Arquivo do mês: maio 2011

Futebol na mídia: números e boa apuração ganham espaço onde reinam o óbvio, a futrica e o achismo

Esporte em números 1Um monte de vírus que predomina na cobertura jornalística sobre futebol. Fontes ocultas e interesseiras, opinião do repórter, análise enviesada, descrição contaminada pela paixão clubista, obviedades, tudo isso forma um cadinho que tornou-se quase um padrão. O público não tem o que fazer, já que o problema está em todos os jornais, todos os programas. Desligar e mudar a estação de rádio somente faz sair de um buraco e cair em outro. Infelizmente.

Por isso, é satisfatório perceber que cresce, dentro da imprensa esportiva, sobretudo a que é responsável pela cobertura de futebol, uma linha de atuação que se preocupa em coletar, depurar, analisar e interpretar dados absolutos e reais em vez de simplesmente divulgar aquela opinião que soa como barata e deturpada ao leitor. Dá mais trabalho, é claro, mas convence mais facilmente.

As matérias avaliam diversos aspectos, tanto futebolísticos quanto econômicos, a partir da análise de consultores e contadores ou do esforço dos próprios repórteres. Com isso, adjetivos passaram a ter o apoio de números e estatísticas que ultrapassam os costumeiros rankings de artilharia e pontos conquistados. Reuni alguns casos para exemplificar:

SporTV arrecadaçãoFinanças dos clubes – Uma série do canal SporTV sobre os resultados dos balanços dos clubes, obrigados a publicar resultados financeiros desde 2003.  No entanto, a imprensa sempre deu pouca atenção ao assunto – e passou a fazê-lo com um pouco mais de constância a partir da colaboração de Amir Somoggi, diretor de consultoria em gestão esportiva da BDO. Em quatro matérias, o canal analisou os melhores e os piores em alguns importantes aspectos, como dívidas, patrimônio e receitas, indicando, inclusive, qual seria o clube mais preparado – a partir das finanças e da estrutura – para vencer o campeonato brasileiro que começa no dia 21 de maio.

Esporte em números 2 Pontaria ruim – O Lance! publicou reportagem mostrando o desempenho do jogador Jean, do São Paulo. Versátil, um misto de ala, lateral direito e volante, o atleta chega muitas vezes na frente do goleiro adversário, mas ostenta somente três gols no ano. O atleta passou a ser alvo da imprensa porque a equipe cria muitas jogadas mas não consegue as transformá-las em gols. Para ir além da simples opinião, o repórter buscou, jogo por jogo na temporada de 2011, dados estatísticos para comprovar que o atleta realmente não está com boa pontaria.

Os árbitros brasileiros – A equipe de Victor Birner, no Blog do Birner, analisou partidas em vários campeonatos para constatar, baseado em números, se a arbitragem brasileira aplicava cartões amarelos e vermelhos em excesso, o que, na opinião de muitos comentaristas esportivos, prejudicava a evolução das partidas. Provou, com bases nas estatísticas, aquilo que mídia e público polemizavam baseados na opinião de cada um. O Café Expresso já havia comentado esse e outro caso, ambos ótimos.

Rodrigo Bueno 03mar11Torcida alemã – O jornalista Rodrigo Bueno, da Folha de S.Paulo, apurou o histórico recente de público nos estádios alemães para mostrar a evolução da média de público naquele país, algo que já vinha ocorrendo antes da realização da Copa do Mundo de 2006. Depois de apurar e mostrar os dados, analisa as razões para o bom desempenho da liga alemã.

Os melhores da América do Sul – Rodrigo Bueno, novamente, aproveitou a divulgação de uma lista dos melhores clubes da América do Sul. A Conmebol, confederação local de futebol, promete atualizá-la regularmente, como se faz na Europa, onde a quantidade de vagas disponíveis para cada nação no campeonato continental depende do sucesso dos clubes nos últimos anos. Se os os brasileiros são desclassificados nas primeiras fases nos últimos anos, deveriam perder uma das vagas que têm direito, que seria transferida para países cujos clubes apresentam melhor desempenho. Na Europa, é assim. Com base nessa dinâmica, o jornalista fez uma análise polêmica, mas muito boa – e que os números não o deixam desamparado.

Br Econômico desempenho clubes 4 Quanto custa um gol? – O diário de negócios Brasil Econômico buscou uma consultoria para elaborar um caderno especial a respeito da gestão no futebol. Mais do que estampar os maiores e menores faturamentos ou endividamentos, cruzou o desempenho financeiro com o obtido dentro das quatro linhas. Conclusão: mostra tabelas com o preço de cada vitória, gol e ponto.

