Arquivo do mês: janeiro 2011

É a informação ou a lei que permite melhores escolhas e muda hábitos?

Em regra geral, é a informação, e não a lei, que muda drasticamente e de forma perene os hábitos das pessoas. Quer um exemplo simples? A Universidade de São Paulo (USP) divulgou pesquisa mostrando que os os semáforos que informam ao motorista o tempo restante para a troca de cor – vermelha ou verde – ajuda a prevenir acidentes de trânsito. Fácil: ao saber que poderá cruzar a rua em cinco segundos, o motorista não arrisca atravessar no sinal proibido.

No mundo todo, em muitos casos, governos têm ampliado a transparência, divulgando pela internet, gratuitamente, bancos de dados com informações cruas de diversos serviços públicos. A intenção é que programadores e desenvolvedores possam transformar dados em serviços úteis às pessoas.

Exemplos – Imagine saber em quais hospitais há maior incidência de mortes ou infecções hospitalares, em quais ruas e bairros há mais casos de roubos e assaltos, em quais localidades há grande ou pouca ocorrência de enchentes, quais os planos de saúde com mais reclamações dos segurados.

No Brasil – e na América Latina, em geral – não há nenhum indício de que os administradores públicos estejam interessados em seguir o mesmo caminho. Estatísticas públicas podem comprometer. Por isso, são guardadas na gaveta.

Princípio – Essa visão mesozóica é ruim. Como disse tempos atrás Tim Berners-Lee, considerado um dos criadores da internet, “dados governamentais são algo que nós já gastamos dinheiro … quando eles (dados) estão guardados no disco de computador no escritório de alguém, eles estão sendo jogados no lixo.”

De outro, a informação pode se transformar em serviços úteis para os cidadãos prevenirem acidentes, assaltos e fazerem melhores escolhas. Novas empresas que desenvolvem novos serviços em cima de tais informações públicas criam mais empregos, geram mais valor e conhecimento.

Safety products E novos exemplos continuam a aparecer no hemisfério norte. O jornal norte-americano The Washington Post informou que o governo federal disponibilizará milhares de dados de um sistema de reclamações de consumidores sobre problemas de qualidade e segurança de produtos vendidos no varejo.

Os defensores dos consumidores de lá aplaudem o poder repentino que as pessoas passam a ter na hora de fazer compras. As empresas que estão no banco de dados dizem não se opor à iniciativa, mas acusam que várias reclamações não deveriam constar no banco de dados porque os problemas não existiram.

Melhores escolhas – Mas é inegável: se um produto está causando dor de cabeça a centenas de consumidores, é importante que as pessoas tenham informação para fazerem as próprias escolhas diante das gôndolas, independentemente de quem for a culpa.

O Brasil, mesmo tardiamente, como de costume, terá de aderir ao movimento de transparência – conhecido lá fora como “open data movement”. Algo já ocorre com dados de orçamentos públicos, na medida em que cresce a pressão para que sejam disponibilizados na internet para fácil consulta. Mais informação significa mais oportunidades das pessoas fazerem melhores escolhas. Se os bancos de dados com informações públicas existem, precisam  ser divulgados. Se não existem, precisam ser criados.

Para saber mais:

Veja outras matérias e mais exemplos sobre o mesmo assunto. 1) Prefeituras abrem bancos de dados para programadores. Os cidadãos ganham. 2) O criador da internet começa a dar novos usos à própria criação.

Outro verão, tudo igual: enchentes, deslizamentos e reportagens sobre tragédias do ano anterior

Em dezembro e janeiro, quando as chuvas tornam-se mais intensas, invariavelmente ocorrem desastres cuja fórmula mistura fatores como índices pluviométricos acima da média, habitações em locais de risco e leniência na fiscalização pública. Em 2011, cidades como Mauá (São Paulo) e Teresópolis (Rio de Janeiro) já informam mortes por desabamentos ou deslizamentos.

Em 2010, enchentes, deslizamentos e desabamentos causaram 473 mortes em 11 estados – e 7,8 milhões de pessoas foram afetadas em 1.211 cidades, das quais 400 mil perderam tudo ou tiveram de pedir socorro para parentes e amigos.

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Governos municipais defendem-se. Mostram-se sem armas. Ou faltam recursos para remover centenas de famílias que em décadas passadas invadiram áreas de risco ou há capacidade técnica insuficiente para mapear o problema e planejar a ação.

No entanto, também é crível acreditar que é maior prioridade política pode resultar em recursos humanos, técnicos e financeiros em quantidades adequadas para fortalecer a capacidade das cidades resistirem e socorrem famílias atingidas, mesmo que qualquer prevenção nunca será definitiva.

Nesse contexto, a imprensa pode  exercer um papel fundamental – mas as pautas precisam ser antecipadas. Antes e depois das tragédias, a imprensa pode cobrar providências, mês a mês, mesmo as perguntas ameacem cansar e pareçam, aos olhos do leitor ou telespectador, notícia velha, sem novidade. O poder público não pode sentir que o tema foi esquecido.

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O diário de negócios Brasil Econômico fez isso, mas em dezembro. Mostrou que tragédias ocorridas no verão passado em Angra dos Reis (RJ), São Luiz do Paraitinga (SP) e Jardim Pantanal (SP) ainda estavam com soluções precárias ou incompletas. Apesar de pouco ou nunca acessado pela população em geral, certamente está presente sobre a mesa das autoridades públicas.

O telejornal Hoje em Dia visitou cenários de tragédias recentes. Mostrou, de forma realística, como São Luiz do Paraitinga ainda vive amedrontada, um ano depois da enchente histórica. Os estragos permanecem e algumas poucas medidas de prevenção e reconstrução estão em andamento. Em Alagoas, a reportagem escancarou. com muita competência, o estado de calamidade em que vive a população atingida por fortes enchentes em junho de 2010.

img007 Em uma cidade alagoana, casas começam a ser construídas. Em outra, nada ainda, exceto uma planta, desenhada no papel, que indica como pretende ser erguida a futura nova cidade, uma reconstrução prometida para daqui dois anos, para quem acreditar. Como prova do ceticismo, famílias desabrigadas de uma enchente ocorrida em 1988 ainda moram em um presídio desativado. A qualidade da refeição servida pelo poder público local, a salubridade da água “potável” e o ambiente dos alojamentos disponíveis são vergonhosos.

Seria melhor que as cobranças fossem mensais – e não somente na próxima estação de chuvas, mesmo que seja compreensível que, para a produção jornalística, é preciso haver um “gancho”, jargão que expressa a necessidade de haver uma razão para informar ou relembrar um assunto.

Veja mais:

1) Assista duas reportagens produzidas pelo telejornal Hoje em Dia, da Rede Record,  que visitou São Luiz do Paraitinga e Alagoas.

2) Em outra matéria, o Café Expresso sugere um roteiro para uma boa reportagem sobre enchentes: Estragos causados pelas chuvas – a reportagem que precisa ler publicada em janeiro de 2012.