Arquivo do mês: abril 2011

As ciladas diante de quem quer contar boas histórias – e algumas dicas para não cair nelas

Uma das mais difíceis tarefas do jornalismo é saber contar boas histórias. Não basta saber escrever. Tem de saber escolher os bons personagens, identificar os melhores aspectos a serem perguntados, ter coragem de jogar tudo fora se o relato não ficar bom ou parecer comum demais.

Muitos iniciantes – e também muitos jornalistas experientes – caem na armadilha de tentar transformar em heróis pessoas que são comuns – ou personagens que se parecem com outros tantos milhões por aí. Em outros casos, fatos corriqueiros ganham uma aparência incômoda de um momento histórico.

Armadilhas – Em muitos casos, o autor se emociona com a história de vida de um personagem que nem sempre vale uma história. É comum isso ocorrer quando na frene do gravador estão pessoas que conseguiram vencer doenças graves, obtiveram sucesso diante de adversidades tremendas ou a partir de uma origem pobre ou fizeram boas ações sem esperar nada em troca.

Nessas situações, o escritor ou jornalista imagina estar diante de história instigante e arrebatadora, nas o resultado pode ser uma narrativa cansativa, piegas, artificial, forçada. A linha que separa os dois lados é muito tênue.

Se o jornalista acabar se envolvendo emocionalmente com o personagem, isso pode acabar encobrindo a capacidade de discernir quando a história está pendendo mais para o lado comum do que para o extraordinário.

Também é ruim quando escritor tem uma vida intrincada com a do personagem, de fomra que o primeiro fica com dificuldades para equilibrar diversos elementos da história de vida do segundo. É sempre muito delicado relacionar em um texto que se tornará público glórias e desonraa de conhecidos e amigos.

Casos antagônicos – O jornal O Estado de S. Paulo costuma publicar perfis de personagens e histórias do cotidiano. Nem sempre a pauta é realmente ímpar, única. Nem sempre o texto acerta o tom.

Boas histórias 4Em uma reportagem, o jornal contou a história de um advogado que, perplexo com a quantidade de impostos existentes no Brasil e todos os transtornos que esse cipoal tributário deixa de rastro no dia a adia das pessoas e empresas, decidiu transformar toda a legislação em um livro de seis toneladas e dimensões gigantescas. O fato de o personagem já ter sido morador de rua nem precisou entrar no texto principal, de tão excêntrica que é a história em si. A foto deu o toque final.

Outra matéria, no entanto, escorregou. A missão foi narrar a iniciativa de um grupo de amigos adultos que, ajudados pelas redes sociais, conseguiram reunir a “turma da rua” da época em que eram adolescentes. Lembranças importantes para o grupo que apareceu na reportagem significaram pouco ou nada para os leitores. As brincadeiras de uns com os outros não conseguiram capturar a atenção. O texto é bom, a foto é criativa e bem feita. No entanto, ficou a sensação de estar diante de uma história artificial, sem graça, “forçada”. Boas histórias 3

Passo a passo – É claro que alguns jornalistas têm melhor capacidade de observação, imaginação e percepção. Tudo isso ajuda muito na hora de compor um roteiro, mantê-lo instigante e eletrizante, fundamental para manter a atenção do leitor. Mas mesmo aqueles que se consideram ruins para contar uma história podem melhorar tal habilidade.

Algumas dicas, para quem quiser se aprimorar. Busque todos os detalhes que imaginar. Muitas vezes, excesso de adjetivos escondem falta de detalhes e de informações que permitam narrar e descrever.

Tente coletar o que o personagem fez minuto a minuto se estiver narrando algum fato importante. Busque perceber as facilidades, habilidades, ansiedades e medos do personagem. 

Se for possível, visite o local onde a história aconteceu e observe a paisagem, sinta o clima, tente imaginar os fatos se desenrolando no lugar. Caso contrário, peça para o personagem descrever – e instigue-o a contar mais com perguntas objetivas.

