Arquivo do mês: fevereiro 2011

Na briga pelos direitos de transmissão do futebol brasileiro, o essencial não vem à tona

Os jornalistas esportivos estão diante de um grande desafio. Na ante-sala da escolha dos vencedores do direito de transmissão dos jogos para os campeonatos que serão realizados entre 2012 e 2014, os repórteres e editores precisam identificar o que é fato, blefe e factóide. A tarefa não é fácil já que há multiplicidade de agentes envolvidos – clubes, emissoras de TV e empresas interessadas na licitação, entidades desportivas como Clube dos 13 e Confederação Brasileira de Futebol (CBF) –, interesses divergentes e alianças políticas entre uns e outros para disputar o poder nesse mercado.

Historicamente e em geral, com poucas exceções, o jornalismo informativo é majoritariamente baseado em declarações de empresários de atletas, cartolas e dirigentes. Para dificultar ainda mais a busca pela veracidade e pela transparência, muitas das declarações não são acompanhadas do nome e do cargo de quem as dá – o chamado “off jornalístico”, quando quem dá a informação pede anonimato.

Em regra geral, o anonimato serve para proteger a identidade de pessoas que oferecem alguma informação extremamente importante para revelar um caso de corrupção, por exemplo, e evitar represálias ao informante. No meio esportivo, infelizmente, o “off jornalístico” é usado de forma desequilibrada e sem necessidade. Por trás do anonimato, há o interesse comercial das fontes – e não medo de represálias – e muito blefe transmitido como informação verdadeira. Por medo de nunca mais ter acesso ao informante e sob risco de ele passar uma notícia verdadeira para um concorrente, o jornalista esportivo publica o blefe. É uma espécie de favor – “eu te ajudo hoje, amanhã você me ajuda”.

Na disputa pelos direitos de transmissão dos campeonatos brasileiros nos próximos três anos, novamente a imprensa está inundando o público com blefes, factóides e voluntarismos – e muito pouco é informação verdadeira. Na ânsia de se tornar íntimo de cartolas, dirigentes e empresários, muita informação fútil, mentirosa ou parcial – ou com todas essas características juntas – ganha as manchetes.

Já que o fato principal está mais atrelado aos negócios e menos aos desportos, as equipes de jornalismo esportivo deveriam contar apoio dos colegas que cobrem negócios e assuntos jurídicos. Um bom começo seria:

– identificar nome, CNPJ e endereço de cada agente envolvido.

– identificar a cidade em que cada agente tem sede e o cartório de registros local.

– pedir no cartório de registros local uma cópia do estatuto dos envolvidos, principalmente das instituições colegiadas como C13 e CBF.

– identificar nos portais da Previdência Social e da Receita Federal, a partir do CNPJ dos agentes, dívidas e débitos referentes a impostos e previdência social.

As informações, organizadas, ofereceriam ao público mais do que declarações raivosas e fúteis e uma boa noção tanto das responsabilidades estatutárias de cada agente e quando do que está além da briga por poder no mercado do futebol.

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Como os mapas interativos explicam os levantes no Oriente Médio e norte da África

Os levantes populares contra ditadores que têm ocorrido em diversos países localizados no Oriente Médio e no Norte da África estão fulminando as redações e os consumidores de informação com uma rajada de informações e dados. São países com os quais jornalistas e leitores, no geral,  não têm muita familiaridade. Se os jornais impressos contam com espaço restrito para publicar mapas e guias que orientem o entendimento dos leitores, os internautas contam com opções criativas, abrangentes e atualizadas. Para quem domina o idioma inglês, pode-se, inclusive, pesquisar nos portais da mídia internacional. Veja alguns exemplos:

The Economist: Um infográfico padrão baseado em mapa. O internauta, ao clicar em cada país, acessa informações como nome do ditador, desde quando está no poder, posição da nação dos rankings que mensuram nível democracia, corrupção e liberdade de imprensa. Muito bom e abrangente. Lista 22 países.

Mapa protestos Economist

The Washington Post: Arte também baseada em mapa. As fichas do países dão lugar a uma linha do tempo vertical, organizando cronologicamente os principais acontecimentos. Dá acesso ainda a reportagens completas, fotos, vídeos e blogs sobre protestos em cada nação. Cita 12 países. Muito bom.

