Arquivo do mês: março 2011

Se a imprensa esportiva for rápida, essa notícia rende uma boa matéria

Muriaé MG O jornal Folha de S.Paulo informou, na coluna Painel FC, que o ex-presidente da República, José Alencar, torcedor do Nacional de Muriaé (MG), cantarolava o hino do clube que nem mesmo os dirigentes lembravam mais – ou sequer sabiam – que existia.

Se a imprensa esportiva, sobretudo a televisiva, for rápida, essa informação renderia uma belíssima reportagem para os jornais esportivos que vão ao ar no horário do almoço ou até para os especiais, no domingo.

Seria uma bela homenagem ao ex-presidente, falecido dia 29 de março, e muito interessante para o público que gosta de futebol e boas histórias.

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O maravilhoso mundo dos infográficos interativos

Nos últimos dias, me deparei com quatro infográficos interativos que, além de atraentes e interessantes, instigam o público a pesquisar e a aprender. Eles abordam questões candentes e atuais e ajudam a criar consciência e compreensão. Vale lembrar que trabalhos como esses só são possíveis quando há bancos de dados consistentes e abrangentes disponíveis.

Suprimento de água fresca. Produzido para o Visualizing.org em um concurso aberto para celebrar o Dia Mundial da Água. O infográfico permite a comparação entre dois países em diversos aspectos relativos à água: consumo por pessoa, consumo do país por ano e suprimento de água, entre outros. É possível saber quais nações tem menor quantidade disponível de água, quais países usam mais o insumo para fins industrial e agrícola e muito mais.

Water Supply

O caminho do protesto. Produzido pelo jornal inglês The Guardian, mostra, de forma bastante interessante e eficiente, uma linha do tempo narrando a sequência dos protestos no Oriente Médio e no Norte da África. A linha do tempo, que começa com o a notícia do desempregado tunisiano que colocou fogo no próprio corpo após ser impedido de vender legumes na rua, chega a parecer com o Guitar Hero, videogame de sucesso no mundo todo.

Linha do tempo Mapa de ônibus de Londres. Disponível no Tableau Public, o mapa foi produzido com 1,5 milhão viagens de ônibus na capital inglesa. A amostra representa apenas 5% do total de viagens feitas no sistema de transporte, compreendendo ônibus, metrôs e trens. Permite ver rota por rota e a intensidade das viagens por dia e horário.

London buses 

A história da pobreza. Uma mapa-mundi que permite visualizar a mudança de patamar – de pobre para desenvolvido – nas nações em todos os continentes a partir de indicadores desde 1820. A interatividade permite segregar nações ou continentes ao gosto do internauta.

Poverty map

Por que há tanta reclamação de consumidores na Justiça? O leitor responde

opinião

O Café Expresso gosta da opinião de todos os leitores. De alguns deles, mais. De outros, menos.

Opinião maluca a gente respeita. Só isso. Opinião coerente, bem argumentada, a gente respeita e até concorda. Como essa, ao lado, publicada no jornal o Globo.

Os consumidores sofrem com a falta de comprometimento de algumas companhias com a qualidade de produtos, serviços e atendimento pós-venda.

É comum que, diante do valor irrisório da indenização envolvida no processo judicial, os advogados das empresas nem apareçam nas audiência agendadas, o que significa ganho de causa para quem reclama. Multas com valores mais altas poderiam ajudar a reverter problemas de baixa qualidade de produtos e serviços?

Saiba mais:

Veja a reportagem do jornal O Globo que suscitou a proposta do leitor.

Nos EUA, há dezenas de aplicativos criados quando os governos abrem os bancos de dados

Um interessante artigo publicado no The New York Times mostra a distância que existe entre governos brasileiros e estrangeiros, sobretudo norte-americanos e europeus, quando o assunto é transparência do setor público e atenção ao cidadão.

O artigo é de Richard Thaler, professor de economia e ciências comportamentais da Escola Booth of Business, da Universidade de Chicago. Selecionei alguns trechos que servem como síntese da idéia do autor e evidenciam o potencial que existe, tanto para os negócios quanto para a prestação de serviços aos cidadãos, quando governos divulgam informações ou dados crus sobre quaisquer temas.

– Os governos aprenderam uma nova forma – e barata – de melhorar a vida das pessoas. A receita é simples. Pegue os dados que eu e você já pagamos para um órgão público coletar e publique na internet de uma forma que programadores de computador possam facilmente usá-las. O setor privado se encarregará da criação de sites e de aplicativos para telefones celulares, reformatando e apresentando os dados de um jeito útil para consumidores, trabalhadores e empresas.