Tente descobrir tudo sobre a vida do seu personagem, mesmo que tenha de jogar fora todas as informações coletadas. Qual foi o momento que sentiu mais medo? O parente que mais gosta e por quê? O que lhe dá mais satisfação em fazer? O principal defeito? E a maior virtude? Se possível, confronte as respostas com alguém próximo do seu personagem.

Desconfie sempre do saudosismo – é meio caminho para a pieguice. Aposte no inusitado – raramente frustra. Acima de tudo, é fundamental ler os bons autores da literatura brasileira e as boas reportagens que são publicadas na imprensa alternativa e na chamada grande mídia.

Para saber mais:

Sugiro uma visita no Congresso da Abraji, associação de jornalismo investigativo, que será realizado entre 30 de junho e 2 de julho. Alguns palestrantes darão boas dicas de como contar boas histórias. Thiago Herdy contará como reconstruiu a história de Jean Charles, morto em Londres. Leonêncio Nossa falará sobre os bastidores da reportagem que resgatou do esquecimento mais de 30 lutas armadas do Brasil ocorridas todas no século XX. Já Eliane Brum dará detalhes como foi construir uma reportagem sobre a família Lula, cuja apuração levou mais de 8 anos e cujo texto é um retrato da nova classe média que ascendeu no período 2003-2010.

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A imprensa brasileira ignorou duas importantes celebrações do dia 22 de abril

Uma das principais formas de construir uma boa pauta (sugestão de tema que será, posteriormente, transformado em uma reportagem) no jornalismo é olhar para o calendário. Boas redações miram meses à frente para identificarem fatos importantes na história brasileira e mundial e preparar conteúdo interessante para a audiência.

No dia 22 de abril, comemora-se o descobrimento do Brasil – ao menos é essa a data que consta nos livros de história. Internacionalmente, o mundo comemora o Dia da Terra, uma celebração que serve para discutir em todos os continentes, de forma organizada, as melhores práticas para conservar os recursos naturais do planeta.

Ninguém falou nada – Curiosamente, as duas datas passaram completamente despercebidas pelas páginas dos três principais jornais diários do Brasil. Ferramentas não faltam para saber, com antecedência, quais são as datas importantes. O Wikipédia, por exemplo, oferece um prático calendário para ser pesquisado.

É inconcebível deixar de reportar as polêmicas e os avanços por trás dos dois temas. No caso nacional, há polêmicas seculares que permanecem. Historiadores ainda discutem a respeito de rastros que indicam que os portugueses – ou outros europeus – desembarcaram no Brasil muitos anos antes, de forma que a data 22 de abril de 1500 seria, historicamente, algo totalmente fantasioso e institucionalizado. Em outras palavras, o Brasil não teria sido descoberto no dia 22, no mês de abril e no ano de 1500.

Além disso, outro grupo de historiadores se contrapõem ao marco zero do descobrimento do Brasil, pois consideram que o Brasil já existia em 1500, com outro nome, outro tamanho, outros povos residentes. Há um verbete no Wikipédia que mostra suscintamente o âmago dessa discussão.

Que tal matérias com os seguintes títulos: “Mais de cinco séculos depois, data do descobrimento ainda gera dúvidas e polêmicas”? Ou: “Porque a verdadeira data do descobrimento do Brasil ainda é uma incógnita para muitos historiadores?” Ou ainda: “Descobrimento do Brasil: você pode estar comemorando no dia errado”.

Os segredos na Torre do Tombo – O jornalista Laurentino Gomes, autor dos livros “1808”, sobre a saga da vinda da família real portuguesa para o Brasil, e “1822”, sobre a história do descobrimento do país, escreveu um artigo extremamente interessante sobre os segredos que envolvem o tema. Jornais, emissoras de rádio e TV poderiam ter convidado o autor para entrevistas ou artigos. Veja um pequeno trecho:

O maior mistério, porém, diz respeito à própria data do Descobrimento. Há inúmeras evidências de que os portugueses já teriam chegado ao Brasil antes de 1500. E, talvez, também navegadores de outros países.

