Verdades dolorosas para o jornalismo


Àqueles que se interessam em pensar como será o jornal no futuro, seja porque é leitor voraz ou jornalista, vale considerar um ótimo artigo escrito no O Estado de S.Paulo dia 7 de fevereiro. O texto questiona a perda de leitores e provoca a indústria da notícia ao afirmar, com base em argumentos do extraordinário Gay Talese, que os leitores estão desencantados com a forma como os jornais entregam informação atualmente. Separei trechos interessantes:

– É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico O Senhor dos Anéis e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real.

– Gay Talese: "A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. (…)"

– O nosso problema, ao menos no Brasil, não é de falta de mercado, mas a incapacidade de conquistar uma multidão de novos leitores. Ninguém resiste à matéria inteligente e criativa.

– A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência.

– Os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.

– Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente negligenciada: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.

Minha opinião: o jornalismo precisa realmente de histórias bem apuradas, bem escritas (não necessariamente parecidas com romances, como defende Talese), sobretudo bem apuradas. Se os jornais não conseguirem encantar e entusiasmar, continuarão a perder (ou a não ganhar) espaço. Sempre me intriguei com a baixa tiragem dos principais jornais considerados de circulação nacional, que não conseguem vender mais de 300 mil exemplares em um país com 190 milhões de pessoas cada vez mais exigentes, com instrução e renda crescentes. A pista realmente é a falta de conexão com o mundo real – e não o mundo oficial divulgado pelos governos e autoridades públicas e polícias a todo momento. E também incapacidade de se relacionar com o público jovem, que lê, sim senhor, mas não jornal. O Brasil real é mais embaixo.

Outras matérias sobre o mesmo tema: Separei seis textos que abordam diretamente ou perifericamente o tema central do artigo em questão – a dificuldade para atrair novos leitores para os jornais e como chamar a atenção de jovens e adolescentes.

1) Estadão dá alguns passos na trilha de sucesso da Superinteressante

2) Jornais precisam ousar nas estratégias para atrair leitores mais jovens

3) Notícias frias na capa dos jornais podem capturar novos leitores

4) Os jornais deveriam aproveitar melhor a vitrine gratuita que são as bancas

5) Jornalismo e histórias em quadrinhos combinam?

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