Onde está o ônibus? – Na cidade de São Francisco (EUA), o departamento de trânsito coletou dados da localização dos ônibus e trens por GPS e publicou as informações, em estado cru, na internet, tudo em tempo real. Um aplicativo para celulares foi criado e as pessoas que o utilizam podem saber onde está o ônibus que esperam, se ele está preso no trânsito ou atrasado – inclusive, se a pessoa está esperando o ônibus na rua certa. O cidadão recebe mais serviços e o governo não gasta nada com isso.

– Em São Francisco, já há uma enorme variedade de aplicativos disponíveis para serem utilizados nos celulares que abordam serviços em áreas como eleições, crime, transportes públicos e previsão do tempo, entre outros. O próprio governo federal dos Estados Unidos oferece um cardápio de aplicativos para serem utilizados. Eles lidam com assuntos como obesidade mercado de trabalho e programação de vôos, entre outros.

Nem tudo são flores – No entanto, mesmo que haja leis e governos dispostos a disponibilizar cada vez mais grandes bancos de dados e informações em estado bruto para programadores utilizarem e criarem aplicativos úteis às pessoas, há movimentos políticos e econômicos que tentam restringir a transparência abrangente e total no transporte aéreo e nas regras de segurança de produtos.

– Nos EUA, as companhias aéreas não querem publicar em tempo real os preços vigentes para passagens e serviços extras, como filmes, poltronas mais espaçosas e refeições, por exemplo, como determina a lei. Isso dificulta que os clientes tenham noção exata do custo total da viagem e possa comparar as companhias.

– Em outro programa governamental, que permite aos cidadãos relatarem problemas de segurança vivenciados com produtos quaisquer, políticos e setores econômicos organizados tentam restringir a iniciativa, já que ela, ao colocar companhias com má qualidade na vitrine, oferece um risco para as vendas.

E para os brasileiros? – No Brasil, há rascunhos de tentativas como as que vigoram na Europa e Nos Estados Unidos. O governo do Estado de São Paulo lançou recentemente o Governo Aberto, que disponibiliza bancos de dados com informações públicas para os desenvolvedores e programadores criarem aplicativos e serviços. No entanto, muitos especialistas reclamaram que os dados disponíveis estão em formatos pouco úteis – ou são superficiais. Mesmo que trôpego, é um passo que significa o início de uma jornada.

Imagine quantos novos serviços e aplicativos poderiam ser criados no Brasil, no mesmo molde do que já acontece em outros países. Gostaria muito de ver, por exemplo, a base de dados das companhias de engenharia de tráfego disponibilizadas, em tempo real e em formato utilizável, para que novos serviços e aplicativos fossem criados.

Veja mais:

Em outro artigo, também no The New York Times, Richard Thaler descreve alguns aplicativos criados a partir dos bancos de dados disponibilizados pelo governo federal dos Estados Unidos.

Deve ser difícil viver em um país assim

Assinar as newsletters – aqueles e-mails que oferecem o título e poucas informações das principais reportagens do dia ou da semana – dos grandes jornais norte-americanos oferece uma rápida visão global do que ocorre na principal potência econômica mundial.

Chama a atenção a quantidade de matérias negativas abordando a gestão e a situação no sistema de ensino dos Estados Unidos, sejam os gestores o governo central, os estados ou cidades e condados.

Os problemas: há necessidade de cortar o orçamento para a educação em diversas localidades, o governo federal quer instituir um programa de avaliação dos professores que esbarra na resistência dos sindicatos de funcionários públicos, muitas das escolas que sofrem ameaça de ter recursos cortados enfrentam paralelamente perspectiva de aumento de matrículas e diretores e gestores discutem a ampliação da quantidade de alunos por classe.

Mais problemas – Além disso, os professores não aceitam discutir qualquer tipo de aumento salarial ou de remuneração adicional atrelada ao mérito, nem redução de benefícios para adequar os gastos aos orçamentos curtos do pós-crise financeira e também não querem ouvir falar de metas e cobrança de resultados nas escolas públicas.

Sem esquecer da polêmica em torno das chamadas escolas “charter”, colégios públicos de ensino primário ou médio que não são obrigad0s a seguir todas as regras de governança das outras escolas ditas comuns – uma das razões da polêmica. O modelo, no entanto, parece funcionar, já que há bons resultados, fila de espera em todas elas e uma disputa acirrada por vagas repentinas, preenchidas mediante sorteio. Algumas das “charter” podem se especializar em alguma área do conhecimento – matemática, por exemplo.

