Não perca o fôlego: fragmentos dos três maiores minutos do futebol de todos os tempos


Ora com a camisa 7, ora com a 11, ora com a 16, Garrincha infernizou em três copas do mundo, mais nas duas primeiras, menos em 1966. Os vídeos e os relatos escritos abaixo não deixam mentir. Não raras vezes, três ou quatro marcadores tentavam, ao mesmo tempo, tomar a bola do ponta do brasileiro que fez história no Botafogo do RJ.

Os marcadores, depois de ir e vir, prostravam-se diante do craque, colocavam as mãos na região lombar, em descanso, tomando poucos segundos de fôlego para o próximo round. Bailaram, todos, indubitavelmente.

Um dos momentos mais marcantes da crônica esportiva foi o duelo contra a União Soviética, na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Garrincha, com a camisa 11, entortou os russos no terceiro jogo na seleção canarinho naquele ano. Em três minutos, duas bolas na trave e um gol. Foi sintomático.

A partida foi realizada no estádio Nya Ulleni, em Gotemburgo, no dia 15 de junho de 1958. Algumas imagens atuais (abaixo) mostram a arena, que foi palco dos três maiores minutos do futebol para muitos torcedores do mundo inteiro, segundo muitos narradores da época. Em plena Guerra Fria, os russos eram temidos, vistos como uma seleção científica, fria, imbatível.

Nya Ullevi Stadium 2 Nya Ullevi Stadium 5 Nya Ullevi Stadium 4 Nya Ullevi Stadium 3

Nelson Rodrigues (1912 – 1980), inigualável cronista esportivo brasileiro, capaz de dramatizar e engrandecer espetacularmente lances do futebol, descreveu, em 21 de junho de 1958, em Manchete Esportiva, os primeiros três minutos do jogo contra a Rússia:

“E eis que, pela primeira vez, um “seu” Manuel é o meu personagem da semana. Com esse nome cordial e alegre de anedota, ele tomou conta da cidade, do Brasil e, mais do que isso, da Europa. Creiam, amigos: o jogo Brasil X Rússia acabou nos três minutos iniciais. Insisto: nos primeiros três minutos da batalha, já o “seu” Manuel, já o Garrincha, tinha derrotado a colossal Rússia, com a Sibéria e tudo o mais. E notem: bastava um empate. Mas o meu personagem não acredita em empate e se disparou pelo campo adversário, como um tiro. Foi driblando um, driblando outro e consta, inclusive, que, na sua penetração fantástica, driblou até as barbas de Rasputin. Senhores: a desintegração da defesa russa começou, exatamente, na primeira vez que garrincha tocou na bola. Eu imagino o espanto imenso dos russos diante desse garoto de pernas tortas, que vinha subverter todas as concepções do futebol europeu. (…) Foi para o público internacional uma experiência inédita. Realmente, jamais se viu, num jogo de tamanha responsabilidade, um time, ou melhor, um jogador começar a partida com um baile. Repito: baile, sim, baile!”

Outro relato importante, contemporâneo, foi feito pelo escritor Ruy Castro, na biografia sobre Garrincha. É deperder o fôlego:

Monsieur Guingue, gendarme nas horas vagas, ordena o começo da partida. Didi centra rápido para a direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a bola com o peito do pé: 20 segundos. Kuznetzov parte sobre ele. Garrincha faz que vai para a esquerda, não vai, sai pela direita. Kuznetzov cai e fica sendo o primeiro João da Copa do Mundo: 25 segundos. Garrincha dá outro drible em Kuznetzov: 27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro. Todo o estádio levanta-se. Kuznetzov está sentado, espantado: 32 segundos. Garrincha parte para a linha de fundo. Kuznetzov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34 segundos. Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados na grama, Voinov com o assento empinado para o céu. O estádio estoura de riso: 38 segundos. Garrincha chuta violentamente, cruzado sem ângulo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de Iashin e sai pela linha de fundo: 40 segundos. A platéia delira. Garrincha volta para o meio de campo, sempre desengonçado. Agora é aplaudido.

A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kuznetzov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva, com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igo Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate do travessão e sobe: 55 segundos. O ritmo do time é alucinante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse há várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem com o gol, de Vavá, exatamente aos três minutos.”

Segundo Ruy Castro, “foi assim que o repórter Ney Bianchi reproduziu em Manchete Esportiva aquele começo de jogo, como se tivesse um olho na bola e outro no cronômetro”.

Dá ou não dá arrepio?

Para saber mais:

Livro “Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha”, de Ruy Casto. Companhia das Letras, 1996.

Livro “Nelson Rodriges – O Berro Impresso das Manchetes – crônicas completas da Manchete Esportiva 55-59”, Editora Agir, 2007.

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2 Respostas para “Não perca o fôlego: fragmentos dos três maiores minutos do futebol de todos os tempos

  1. apenas uma palavra define tudo isso….” Saudades ” .

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