The New York Times: O jornal construiu uma ficha vertical, mostrando a localização do país no planeta, estatísticas econômicas e sociais, foto do ditador e data em que ele assumiu o poder. A arte é estática, sem permitir interatividade. Mesmo assim, é funcional. Dá acesso para reportagens sobre levantes em cada nação. Lista 8 países, com fotos desbotadas para presidentes depostos.

Estadão.com: O portal do tradicional jornal paulista fez uma infografia interativa baseada em mapas. O internauta, ao clicar em um país, recebe estatísticas econômicas, um breve relato sobre o protesto e uma imagem marcante. Abrange 9 nações.

UOL: Mapa e fichas indicam posição do país, tempo de governo do ditador, estatísticas sociais e econômicas. Um globo, quando clicado, compara tais estatísticas com a média mundial. Traz um breve relato e acesso para reportagem completa. Lista 9 países.

Financial Times: O jornal inglês lista 10 países e permite identificar as nações segundo alguns critérios, como aquelas que têm importante percentual de população jovem, fornecedores de gás e petróleo e também regimes ou ditadores que já duram mais de 20 anos.

Os leitores explicam detalhes que escapam dos jornalistas – e melhoram as reportagens

O portal da revista britânica The Economist trouxe um daqueles gráficos simples e instigantes. No caso específico, as estatísticas relacionam a quantidade de câmeras de trânsito e a mortalidade nas estradas de vários países. Sempre há muita polêmica sobre o assunto. Enquanto autoridades públicas defendem a proliferação dos equipamentos que fiscalizam a velocidade como medida para diminuir as mortes nas estradas, os cidadãos queixam-se que tudo não passa de mais um tentáculo do Estado para arrecadar recursos.

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No gráfico acima, o eixo horizontal indica a quantidade de câmeras de velocidade em cada país por mil quilômetros de estradas. O eixo vertical mostra a quantidade de mortes por ano na mesma extensão. A leitura simples parece retratar que quanto mais equipamentos há, menos acidentes com mortes ocorrem. Israel seria um ponto fora da curva. Mas há muitos países com poucas mortes que usam bem menos câmeras nas estradas. Como analisar a situação em cada país?

O leitor está atento – Os comentários dos leitores, no entanto, sugerem cautela. Muitos outros fatores, reclamam eles, estatísticos ou não, interferem na correlação dos fatores e na comparação entre países. Por ser uma publicação de abrangência realmente global, há no fórum do portal comentários de diversos cantos do mundo – e eles ajudam a compreender melhor o que desponta nos gráficos a partir de fatores comportamentais e culturais de cada país.

Um leitor explicou que, por experiência pessoal, o patamar no qual Rússia e Ucrânia se situam não são surpresa. Por lá, há resistência em usar o cinto de segurança e há muita corrupção, disse. Por isso, há nas duas nações uma quantidade de mortes muito mais alta em relação a países com uma quantidade similar de radares instalados nas estradas que em outros países com bem menos mortes, como Estados Unidos, Suécia e Canadá. É possível imaginar, então, que mesmo que houvesse uma multiplicação das câmeras de velocidade, os dois países poderiam manter elevados padrões de mortes nas estradas.

Do mesmo país, um residente escreveu que há uma conjunção de fatores, além da corrupção: estradas péssimas e sem manutenção, pouca sinalização (e desdém para as regras intrínsecas às poucas placas existentes), facilidades para comprar carteiras de motorista, hábito de dirigir sob efeito de bebidas alcóolicas ou em alta velocidade, veículos sem conservação suficiente e falta de remoção de neve e gelo. Ajuda a entender melhor, certo?

E a educação? – Outro leitor analisou que na Finlândia há um fator preponderante para resultar em poucas mortes nas estradas: qualidade na educação. Depois de explicar as qualificações exigidas dos professores finlandeses, conclui que ter mais ou menos câmeras não faria diferença, pois o fator preponderante para diminuir as mortes nas estradas é a qualidade da educação de um povo.

Interessante outro comentário, que detectou que todos os países com mais mortes são nações comunistas ou recém saídas do regime – e que têm se adaptado ao uso intenso dos automóveis ao longo dos últimos 20 anos. É uma pena que o gráfico mostre países selecionados – e não todos os países – para permitir uma avaliação sobre esse aspecto com mais países nessas condições.