É, pegando emprestado o bordão do colunista Ancelmo Gois, do jornal O Globo: deve ser difícil viver em um país assim.

Dados sobre criminalidade: plenamente divulgados lá fora, são segredos de Estado no Brasil

O jornal Folha de S. Paulo noticiou em manchete na capa no dia 1 de março: “Funcionário do Estado negocia dados sigilosos”. Trata-se de um sociólogo que chefia a área de análise e planejamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, responsável por arquivar o conjunto de estatísticas sobre criminalidade no maior estado brasileiro.

Estatísticas crime 1 Esse cofre, repleto de estatísticas de um serviço público essencial, é alvo de uma disputa entre o jornal e o governo paulista desde 2008, no mínimo. A Folha de S. Paulo acredita ser de elevado interesse público desarquivar esses dados para que a população saiba quais são as ruas com maior incidência de crimes, em quais bairros há mais roubos residenciais, quais os veículos mais visados para roubo, por exemplo.

Já o governo paulista decretou uma regra: divulga, trimestralmente, somente dados consolidados por tipo de crime, de forma que a sociedade tenha apenas conhecimento sobre quais crimes aumentaram ou diminuíram em em cada macrorregião – capital, interior, litoral. O que o jornal deseja tem enorme relevância – mas está no arquivo. O que o governo estadual é interessante mas tem pouco valor – e está público.

O erro maior permanecerá – O que jornal revela, além da imoralidade da história, é a mentira do governante. Estatísticas públicas que deveriam ser divulgadas para toda a sociedade estavam sendo comercializadas de forma privada por funcionários públicos para instituições e empresas privadas que, com os dados comprados, faziam negócios e geravam mais e mais valor e riqueza. A desonestidade foi punida com demissão. Mas o erro maior – o arquivamento dos dados – certamente permanecerá.

HomicideReport São Paulo segue na contramão de diversas cidades norte-americanas e européias que já aderiram a um movimento internacional que clama por divulgação de informações e estatísticas públicas pelos governos – conhecido como “open data moviment”. Lá, a idéia é que programadores e outros profissionais criativos desenvolvam novos negócios e novas empresas com os dados públicos – independentemente se vão fornecer, posteriormente, serviços gratuitos ou pagos. O importante é gerar valor, negócios, empresas e empregos com as estatísticas públicas.

Um projeto interessante é o do jornal Los Angeles Times. Chamado The Homicide Report, mostra o local e a quantidade de homicídios rua por rua. Imagine qualquer quarteirão do bairro onde mora nesse mapa. Tem relevância para você? É ,ais ou menos isso que a Folha de S. Paulo quer fazer e que o governo paulista diz que não deve ser feito porque a divulgação de tais dados cria pânico e desvaloriza regiões.

Princípios – Não se pode negar que há certa lógica por trás dos argumentos governamentais, mas há um problema de princípio: essas justificativas insistem que o povo, na ignorância, vive mais feliz. Caro secretário, caro governador, é a informação – que fornece às pessoas a chance de buscar as melhores opções por conta própria – que gera mais felicidade, aqui entendida como bem-estar.

Outro ponto relevante. Se as pessoas acreditam que governos e políticos são transparentes e sérios, elas acabam se tornando mais comprometidas com o funcionamento geral da cidade. Isso não é idéia de pesquisador utópico, mas sim conclusões de um estudo em três cidades nos Estados Unidos.

Já peguei emprestado algumas vezes a frase de um dos pais da internet, Tim Berners-Lee, que coordena o departamento chamado “governo aberto” no Reino Unido, e volto a fazê-lo: “Dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.” No Brasil, esses dados, arquivados, não estão sendo jogados no lixo. Estão gerando negócios, para alguns.

Para saber mais:

Projeto Not Just a Number, realizado em conjunto pelo The Oklahoma Tribune e pelo Inside Bay Area. Mostra a força de dados públicos relevantes de uma forma abrangente, com jornalismo. Entre estatísticas, relatos e procedimentos, informa fatores de riscos envolvidos nos homicídios, mapa com serviços públicos como recreação e treinamento para o emprego e ruas nas quais os crimes ocorreram, entre outros. Pena que tem atualização a partir de 2008.

Projeto Oakland Crimespoting. Mostra, ocorrência por ocorrência, por tipo de crime, em cada endereço. Um projeto ímpar quando o assunto é divulgação de dados públicos releventes para gerar serviço e valor para a sociedade.