

– O centro olímpico está instalado em uma antiga e enorme área no leste da cidade, considerada como uma espécie de ferro-velho a céu aberto. O objetivo é remodelar esse lado da cidade. Uma das metas era limpar a área de cerca de 2,5 km², antigo reduto de fábricas poluidoras, de forma a permitir o início das obras. Cerca de 220 edifícios abandonados e antigos foram postos abaixo e o índice de reaproveitamento do material de demolição nas obras do próprio parque atingiu 98%. Mais de 1,5 milhão m³ de solo foram descontaminados por cinco máquinas de grande porte, com capacidade de limpar 200 toneladas de terra por hora, removendo óleos e metais pesados. Limparam cerca de 2 milhões de toneladas. Depois de limpa, a terra passou a ser utilizada nas obras do próprio parque olímpico. Mais de 70.000 toneladas de sucata em um antigo depósito de lixo industrial foram separadas, reutilizadas ou destinadas para reciclagem. A rede elétrica é agora subterrânea, incluindo dois túneis com seis quilômetros de extensão para enterrar a rede de alta tensão. Antigamente sobrecarregados, 52 postes de eletricidade desapareceram.

Para saber mais:

1) O Tribunal de Contas da União (TCU) publicou o acórdão 2101/2008, um relatório extenso, de 126 páginas, avaliando a gestão das autoridades públicas na organização do Pan-americano e 2007. Vá direto ao final e leia os 77 pontos que amparam o voto do ministro relator Marcos Vinicios Vilaça. É uma aula.

2) Basta um registro simples e gratuito para ter acesso a algumas reportagens do Financial Times, como esta, que explica em que fase de conclusão estão as obras e os preparativos para os Jogos Olímpicos de Londres e como funciona o trabalho do consórcio contratado para garantir cumprimento de prazos e custos.

3) Para quem quiser acompanhar, o portal da Autoridade Olímpica de Londres 2012 tem uma seção com as fotos das instalações esportivas já entregues ou em obras.

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