Relatos de um viajante em Cuba – e você compara com o Brasil


Havana, capital cubana, é uma cidade com cerca de 2,3 milhões de pessoas. Isso significa que é um espaço interessante para perceber o que as cidades oferecem de bom e de ruim para as pessoas, principalmente considerando que Cuba é um país socialista. Depois de alguns dias passeando por lá e refletir um pouco sobre tudo o que vi e ouvi, abordo alguns aspectos. De antemão, aviso: esse texto não é um ensaio sobre a situação de Cuba, mas apenas um conjunto de itens sobre os quais conversei com as pessoas comuns de lá.

Saúde pública: não usei, não vi, não pude conferir pessoalmente como CIMG5900 funciona o serviço público de saúde cubano. Mas ouvi bastante, principalmente de quem interessa ouvir uma opinião como essa, que é a população, os pacientes. Não tem reclamação. Os cubanos elogiam o serviço e afirmam que ele funciona bem. Em um caso relatado, uma criança tinha asma e como os remédios e procedimentos médicos não surtiam efeito prolongado, o serviço de saúde enviou para a casa dela uma equipe que constatou a causa: o mofo em partes da casa. O governo deu uma nova casa para a família. E a criança não teve mais crises de asma.

Vale lembrar que foi em Cuba que os programas de saúde da família ganharam força e destaque, na década de 80. Nesse modelo, uma equipe médica visita periodicamente as residências para orientar, detectar doenças, medicar e encaminhar as pessoas para a rede de saúde.

No Museu da Revolução, há uma ala pregando as melhorias na saúde da população tão logo os socialistas tomaram o poder. Tem muita propaganda ideológica. Um cartaz, no entanto, chamou a atenção. Não me recordo os números nem a moeda, mas a ordem de grandeza é mais ou menos essa: em 1959, o valor gasto pelo governo federal com saúde por pessoa anualmente era por volta de 25. Aumentou para 175 em 1999.

CIMG5640 Educação pública: novamente, as pessoas com quem conversei – taxistas, garçons, cozinheiros, estudantes – elogiam bastante, mas há algumas ressalvas. Um ponto forte é que lugar de criança é na escola. Até a nona série, é obrigatório estudar. Se o aluno não vai à escola, o governo envia assistentes sociais até a casa da criança para verificar o que está acontecendo. Os pais sabem que sofrerão sanções se não enviarem os filhos para as salas de aula. O analfabetismo em Cuba é zero, segundo pesquisas internacionais. O problema é que criança na escola não significa, necessariamente, criança culta. O Brasil tem um bom índice de crianças em sala de aula, mas a qualidade do sistema público de educação é sofrível. Em 2000, um estudo identificou que os alunos cubanos tinham médias muito mais altas em comparação aos latino-americanos. É um sinal interessante. Ao concluir o ensino médio, o aluno pode requerer vaga na universidade – pública. São diversas carreiras à disposição. No entanto, houve reclamação, indicando que as vagas em melhores profissões ficariam extra-oficialmente reservadas para a elite da burocracia cubana.

Segurança pública: o turista pode caminhar em qualquer horário do dia e da noite, em qualquer parte da cidade de Havana, nas mais ricas e nas mais pobres, mais claras e mais escuras, sem medo. Com ou sem policiais na rua, a sensação é de segurança.

CIMG5653Economia: esse é o principal problema do país, já que o modelo socialista baseado na atuação do Estado em todas as cadeias produtivas engessa a livre iniciativa, a produtividade, a criação de oportunidades. O embargo econômico que os EUA impõem ao país termina de eliminar a geração de oportunidades às pessoas. Há muita reclamação sobre esse aspecto: as pessoas querem trabalhar em outras áreas, fazerem o que gostam, ganhar mais dinheiro. Paralelamente à economia formal, há uma abrangente e gigantesca atividade informal, que não recolhe nem taxas e nem impostos. Produtos e serviços circulam no mercado negro e parecem ser oferecidos com o beneplácito das autoridades, já que são ofertados abertamente, à luz do dia, nas ruas. As gorjetas oriundas do turismo são uma fonte muito importante de renda para as famílias, até mais do que o próprio salário pago pelo Estado. Apesar da força o mercado informal, não há camelôs. Vendedores ficam, no máximo, nas garagens de algumas casas. Também não há mendigos, mesmo que haja pessoas – poucas, muito poucas – pedindo dinheiro.

