Arquivo do mês: junho 2011

O primeiro gol ninguém nunca esquece – ou não deveria

A Notícia - gol Joinvile 1 O jornal A Notícia, da cidade de Joinville, Santa Catarina, publicou, em março, uma reportagem que pode servir de inspiração para diversos jornais, de circulação nacional ou local.

Pouco depois do aniversário de 35 anos do clube de futebol da cidade – o Joiville Esporte Clube (JEC) –, que disputará a Série C do Campeonato Brasileiro em 2011, A Notícia publicou uma matéria para relembrar o primeiro gol da equipe.

A reportagem foi feita a partir de entrevistas com pessoas que tiveram influência no fato e, fundamentalmente, por meio de uma reconstituição gráfica do primeiro tento do time.

O autor da reconstituição, Fabio Abreu, deu dicas sobre os caminhos para criar uma reportagem como essa, no Flickr dele: “Nove pessoas, entre jogadores e jornalistas que estavam no jogo, foram ouvidas. (A) matéria pós-jogo do (arquivo do) jornal A Notícia também serviu de base para a montagem da jogada. Não existem filmagens do jogo.” É, na verdade, um trabalho historiográfico.

A Notícia - gol Joinvile 3 A partir desse exemplo, jornais locais poderiam relembrar ou até reconstituir o primeiro gol das equipes do bairro ou da cidade. Boa parte dos clubes não têm departamentos de história ou estatísticas bem organizados, mas pode haver quem tenha um recorte de jornal ou até a memória ainda intacta para contar a história. E, futebol, sobrevive sobretudo à história oral.

Pedras no caminho – Há dificuldades a serem vencidas. Fontes orais e escritas são fundamentais para reconstituir o fato – o primeiro gol de cada clube – ocorrido, não raras vezes, há quase sem anos. As bibliotecas da cidade da cidade precisam ser visitadas para encontrar jornais antigos. Os clubes devem ser convencidos a ajudar a encontrar tais evidências históricas. Por que não, ao término de todo o trabalho, realizar um evento festivo para comemorar e relembrar o fato recém-reconstituído?

Pouco adianta também fazer um bom trabalho de apuração e entregar um texto longo ao leitor. É preciso investir em uma infografia, como feito pelo jornal A Notícia. Neste caso, a melhor solução é contratar serviços de terceiros – designeres, ilustradores, agências de comunicação.

Sugestões – Alguns tradicionais clubes do futebol brasileiro poderiam ser procurados para a produção de reportagens como a elaborada pelo A Notícia. Sugiro três, porque representam clubes tradicionais do interior do Estado de São Paulo e tais reportagens poderiam turbinar os cadernos esportivos dos jornais locais:

Clube Atlético Juventus (SP). Clube tradicional da capital paulista, sediado do bairro da Moóca, já foi campeão brasileiro na Série B, em 1983. Nos últimos anos, o Moleque Travesso tem experimentado a gangorra entre campeonatos organizados regionalmente e disputa, hoje, a terceira divisão do campeonato paulista. Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas.

Associação Ferroviária de Esportes (SP): O máximo que A Locomotiva Grená da cidade de Araraquara conseguiu foi o vice-campeonato da Série C do Campeonato Brasileiro em 1994, perdendo o título para o Novorizontino (SP). Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas. Há registros sobre o acontecimento do primeiro gol.

Associação Atlética Internacional (SP): sediada em Limeira, e mais conhecida por Inter de Limeira, foi a primeira equipe do interior do estado a conquistar o campeonato paulista (1986). Disputa, atualmente, a a terceira divisão do campeonato paulista. Parece ter estatísticas e informações históricas razoavelmente bem organizadas.

Para saber mais:

1) Acesse as páginas da reportagem puiblicada no jornal A Notícia diretamente no Flickr do autor da façanha, Fábio Abreu.

2) Para os interessados em caçar estatísticas e histórias para boas pautas sobre o assunto, a página do Wikipédia sobre clubes brasileiros de futebol oferece uma gigantesca variedade de times em todos os estados.