Multas de baixo valor – Na Polônia, escreveu um leitor, uma multa por excesso de velocidade custaria 100 pounds, algo como R$ 270, enquanto na Ucrânia e na Rússia seria possível se livrar da autuação pagando alguma propina. Conclui que é o valor financeiro da punição – e não a quantidade de câmeras – que determinará a redução das mortes nas estradas.

Nos Estados Unidos, mencionou outro crítico, há uma extensão malha rodoviária, muito maior que em outros países, e um talvez um hábito de viajar longas distâncias de carro em comparação a outras nações. Sugere a utilização de outras unidades de medida para comparação. Outro leitor também implodiu a escolha dos parâmetros: “Se em um país A uma certa estrada é utilizada por 100 pessoas por dia, e em um país B uma estrada semelhante é usada por 100 mil pessoas diariamente, é claro que um número de mortes de 10 pessoas por mil quilômetros significa coisas diferentes em cada caso.” Um terceiro segue na mesma toada: é preciso considerar a quantidade de carros e de motoristas por km ou o número de km dirigidos por ano. Faz ou não faz sentido?

Conclusão: os dados mostram interessantes constatações, mas é preciso cuidado para relacionar estatísticas que realmente tenham grande relação de causa e consequência – esta foi, por sinal, a principal reclamação dos leitores do Economist.com que se dispuseram a argumentar contra o pequeno texto da publicação que acompanha o gráfico. Boa parte dos leitores está atenta. Quando decidem participar e comentar, contribuem para aperfeiçoar ou corrigir as reportagens.

Verdades dolorosas para o jornalismo

Àqueles que se interessam em pensar como será o jornal no futuro, seja porque é leitor voraz ou jornalista, vale considerar um ótimo artigo escrito no O Estado de S.Paulo dia 7 de fevereiro. O texto questiona a perda de leitores e provoca a indústria da notícia ao afirmar, com base em argumentos do extraordinário Gay Talese, que os leitores estão desencantados com a forma como os jornais entregam informação atualmente. Separei trechos interessantes:

– É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. No entanto, como explicar o estrondoso sucesso editorial do épico O Senhor dos Anéis e das aventuras de Harry Potter? Os jovens não consomem jornais, mas não se privam da leitura de obras alentadas. O recado é muito claro: a juventude não se entusiasma com o produto que estamos oferecendo. O problema, portanto, está em nós, na nossa incapacidade de dialogar com o jovem real.

– Gay Talese: "A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. (…)"

– O nosso problema, ao menos no Brasil, não é de falta de mercado, mas a incapacidade de conquistar uma multidão de novos leitores. Ninguém resiste à matéria inteligente e criativa.

– A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência.

– Os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia. Ela também existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.

– Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente negligenciada: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.

Minha opinião: o jornalismo precisa realmente de histórias bem apuradas, bem escritas (não necessariamente parecidas com romances, como defende Talese), sobretudo bem apuradas. Se os jornais não conseguirem encantar e entusiasmar, continuarão a perder (ou a não ganhar) espaço. Sempre me intriguei com a baixa tiragem dos principais jornais considerados de circulação nacional, que não conseguem vender mais de 300 mil exemplares em um país com 190 milhões de pessoas cada vez mais exigentes, com instrução e renda crescentes. A pista realmente é a falta de conexão com o mundo real – e não o mundo oficial divulgado pelos governos e autoridades públicas e polícias a todo momento. E também incapacidade de se relacionar com o público jovem, que lê, sim senhor, mas não jornal. O Brasil real é mais embaixo.

Outras matérias sobre o mesmo tema: Separei seis textos que abordam diretamente ou perifericamente o tema central do artigo em questão – a dificuldade para atrair novos leitores para os jornais e como chamar a atenção de jovens e adolescentes.

1) Estadão dá alguns passos na trilha de sucesso da Superinteressante

2) Jornais precisam ousar nas estratégias para atrair leitores mais jovens

3) Notícias frias na capa dos jornais podem capturar novos leitores

4) Os jornais deveriam aproveitar melhor a vitrine gratuita que são as bancas

5) Jornalismo e histórias em quadrinhos combinam?

Quem disse que (e)leitor não tem memória?

Para quem acredita que leitores e eleitores esquecem traquinagens passadas tão logo novos escorregões surgem, vale ler o que remeteu ao jornal o Globo o cidadão em questão. Pena que, para o país evoluir, seria necessário contar com mais 189.999.999 remetentes como ele.

leitor b 3fev11