Na briga pelos direitos de transmissão do futebol brasileiro, o essencial não vem à tona


Os jornalistas esportivos estão diante de um grande desafio. Na ante-sala da escolha dos vencedores do direito de transmissão dos jogos para os campeonatos que serão realizados entre 2012 e 2014, os repórteres e editores precisam identificar o que é fato, blefe e factóide. A tarefa não é fácil já que há multiplicidade de agentes envolvidos – clubes, emissoras de TV e empresas interessadas na licitação, entidades desportivas como Clube dos 13 e Confederação Brasileira de Futebol (CBF) –, interesses divergentes e alianças políticas entre uns e outros para disputar o poder nesse mercado.

Historicamente e em geral, com poucas exceções, o jornalismo informativo é majoritariamente baseado em declarações de empresários de atletas, cartolas e dirigentes. Para dificultar ainda mais a busca pela veracidade e pela transparência, muitas das declarações não são acompanhadas do nome e do cargo de quem as dá – o chamado “off jornalístico”, quando quem dá a informação pede anonimato.

Em regra geral, o anonimato serve para proteger a identidade de pessoas que oferecem alguma informação extremamente importante para revelar um caso de corrupção, por exemplo, e evitar represálias ao informante. No meio esportivo, infelizmente, o “off jornalístico” é usado de forma desequilibrada e sem necessidade. Por trás do anonimato, há o interesse comercial das fontes – e não medo de represálias – e muito blefe transmitido como informação verdadeira. Por medo de nunca mais ter acesso ao informante e sob risco de ele passar uma notícia verdadeira para um concorrente, o jornalista esportivo publica o blefe. É uma espécie de favor – “eu te ajudo hoje, amanhã você me ajuda”.

Na disputa pelos direitos de transmissão dos campeonatos brasileiros nos próximos três anos, novamente a imprensa está inundando o público com blefes, factóides e voluntarismos – e muito pouco é informação verdadeira. Na ânsia de se tornar íntimo de cartolas, dirigentes e empresários, muita informação fútil, mentirosa ou parcial – ou com todas essas características juntas – ganha as manchetes.

Já que o fato principal está mais atrelado aos negócios e menos aos desportos, as equipes de jornalismo esportivo deveriam contar apoio dos colegas que cobrem negócios e assuntos jurídicos. Um bom começo seria:

– identificar nome, CNPJ e endereço de cada agente envolvido.

– identificar a cidade em que cada agente tem sede e o cartório de registros local.

– pedir no cartório de registros local uma cópia do estatuto dos envolvidos, principalmente das instituições colegiadas como C13 e CBF.

– identificar nos portais da Previdência Social e da Receita Federal, a partir do CNPJ dos agentes, dívidas e débitos referentes a impostos e previdência social.

As informações, organizadas, ofereceriam ao público mais do que declarações raivosas e fúteis e uma boa noção tanto das responsabilidades estatutárias de cada agente e quando do que está além da briga por poder no mercado do futebol.

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Uma resposta para “Na briga pelos direitos de transmissão do futebol brasileiro, o essencial não vem à tona

  1. Evandro G. Silva

    Parabéns. Clareza, concisão e objetividade. Meu professor de literatura ficaria satisfeito. Meus professores de comunicação elogiariam. E eu agradeço. É uma pena tentar acompanhar notícias esportivas pela internet. Sou assinante do UOL e me valho do conteúdo agregado oferecido através de parceiros mais confiáveis, pois o jornalismo deles é fraquíssimo e a redação é péssima. Já cansei de “comunicar erro”. Pior ainda é tentar acompanhar os comentários dos leitores. Isso só ratifica a triste condição do cidadão brasileiro: ignorante, indolente, egoísta, bobo e feio. No final é preciso rir de tudo.

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