Atualização em 28 de junho: Fabio Abreu, autor da reportagem que reconstitiu, em texto e infografia, o primeiro gol do JEC para ao jornal A Notícia (PR), conta rapidamente os bastidores da reportagem:

Como surgiu a idéia de fazer essa pauta: Este ano, o autor da reportagem e o editor chefe do jornal tomaram a decisão de produzir reportagens gráficas que abordassem fatos da cidade – uma forma de “conversar mais diretamente” com o leitor. O clube da cidade, o JEC, fez, em março, 35 anos. Após conversar com um amigo sobre a decisão do jornal, surgiu a sugestão de contar como foi o primeiro gol do JEC. “Achei a ideia legal porque esse gol nunca foi mostrado, não foi filmado nem nada. Mostrá-lo seria inédito”, disse Fabio Abreu. “As pessoas que eu precisaria entrevistar moram na cidade, são até personagens conhecidos. Eu cumpria a função de falar de um acontecimento que faz parte da história da cidade – e tinha o gancho do aniversário do time”, concluiu.

As dificuldades: As dificuldades apareceram realmente na apuração. “Como era inevitável, eu teria que basear o infográfico nas informações das memórias dos entrevistados”, disse Fabio Abreu. O lance do gol aconteceu há 35 anos e algumas informações eram conflitantes. Nove pessoas foram entrevistadas. Cinco delas não se lembravam do lance, mas deram contribuições importantes para a reportagem. Das quatro que se lembravam do fato (todos foram jogadores do Joinville e estavam em campo na partida do primeiro gol),  um entrevistado disse que o gol surgiu de um cruzamento pela direita e os outros três de um passe da ponta-esquerda – esta última informação conferia com a descrição do gol feita pelo próprio jornal A Notícia naquela data. O autor, então, optou pelo passe da esquerda. Uma dica importante dele para garantir mais precisão à reconstituição: “Poderia ter juntado os quatro entrevistados em um só dia, mas tive receio de que eles se deixassem influenciar um pelo outro.”

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São Paulo e Nova Iorque: quanto tempo demora para remodelar e revitalizar uma área degradada?

High Line 2 A cidade de Nova Iorque comemorou, em junho, mais um passo da transformação urbanística de uma área conhecida como Baixa Manhattan. A prefeitura e a comunidade cortaram a fita da segunda fase da remodelação arquitetônica da High Line, uma espécie de “minhocão” dos nova-iorquinos que foi transformado em um parque suspenso.

A High Line era uma linha aérea de trem, construída no fim da década de 20, com 21 quilômetros de extensão. Na época, foi a solução encontrada para evitar acidentes causados pela dificuldade de segregar o trânsito do trem de carga e de cavalos e outros meios de transporte. A inauguração do trem elevado, em 1934, eliminou 105 cruzamentos nas ruas de Nova Iorque.

High Line park

Depois de décadas de mudanças urbanísticas, sociais e econômicas, a High Line passou a ser menos utilizada para transporte de carga e acabou se deteriorando. Em 1999, quando a maior parte da via férrea elevada já tinha sido demolida em décadas anteriores, um movimento local surgiu defendendo a remodelação da antiga ferrovia – e a transformação dela em um parque elevado.

Em 2004, recursos municipais foram inicialmente destinados. Em junho de 2009, a primeira seção do parque aéreo foi inaugurado, com custo de US$ 50 milhões bancados pela prefeitura. Em junho de 2011, a segunda parte foi entregue à população. Desde a inauguração, não houve registro de crimes graves, o que é ajudado pelo sistema de vigilância por câmeras.

High Line map A terceira parte da High Line estava prevista para ser demolida e agora está em fase de planejamento para ser também agregada aos dois lotes já inaugurados. Quando – e se isso ocorrer –, o parque aéreo terá 2,3 quilômetros de extensão. A prefeitura percebeu que a remodelação atraiu negócios, empreendedores e vitalidade econômica. Desde 2009, mais de 30 projetos foram idealizados ou estão em construção. Por isso a remodelação pode ser mais lucrativa que a demolição.

FSP 13jun cracolândia Em São Paulo, maior metrópole brasileira, há diversas regiões regiões centrais que necessitam de remodelação e reurbanização.

A mais conhecida é a Cracolândia, um conjunto de quarteirões. Em alguns, tudo será demolido. Em outros, prédios serão reformados e modernizados. A idéia é a mesma: atrair empreendimentos e empreendedores e revitalizar a região.

No entanto, os prazos são completamente longínquos, sem garantia que serão cumpridos. Lançado em 2004, o programa Nova Luz, que prevê a atração da iniciativa privada para revitalizar a região em parceria com o governo municipal, deve demorar, no mínimo, 15 anos, a partir do início das obras. É o que mostra recente reportagem do jornal Folha de S.Paulo.