A partir do artigo de Laurentino Gomes, a mídia brasileira poderia ter enviado equipes para fazer reportagens sobre a a Torre do Tombo, uma espécie de biblioteca do governo português que, desde a monarquia, guarda livros, documentos e segredos. Lá, como narra o escritor, podem estar documentos reveladores sobre as viagens marítimas portuguesas para o continente americano bem antes de 1500. Veja:

Um grande enigma encobre os nove anos entre a viagem de Bartolomeu Dias, primeiro navegador a cruzar o Cabo da Boa Esperança, na atual África do Sul, em 1488, e a viagem de Vasco da Gama. Nos arquivos portugueses da época não há registro de uma única viagem ao Atlântico Sul nesse intervalo. (…) Há fortes evidências, no entanto, de que, nesses nove anos de aparente calmaria, os portugueses navegaram mais do que nunca, enviando seguidas missões exploratórias à região.

Sobre o Dia da Terra, a quantidade de pautas é praticamente infinita, tamanha é a variedade de temas que englobam as áreas de conversação na natureza, economia sustentável e ambientalismo, entre outros. O Café Expresso, inclusive, já sugeriu a pauta tempos atrás para as redações. Em vão.

Leia mais:

Em março de 2010, o Café Expresso publicou o artigo “O que se comemora no dia 22 de abril”, sugerindo que a imprensa brasileira se preparasse para produzir conteúdo sobre o Dia da Terra.

Uma sugestão de pauta para os programas esportivos saírem da mesmice

Os programas esportivos de televisão precisam buscar irreverência, sobretudo aos domingos, quando o horário de duração é estendido. Há espaço para reportagens sobre modalidades menos famosas e os produtores “quebram a cabeça” para criar novas abordagens e assuntos interessantes para o telespectador.

Nos últimos meses, craques de futebol foram convidados para participar de competições de conhecimento geral sobre o esporte ou para tentar acertas a trave, entre muitos outros exemplos. Realmente dá trabalho e idéias geniais não surgem todos os dias.

sampdoria1 Caso os produtores de programas esportivos aceitem sugestões, segue uma: que tal criarem uma disputa de futebol de botão e esticar a competição por uns três ou quatro programas? O famoso futebol de botão ainda é prática bastante presente no cotidiano de crianças, adolescentes e adultos, mesmo com a invasão dos jogos eletrônicos.

Para não ser mais um campeonato de botão, que tal dar uma espiada no blog Vitrine do Botão, produzido por Jeferson Carvalho. São, sem sombra de dúvida, botões de alta qualidade – o “Armani dos botões”, como o blog brinca, em referência à glamorosa marca de roupas. As ilustrações vieram de lá.

O próprio autor poderia ser chamado para explicar regras, história do esporte e curiosidades – ou até para ser o juiz, já que tem experiência no assunto.portuguesa_a A qualidade dos botões surpreende. Há times das mais importantes ligas de futebol do mundo. Os detalhes chamam a atenção e as imagens coladas no acrílico representam, de forma bastante fiel, as camisas das próprias equipes, com nomes de jogadores e patrocinadores. O que você acha?

Antes e depois: uma das mais básicas regras do jornalismo, executada com fotos e eficiência

Uma das mais básicas regras do jornalismo é confrontar tempos diferentes: passado, presente e futuro. O “antes e depois” funciona, dá noção ao leitor do tamanho da mudança e da novidade, informa fácil.

Antes e depois 2 O jornal O Estado de S. Paulo, dia 30 de janeiro, colocou essa regra elementar em prática com muita maestria. A reportagem analisava o resultado de uma política pública da prefeitura de São Paulo cujo objetivo é retirar camelôs sem autorização das ruas da capital com auxílio de um contingente significativo de policiais militares, que passam a ganhar um dinheiro extra do município para trabalharem nos horários de folga.