CIMG5526 Moradia: as pessoas, em regra geral, são donas das próprias casas. O Estado fornece a casa para a família, que pode pagar ao governo pequenas quantias por mês, no longo prazo, para adquirir a casa e não ter de pagar mais aluguel. Em Havana, há muitas moradias em péssimas condições, em pequenos prédios de arquitetura espanhola. Assemelham-se aos cortiços brasileiros, mas considero que não é apro priado comparar dessa forma, porque as casas cubanas, mesmo que feias por fora, parecem ter melhores condições internamente. A arquitetura, apesar de mal cuidada, é maravilhosa, lembrando uma cidade colonial. Uma pessoa me disse que as famílias só podem vender a casa com autorização do Estado, que só aprovaria se não houver lucro na transação. Com exceção a um pequeno aglomerado de casas de madeira perto de uma fábrica fora da capital, não vi favelas. No entanto, não visitei todas as regiões do país.

Para saber mais:

Há sempre risco de distorção nos artigos do Wikipedia, mas o item sobre Cuba me pareceu bastante semelhante ao que vi e ouvi por lá. Por isso, sugiro leitura.

Anúncios

5 Respostas para “Relatos de um viajante em Cuba – e você compara com o Brasil

  1. Ailton José Aguiar

    UM PEQUENO COMENTÁRIO: O grande problema dos países socialistas é que não há democracia. Não há liberdade de criação porque o estado engessa a economia como estado empresário. Até 1959, ano da revolução, a renda per capta era uma das maiores da américa latina e hoje é uma das piores.Há presos políticos e alguns já foram para o paredon. Sai Fidel e entra o Raul. Não há alternância de poder. Na economia o governo está dispensando 500 mil funcionários públicos porque não tem dinheiro para pagar. É características dos países socialistas um forte investimento em: esporte,saúde,educação e segurança.Não sei na Venezuela como a coisa anda e também na Coreia do Norte.Na Urss era assim nos tempos de socialismo e na Alemanha Oriental. Quero crer que devemos copiar o que eles têm de bom e seguirmos os nossos caminhos com eleição, mercado cada vez mais aberto, estado forte sem ser obesso,estado desburocratizado,reformas estruturais de base, menos impostos e mais atividade econômica, juros menores e crescimento sustentado. Deveremos seguir as orientações de keynes e procurar distribuir renda, investir pesado em educação, segurança, saúde e moradia.

    • Boa análise. Cuba é sempre um caso bastante quente para debate, pois fica sempre a pergunta: o que cada um prefere, saúde e educação com boa qualidade, mas sem direito a oportunidades e expressão, ou o inverso. Um motorista nos relatou que não há violência na repressão à liberdade de expressão por lá, mas acaba acontecendo um boicote informal, de forma que aquele que se mostra contra as ações do governo é, no mínimo, privado das poucas oportunidades que há por lá. Por exemplo: se reclamas do governo, perdes, na prática, o direito de usufruir de uma vaga na faculdade (para uma boa profissão). Esse é apenas um exemplo do que ouvimos. A repressão parece ter sido mais acentuada no passado – e hoje estaria mais diluída, mais fraca. Mas concordo com a opinião e considero também que o melhor modelo até hoje instituído no mundo é a dobradinha entre democracia e capitalismo. E que as sociedades e as classes políticas sejam bem informadas e atuantes para evitar ou corrigir os problemas que esses dois modelos têm também, já que são, na modesta opinião deste blogueiro, os melhores. Abraço e volte sempre!

  2. Ser privado do direito de ir, vir e falar não é bom, mas se Cuba virar um país capitalista entrarão armas, drogas e outras coisas que acabariam com a cultura e fariam com que Cuba se tornasse um mini Brasil.
    O governo não pode abrir as pernas de uma vez, senão não conseguiria fechar. Estou indo pra lá e fico muito feliz em saber que não há violência. Poderei criar meus filhos livres, diferentemente daqui!

    • Prezado Kelin, antes de ir, leia NOSSOS ANOS VERDE-OLIVA.
      Se, mesmo assim, decidir ir “criar seus filhos livres”, gostaria que me enviasse noticias de lá: antonionunes@cpovo.net. Isto, é claro, se conseguir acesso a internet.
      Fico, entretanto, imaginando em que mundo você vive para achar que vai criar seus filhos LIVRES em Cuba.
      Mas… estou curioso esperando teus relatos.
      Att,
      Antônio Nunes

  3. No texto o autor diz “em qualquer parte da cidade de Havana, nas mais ricas e nas mais pobres”.
    Como assim, “nas mais ricas e nas mais pobres”?
    Aquilo lá não é socialismo?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s