Treinos de cada time – O Uol fez um bom trabalho no início da temporada passada do campeonato brasileiro, uma pauta que já foi analisada, aqui, pelo Café Expresso. A idéia foi criar rivalidade entre os torcedores em um tema aparentemente sem interesse – a programação de treinamentos. Na época, escrevi: “Parece chato? Então veja a manchete que resumiu o trabalho:

Por Centenário, Corinthians ‘força’ pré-temporada e supera rivais no treino’. Os torcedores dos outros times certamente se perguntaram: “caramba, e o meu time, como está se preparando para fazer frente a essa estratégia dos corinthianos?

Para saber mais:

– As matérias do jornalista Rodrigo Bueno, do Jornal Folha de S. Paulo, estão disponíveis aqui e aqui, mas somente para assinantes.

– O Café Expresso procura fazer algumas análises e textos sobre futebol suportados por estatísticas. Na seção PRINCIPAIS ASSUNTOS, na coluna aqui à direita, clique na palavra FUTEBOL.

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Quase quatro anos depois do acidente da TAM, quais promessas foram cumpridas?

Em julho, o acidente aéreo da TAM, no aeroporto de Congonhas, São Paulo, completará quatro anos. Relatórios e diagnósticos foram feitos, erros e problemas foram apontados, soluções foram adotadas e prometidas.

A imprensa precisa começar agora, antecipadamente, um trabalho de reportagem essencial para o público: de todas as promessas que foram feitas pelas autoridades públicas, por semanas, logo após o acidente, quais foram cumpridas, mesmo que parcialmente?

Seria um desperdício focar o esforço de reportagem somente no drama das famílias e na reconstituição do acidente, ambos aspectos bastante importantes e válidos, mas não centrais, quatro anos depois.

Uma primeira promessa foi a redução da quantidade de vôos no aeroporto de Congonhas. A segunda medida foi a redistribuição da malha aérea – todos os voos em todos os aeroportos foram analisados para verificar quais locais poderiam receber mais pousos e decolagens.

No meio das medidas anunciadas, há também a construção de um novo aeroporto para atender a cidade de São Paulo e a instalação de uma praça no terreno do antigo galpão da TAM, que foi doado pela companhia aérea para a prefeitura para este fim.

Para saber mais:

O portal da revista Veja listou uma cronologia de notícias sobre o acidente. Infelizmente, parou de atualizar no fim de 2007, mas, mesmo assim, dá uma boa noção dos acontecimentos que se seguiram.

Os jornais brasileiros teriam coragem de fazer uma primeira página dessas?

The Huntsville TimesSeja lá qual for o assunto principal do dia, os jornais brasileiros teriam coragem de mudar o padrão de edição da primeira página para estourar uma bela foto, como fez o The Huntsville Times, no estado norte-americano do Alabama?

Esse não é o padrão do Huntsville. A primeira página é, usualmente, editado como todos os outros jornais: um título para a principal matéria, mais chamadas para diversas matérias, tudo ocupando equilibradamente a página inteira.

Editorialmente, tanto faz: ambos os modelos trazem diversas chamadas na capa. Mas essa parece muito mais atraente, não?

Recentemente, no dia 15 de maio, o jornal noticiou que uma temporada de tornados causou muitos estragos no estado  do Alabama. Em uma das edições do diário, a primeira página, novamente, decidiu Huntsville 15mai11chamar a atenção do leitor com uma foto impactante e uma arte incomum, com muita beleza.

Primeiro, a notícia, na primeira página, literalmente continua a imagem. O parágrafo foi editado de tal forma que a primeira linha segue a base do tornado.

Mas há um segundo fato, bastante interessante para os padrões brasileiros.

A escolha do superintendente de ensino na cidade de Huntsville ganhou o topo da primeira página daquela edição de domingo, indicando a importância da notícia para a comunidade local.

É possível imaginar, caro leitor, uma notícia similar, a respeito da escolha do secretário municipal de educação de qualquer cidade brasileira, na capa de algum jornal local?

NY Times mostra que interatividade também pode trazer utilidade

Há uma explosão de infográficos – estáticos ou interativos – nascendo nas empresas de mídia (muito mais nos Estados Unidos e na Inglaterra do que em qualquer canto do planeta).

Há muita beleza implícita na forma de apresentar os dados. Isso é bom. O público consegue, muitas vezes, perceber mais facilmente a informação oferecida ao vê-la – em vez de lê-la. Isso também é bom. A interatividade prende a atenção, gera interesse e divertimento. Isso é bom, claro.