Par amostrar facilmente o leitor sobre os efeitos da operação municipal, o jornal resgatou nos bancos de fotografias imagens antigas de locais da capital paulista repletas de camelôs. A partir dessa pesquisa, indiciou ruas e praças que os fotógrafos do diário deveriam fazer fotos atuais, buscando o clique a partir do mesmo ângulo das imagens antigas. O resultado ficou bastante satisfatório, já que texto algum conseguiria exprimir a dimensão da transformação ocorrida.

Antes e depois 1

Essa reportagem é relevante ou fútil?

Dia 21 de março, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem infográfica para explicar algumas causas dos preços elevados de produtos e serviços comercializados na capital paulista, uma das mais caras cidades do mundo. Faz parte da série “Discussões Urbanas – Os Desafios da Metrópole”, abordando diversas facetas deste tema com infografias de página inteira.

Sem dúvida, o periódico tem levado a sério um dos pilares do jornalismo moderno: oferecer informação de uma forma visualmente agradável e didática. Sem superficialidade, sem exageros, gráficos e tabelas simples, porém bem organizadas espacialmente e relacionadas umas com as outras. Cada trecho ajuda a história a fluir.

Futilidade? – Muitos críticos ainda enxergam o uso de matérias baseadas em infografia como futilidade ou apenas entretenimento. Dizem ainda, desta vez com razão, que nada vale uma matéria visualmente agradável se ela não seguir algumas das regras elementares do jornalismo: precisão, objetividade, relacionada com assuntos que tenham impacto para a vida do cidadão e sejam relevantes para ele. Boa apuração e apresentação agradável podem coexistir e o leitor é quem ganha.

O que acontece nas redações é que muitas vezes os jornalistas correm à procura de estudos, levantamentos e bancos de dados interessantes para dar origem a matérias infográficas – e nem sempre eles abordam temas que estão no topo dos mais requisitados no momento.

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Quente e frio – A matéria sobre os motivos de tudo custar tão caro em São Paulo é uma “matéria fria”, tipo de reportagem que, em geral, não precisa ser publicada imediatamente, independentemente de ser importante, interessante ou úteis. Há tempo para planejar uma infografia bem elaborada para auxiliar a matéria ou até para ser o cerne dela, como é o caso. Quando a redação está diante de “matéria quente”, que precisa ser publicada imediatamente ou o mais breve possível, quase nunca há tempo para “as futilidades”, como dizem os críticos. Explica-se tudo por texto, e pronto.

Mais velocidade – Com o texto, é diferente. Mais flexível para elaborar e publicar, leva vantagem na linha de produção do jornalismo porque permite maior velocidade na cobertura diária dos fatos, principalmente quando há necessidade de acompanhar a evolução de alguma história.

A regra de reportagens infográficas já é prática comum há anos na redação da revista Superinteressante, sucesso de vendas no mercado brasileiro. O projeto editorial da publicação permite que a redação trabalhe com pautas desconectadas com o dia a dia dos fatos econômicos e políticos.

Isso não impede que a Super conecte a pauta aos assuntos mais comentados ou desejados dos leitores. Tanto que, de anos para cá, sempre que possível tenta explorar, com profundidade e muita infografia, os temas centrais de filmes que estão para surgir nas telas dos cinemas.

Conclusão – Enfim, a matéria publicada pelo Estadão para discutir o custo de bens e serviços na capital paulista não deve ser considerada fútil, pois é relevante. Por ser considerada uma reportagem fria, o que mostra ainda mais acertada a decisão de entregá-la ao leitor da forma de um belo infográfico.

Se alguém quiser a imagem da reportagem em tamanho maior, deixe um e-mail nos comentários.

Veja mais:

Em texto recente, o Café Expresso comentou outra reportagem da mesma série do Estadão, que analisou, naquela ocasião, o problema da coleta seletiva de lixo na capital paulista.