Guardadas as devidas proporções, a remodelação urbana promovida pelo governo municipal de Nova Iorque mostra que é possível alterar o curso de degradação urbana das grandes cidades. Que a Nova Luz, em São Paulo, também possa servir de exemplo para outras municipalidades.

Para saber mais:

1) Leia o verbete sobre The High Line da Wikipédia e conheça mais detalhes da história e da remodelação, visualizar mais fotografias e acessar, nas referências, matérias da imprensa norte-americana sobre a iniciativa.

2) Reportagem do The New York Times relata a ausência (nenhum crime nesta categoria foi cometido) de crimes graves desde a inauguração.

3) Vale assistir cada vídeo e ver cada foto do portal oficial do projeto The High Line. Os álbuns mostram as fases de construção, os arredores do ele ado e muito mais.

4) Quem tiver acesso, aconselho passear pela High Line utilizando as ferramentas do Google: Google Maps, Google Street View e Google Earth.

Quer saber onde arrumar namorado ou namorada? O jornalismo com base em estatísticas te ajuda

Essa reportagem não vai mudar o curso do mundo, mas pode mudar a vida de alguém. Primeiro, porque qualquer ação tem 50% de chances de dar certo e 50% de chances de dar errado. Segundo, porque se a pessoa estiver no lugar certo e na hora certa, pode ter chances maiores de ser bem-sucedida.

O jornal O Estado de S. Paulo produziu uma boa reportagem com base em estatísticas de concentração de homens e mulheres nas regiões da cidade de São Paulo. A equipe de infografia e arte do diário despejou os dados em um mapa e conseguiu um efeito muito interessante, ao mostrar facilmente ao leitor quais são os lugares que ele deveria estar no Dia dos Namorados.

É claro que não hác erteza que alguém conseguirá encontrar um namorado ou namorada somente por estar em um bairro onde há maior porcentagem de homens ou mulheres. A reportagem apenas encontrou uma forma diferente de dizer a mesma coisa. Não há nada para analisar ou divagar. Somente parabenizar a iniciativa.

Dia dos namorados

Para saber mais:

Leia a matéria principal e as reportagens sobre os bairros (Marsilac, República, Barra Funda e Moema, diretamente no portal Estadão. com.

Bom jornalismo, bons infográficos e boa iniciativa

Tim Devin considera-se um artista na cidade de Boston, no estado norte-americano de Massachusetts. Pode ser considerado, além disso, um bom jornalista. Ele criou uma forma inteligente de informar. Inovou, também, na plataforma. Nada de jornal impresso, internet ou qualquer outra mídia. Ele publica as notícias dele nos postes de rua.

Broadside crimeBasta ver o Broadsides (pequenos cartazes ou folhetos, neste caso, distribuídos nas ruas). Por ele, o autor divulga poemas e notícias e também realiza pesquisas de opinião.

Para divulgar notícias, ele cria infográficos com estatísticas de enorme interesse para a sociedade, edita-os de forma visualmente didática, e os cola em postes de energia. Essa vertente do projeto chama-se Mappy Facts.

Negócio? – O projeto Broadsides vale como experimento. Dificilmente oferecerá perspectiva de faturamento que o sustente financeiramente. É arte, provocação ou manifestação – ou todas as alternativas juntas.

Duas das notícias divulgadas por infográficos nos pequenos cartazes do Mappy Facts para a vizinhança abordaram a geografia do crime (quais localidades registram mais ocorrências) e a distância dos pontos de captação de água. São, sobetudo, poderosos instrumentos de conscientização. broadsides-survey-small-pho

Pesquisa de opinião – Agregado à “infografia para postes”, o autor projetou dez pequenos pedacinhos de papel, enfileirados lado a lado – metade escrito “sim”, metade escrito “não”.

São respostas possíveis para a pergunta: “Você sabia disso?” Quem quer participar da pesquisa, basta retirar um pedacinho conveniente. Ele ainda aproveita a idéia e o formato para espalhar perguntas diversas pela cidade, com ou sem gráficos agregados.

Iniciativas como essas poderiam ser divulgadas em escolas, públicas ou privadas, incentivando os alunos a fazerem o mesmo – ou projetos com o mesmo objetivo transformador.’