NYT buying or renting Mas, muito mais do que beleza e curiosidade, os bonitos e didáticos infográficos que proliferam no mundo virtual precisam começar a trazer utilidade – ou prestação de serviço, como muitos gostam de mencionar.

Veja o exemplo mais recente do The New York Times, jornal de vanguarda quando o assunto é apresentar notícias em formato interativo e visualmente arrojado.

Eles criaram uma espécie de aplicativo pelo qual as pessoas podem inserir dados sobre si mesmas numa planilha e calcular, automaticamente, em quais situações é mais vantajoso financeiramente alugar ou comprar um imóvel para moradia.

Uma sugestão de pauta para as empresas brasileiras de mídia é copiar a idéia e mudar a pauta: em quais situações é mais vantajoso financeiramente para o cidadão comprar um carro ou se locomover pela cidade de táxi? Fica a dica.

Atualização: No dia 15 de maio, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma reportagem sobre as condições que é melhor optar pelo táxi ou pelo carro próprio. A reportagem é estática, e não interativa, mas a matéria é boa.

Toda história tem de ter um fim – principalmente no jornalismo

Uma das críticas costumeiras que as pessoas fazem para a imprensa é a capacidade que a mídia tem de mudar de direção e esquecer um caso – até então, extremamente importante – tão logo surja outra história tão ou mais devastadora. É comum notar que um caso sobre corrupção é rapidamente esquecido quando outro aparece. Sim, a mídia é volúvel com suas histórias.

Dia 4 de abril, o jornal Folha de S.Paulo resgatou um caso que ganhou bastante audiência e notoriedade: a Máfia dos Sanguessugas. O gatilho que atiçou a memória da redação foi o aniversário de cinco anos da história, já que em 4 de maio de 2006, a Polícia Federal deflagrou uma operação para combater desvio de verbas públicas federais na compra de ambulâncias por autoridades municipais.

FSP Sanguessugas Antes de tudo, o jornal merece elogios. Foi o único, entre todos os mais importantes da mídia de circulação nacional, que lembrou de aguçar a memória dos leitores.

Atualizou para o público o rumo do julgamento dos envolvidos no escândalo e mostrou que, até o momento, somente um dos envolvidos foi punido criminalmente – que é o que interessa para combater a impunidade.

Problemas – A crítica que a imprensa merece é a capacidade de esquecer facilmente dos casos que descobre. Toda história precisa ter um fim – principalmente no jornalismo. Lançar os casos de corrupção e deixar de acompanhá-los semanas depois, independentemente dos motivos, somente aumenta a sensação de impunidade que a sociedade tem com relação à punição de casos de corrupção.

Manter os principais casos de corrupção atualizados para o público, independente da plataforma que a notícia será distribuída, custa caro. Jornalismo tem um custo e as empresas de mídia ainda não conseguiram fechar as equações para tornar rentáveis as inúmeras oportunidades diante delas. As redações estão cada vez mais enxutas e que a velocidade de circulação das informações aumentou a carga de trabalho dos profissionais.

Saídas para o impasse – Talvez a solução seja a reorganização da pauta das redações – deixar um pouco de lado a cobertura cotidiana dos atos oficiais de centenas de órgãos e autoridades do poder público que vivem apresentando frases de efeito e factóides para ganhar espaço na mídia e passar a produzir conteúdo direcionado ao que pode interessar à audiência.

As grandes empresas de mídia poderiam orientar as equipes para produzirem uma matéria especial por semana para relembrar algum caso de corrupção e atualizar as informações para a audiência. Contar o final das histórias esquecidas – sejam casos da economia, da política ou sobre corrupção – certamente faz parte do grupo de interesse dos consumidores de notícias.

Para saber mais:

1) O Museu da Corrupção é um portal que tem o objetivo de ser um receptáculo dos casos de mal versação dos recursos públicos. De uma maneira bastante humorada e interativa, é possível relembrar os principais escândalos com um nível de atualização até razoável. Vale a pena conferir.

2) O Wikipédia traz uma lista relativamente grande dos principais casos de corrupção que estouraram no Brasil nas últimas décadas. Para alguns itens, há boa descrição da história e até boa atualização. Como é sabido, o Wikipédia é escrito por voluntários, mesmo que haja algum tipo de supervisão. Dependendo do uso que se pretende, é fundamental checar os dados.

3) O Café Expresso produziu um texto recentemente analisando dados estatísticos sobre a evolução do Brasil nas listas que apontam as nações mais e menos corruptas. Você acha que vale a pena relembrá-lo?