Há 30 anos, faleceu Nelson Rodrigues: dez trechos da crônica esportiva dele – e porque a unificação de títulos no futebol brasileiro é uma besteira


No próximo dia 21 de dezembro, completa-se 30 anos do falecimento de Nelson Rodrigues. O personagem dispensa qualquer leitura de currículo. Prefiro mencioná-lo como o maior dramaturgo do futebol brasileiro – ou o maior boleiro da dramaturgia brasileira.

Nelson Rodrigues 1 Selecionei, com muita dificuldade, dez trechos de um livro de crônicas esportivas de Nelson Rodrigues. Digo dificuldade e já justifico: – poderiam ser 30, 50, 100. O autor sempre teve a facilidade natural para enxergar a alma do brasileiro e do craque tupiniquim, e raros os textos nos quais não transbordava dramaturgia nos mais simples gestos – inclusive para o arremesso do mais mundano lateral.

Ah, como usava bem os adjetivos. Para Nelson Rodrigues, todos os canalhas eram magros e até para chupar um Chicabon era necessário ter alma. Os trechos abaixo foram retirados do livro “O Berro Impresso das Manchetes – crônicas completas da Manchete Esportiva 55 – 59”. Para aqueles que querem pensar e discutir seriamente sobre a unificação de títulos da Taça Brasil e do torneio Roberto Gomes Pedrosa, vale ler os livros de crônicas de Nelson Rodrigues. Naquelas décadas, de 50, principalmente, o futebol – e a política do mundo futebolístico – circulava na esfera do eixo Rio-São Paulo, Belo Horizonte ou Porto Alegre.

O futebol brasileiro sempre existiu – e foi muito bem representado. O que nunca existiu, de fato, foi algo como um campeonato brasileiro. A razão é a desorganização. O futebol brasileiro nunca foi organizado corretamente, nunca foi tratado com seriedade administrativa e mercadológica. Até hoje não o é – imagine, então, décadas atrás.Nelson Rodrigues 2

Mas, seguem os trechos de Nelson Rodrigues, que são leitura muito, mas muito mais prazerosa.

1) O sujeito que não acredita em milagres é capaz de tudo. (…) É suscetível dos piores sentimentos. (…) Quanto a mim, com satisfação o confesso: – acredito piamente em milagre. Ou por outra: – só acredito em milagre. A meu ver, o fato normal, o fato lógico, o fato indiscutível merece apenas a nossa repulsa e o nosso descrédito. É preciso captar ou, melhor, extrair de cada acontecimento o que há, nele, de maravilhoso, de inverossímil e, numa palavra, de milagre. ((Manchete Esportiva – 03/03/1956)

2) Quando o Brasil levantou o Pan-americano, eu só lamentei uma coisa – que Bilac não estivesse vivo. (…) Outrora, cada acontecimento tinham um Homero à mão, ou um Camões, ou um Dante. Recheado de poesia, entupido de rimas, o fato adquiria uma dimensão nova e emocionante. (…) Os correspondentes brasileiros, que estava no México, deviam mandar, de lá,  telegramas rimados, ungidos de histerismo cívico. Mas, como estamos em crise de Bilacs, o fabuloso triunfo só inspirou mesmo uma pífia correspondência, que nos enche de humilhação e vergonha profissional. Cada cronista da delegação, em vez de babar materialmente de gozo, mandou dizer ao seu jornal o seguinte: – “que os argentinos jogaram mais, que os argentinos mereceram vencer e que os brasileiros estavam apáticos.” Vejam vocês o que dá a mania da justiça e da objetividade! Um cronista apaixonado havia de retocar o fato, transfigurá-lo, dramatizá-lo. Daria à estúpida e chata realidade um sopro de fantasia. Falaria com os arreganhos de um orador canastrão. Em vez disso, os rapazes cingiram-se a uma veracidade parva e abjeta. Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação. (Manchete Esportiva – 31/03/1956)

3) Pois bem: – há o jogo e o Brasil consegue uma dessas vitórias definitivas, antológicas. Sim, amigos: – os 3 X 2 sobre os austríacos, na própria Viena, deviam figurar, merecidamente, numa antologia. Pela primeira vez apresentamos ao Velho Mundo uma imagem fidedigna do futebol brasileiro. E como se não bastasse a vitória em si, houve um elemento que a valorizou e, mesmo, dramatizou: – o juiz ladrão. Sempre digo, nas minhas crônicas, que a arbitragem normal e honesta confere às partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permite, shakespeareana. O espetáculo deixa de se resolver em termos chatamente técnicos, táticos e esportivos. Passa a ter uma grandeza específica e terrível. Eis a verdade: – o juiz ladrão revolve no time prejudicado e respectiva torcida esse fundo de crueldade, de insânia, de ódio que existe adormecido no mais íntegro dos seres. O mínimo que nos ocorre é beber-lhe o sangue. (Manchete Esportiva – 21/04/1956)

