Os leitores explicam detalhes que escapam dos jornalistas – e melhoram as reportagens


O portal da revista britânica The Economist trouxe um daqueles gráficos simples e instigantes. No caso específico, as estatísticas relacionam a quantidade de câmeras de trânsito e a mortalidade nas estradas de vários países. Sempre há muita polêmica sobre o assunto. Enquanto autoridades públicas defendem a proliferação dos equipamentos que fiscalizam a velocidade como medida para diminuir as mortes nas estradas, os cidadãos queixam-se que tudo não passa de mais um tentáculo do Estado para arrecadar recursos.

Default template

No gráfico acima, o eixo horizontal indica a quantidade de câmeras de velocidade em cada país por mil quilômetros de estradas. O eixo vertical mostra a quantidade de mortes por ano na mesma extensão. A leitura simples parece retratar que quanto mais equipamentos há, menos acidentes com mortes ocorrem. Israel seria um ponto fora da curva. Mas há muitos países com poucas mortes que usam bem menos câmeras nas estradas. Como analisar a situação em cada país?

O leitor está atento – Os comentários dos leitores, no entanto, sugerem cautela. Muitos outros fatores, reclamam eles, estatísticos ou não, interferem na correlação dos fatores e na comparação entre países. Por ser uma publicação de abrangência realmente global, há no fórum do portal comentários de diversos cantos do mundo – e eles ajudam a compreender melhor o que desponta nos gráficos a partir de fatores comportamentais e culturais de cada país.

Um leitor explicou que, por experiência pessoal, o patamar no qual Rússia e Ucrânia se situam não são surpresa. Por lá, há resistência em usar o cinto de segurança e há muita corrupção, disse. Por isso, há nas duas nações uma quantidade de mortes muito mais alta em relação a países com uma quantidade similar de radares instalados nas estradas que em outros países com bem menos mortes, como Estados Unidos, Suécia e Canadá. É possível imaginar, então, que mesmo que houvesse uma multiplicação das câmeras de velocidade, os dois países poderiam manter elevados padrões de mortes nas estradas.

Do mesmo país, um residente escreveu que há uma conjunção de fatores, além da corrupção: estradas péssimas e sem manutenção, pouca sinalização (e desdém para as regras intrínsecas às poucas placas existentes), facilidades para comprar carteiras de motorista, hábito de dirigir sob efeito de bebidas alcóolicas ou em alta velocidade, veículos sem conservação suficiente e falta de remoção de neve e gelo. Ajuda a entender melhor, certo?

E a educação? – Outro leitor analisou que na Finlândia há um fator preponderante para resultar em poucas mortes nas estradas: qualidade na educação. Depois de explicar as qualificações exigidas dos professores finlandeses, conclui que ter mais ou menos câmeras não faria diferença, pois o fator preponderante para diminuir as mortes nas estradas é a qualidade da educação de um povo.

Interessante outro comentário, que detectou que todos os países com mais mortes são nações comunistas ou recém saídas do regime – e que têm se adaptado ao uso intenso dos automóveis ao longo dos últimos 20 anos. É uma pena que o gráfico mostre países selecionados – e não todos os países – para permitir uma avaliação sobre esse aspecto com mais países nessas condições.

Multas de baixo valor – Na Polônia, escreveu um leitor, uma multa por excesso de velocidade custaria 100 pounds, algo como R$ 270, enquanto na Ucrânia e na Rússia seria possível se livrar da autuação pagando alguma propina. Conclui que é o valor financeiro da punição – e não a quantidade de câmeras – que determinará a redução das mortes nas estradas.

Nos Estados Unidos, mencionou outro crítico, há uma extensão malha rodoviária, muito maior que em outros países, e um talvez um hábito de viajar longas distâncias de carro em comparação a outras nações. Sugere a utilização de outras unidades de medida para comparação. Outro leitor também implodiu a escolha dos parâmetros: “Se em um país A uma certa estrada é utilizada por 100 pessoas por dia, e em um país B uma estrada semelhante é usada por 100 mil pessoas diariamente, é claro que um número de mortes de 10 pessoas por mil quilômetros significa coisas diferentes em cada caso.” Um terceiro segue na mesma toada: é preciso considerar a quantidade de carros e de motoristas por km ou o número de km dirigidos por ano. Faz ou não faz sentido?

Conclusão: os dados mostram interessantes constatações, mas é preciso cuidado para relacionar estatísticas que realmente tenham grande relação de causa e consequência – esta foi, por sinal, a principal reclamação dos leitores do Economist.com que se dispuseram a argumentar contra o pequeno texto da publicação que acompanha o gráfico. Boa parte dos leitores está atenta. Quando decidem participar e comentar, contribuem para aperfeiçoar ou corrigir as reportagens.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s