4) Nenhum gordo gosta de ser gordo. Sobe na balança e tem um incoercível pudor, uma vergonha convulsiva do próprio peso. E, no entanto, vejam: – pior do que ser gordo é o inverso, quer dizer, pior do que ser gordo é ser magro.(…) é preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores de fúrias tremendas. e, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que eu conheci são, fatalmente, magros.(Manchete Esportiva – 03/05/1958)

Vicente feola 1 5) Um Feola magro teria sido melhor para o escrete? Não creio e explico. (…) Pois uma de suas consideráveis vantagens de homem e, atrevo-me a dizê-lo, de técnico está nesta circunstância (ser gordo), que ele deplora e repudia. Numa terra de neurastênicos, deprimidos e irritados, convém ter o macio, o inefável humor dos gordos. A banha lubrifica as reações, amacia os sentimentos, amortece os ódios, predispõe ao amor. Nós temos, aqui, um preconceito, de todo improcedente, contra a barriga. Erro crasso. Na verdade, há uma relação sutil, mas indiscutível, entre a barriga e o êxito, entre a barriga e a glória. Examinem a figura de napoleão como Imperador. Era ele, na ocasião, algum depauperado? Não, senhor. Pelo contrário: – os quadros mostram a inequívoca e imperial barriga napoleônica. E uma das coisas que me levam a acreditar no Brasil como campeão do mundo é o fato de termos, finalmente, um técnico gordo. (Manchete Esportiva – 03/05/1958)

6) Só um Garrincha poderia fazer isso. Porque Garrincha não acredita em ninguém e só acredita em si mesmo. Se tivesse jogado contra a Inglaterra, ele não teria dado a menor bola para a Rainha Vitória, o Lorde Nelson e a tradição naval do adversário. Absolutamente. Para ele, Pau Grande, que é a terra onde nasceu, vale mais do que toda a comunidade britânica, Com esse estado de alma, plantou-se na ponta para enfrentar os russos. Os outros brasileiros poderiam tremer. Ele não e jamais. Perante a platéia internacional, era quase um menino. Tinha essa humilhante sanidade mental do garoto que caça cambaxirra com espingarda de chumbo e que, em Pau Grande, na sua cordialidade indiscriminada, cumprimenta até cachorro. Antes de começar o jogo, o seu marcador havia de olhá-lo e comentar para si mesmo, em russo: “Esse não dá pra saída (por causa das pernas tortas)!” E, com dois minutos e meio, tínhamos enfiado na Rússia duas bolas na trave e um gol. Aqui em toda a extensão do território nacional, começávamos a desconfiar que é bom, que é gostoso ser brasileiro. (…) Cada vez que Garrincha passava por um, o público vinha abaixo. Mas não creiam que ele fizesse isso por mal. De modo algum. Garrincha estava, ali, com a mesma boa-fé inefável com que, em Pau Grande, vai chumbando as cambaxirras, os pardais. Via nos russos a inocência dos passarinhos. Sim: os adversários eram outros tantos passarinhos, desterrados de Pau Grande.(Manchete Esportiva – 21/06/1958)

7) A glória de um craque vive não dos jogos de rotina, mas dos clássicos eternos. O torcedor não se lembra das peladas, mas tem uma memória implacável para as batalhas decisivas. E o sujeito que apanha a bola num Botafogo X Flamengo parece estar chutando para a eternidade. (Manchete Esportiva – 06/09/1958)

8 ) Eu sei que nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de ilustre, de insigne, de formidável qualquer borra-botas. Isso com as pessoas. Com os fatos, a mesma coisa. Em nossa histeria verbal, enfeitamos os fatos como se eles fossem índios de carnaval. (Manchete Esportiva – 27/09/1958)

9) Eis a verdade: o brasileiro se considera um povo feio. Aqui, quando se fala em espanhola, em italiana, em americana, há, em todos nós, uma salivação imensa, torrencial. Há indivíduos que assistem um livro de Gina Lollobrigida e, na saída do cinema, gostariam de trocar a namorada, a esposa, a amante. (Manchete Esportiva – 27/09/1958)

10) E, com efeito, ao entrar no estádio tricolor, eu vi, diante de mim, um deserto imenso e irremediável. Meia dúzia de gatos pingados, inclusive eu.Ora, isso mostra que as últimas atuações do “timinho” espavoriram a torcida. O pessoal está fugindo dos jogos. (…) Ainda domingo, outro “pó-de-arroz” como eu debruça-se no meu ombro e rosna-me: “Coitadinho!” Referia-se ao nosso quadro. Eu compreendi o diminutivo apiedado. Eis a verdade: há certos estados em que um time deixa de irritar, de enfurecer e passa a suscitar, tão somente, uma profunda compaixão. Mas eu confesso: prefiro a blasfêmia, a praga, o nome feio e, enfim, a cólera, do que esse “coitadinho” quase terno e quase lírico, que ofende mais que uma cusparada. (Manchete Esportiva – 11/10/1958)

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Uma resposta para “Há 30 anos, faleceu Nelson Rodrigues: dez trechos da crônica esportiva dele – e porque a unificação de títulos no futebol brasileiro é uma besteira

  1. Parabéns pelo trabalho. Mais parece uma ‘seleção brasileira de frases geniais’. abraço,

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