Arquivo do mês: dezembro 2010

Em países de primeiro mundo, cidadão também sofre

Ao passar os olhos pelos jornais de outros países, sobretudo de nações desenvolvidas, mais ricas, percebe-se que os cidadãos de lá enfrentam também algumas mazelas semelhantes aos de cá, mesmo com a brutal diferença entre os indicadores de desenvolvimento econômico e social que separam ambos.

Semanas atrás, o Café Expresso já tinha mostrado alguns exemplos de problemas enfrentados por países mais pobres, como o Brasil, também vivenciados por cidadãos em nações ricas.

Os problemas, invariavelmente, têm na raiz deficiências na gestão pública, mau comportamento dos cidadãos ou simplesmente falhas das leis e na regulação. Como costuma dizer ironicamente o jornalista Ancelmo Gois, que escreve ironicamente no jornal fluminense O Globo, “deve ser difícil viver em um lugar assim”:

1) Em Washington, capital norte-americana, uma pequena placa de concreto, “do tamanho da cabeça de uma pessoa”, se soltou do teto do túnel da rede local de metrô e caiu sobre os trilhos, no meio da tarde do dia 17 de novembro. Não houve feridos e tudo foi devolvido à normalidade no dia seguinte.

2) O serviço de telefonia celular cresceu explosivamente no Brasil ao ponto de haver mais de 190 milhões de aparelhos ativos (mesmo que uma grande parte dos usuários detenham celulares para apenas receber ligações, ganhando o apelido de “pai de santo”). No entanto, há milhares de microrregiões com sinal ruim sem que os consumidor tenham como se defender ou saber se a culpa é do fabricante do aparelho celular ou da concessionária de serviço de telefonia celular. Nos EUA, muitos usuários passaram a comprar um amplificador que captura o sinal e o redistribui para toda a área da residência. O hábito fez com que uma associação que representa as empresas de telefonia celular reclamasse formalmente ao regulador – o equivalente à brasileira Agência Nacional de  Telecomunicações (Anatel) – para criar regras mais rigorosas para a fabricação de equipamentos celulares com melhor captação de sinal, pois os amplificadores interferem na qualidade da rede de telefonia.

Flawed history3) Novamente nos Estados Unidos, agora no Estado da Virginia. Lá, os livros escolares têm ensinado história e geografia repletas de erros, informou o The Washington Post. Na versão livresca, a cidade de New Orleans (Estado de Luisiana) começou em 1800 como um porto norte-americano movimentado (a região ainda era colônia espanhola). A Confederação incluía 12 estados (em vez de 11). E os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial em 1916 (em vez de 1917).

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Está surgindo o vencedor do Prêmio Esso de 2011?

O jornal O Estado de S.Paulo publicou, dia 19 de dezembro, um excelente caderno com o intrigante título “Guerras Desconhecidas do Brasil”. A foto estampada na capa daquela edição, logo de início, já impressionou bastante. Pensei, antes de ler todo o material: – “Os caras, desta vez, acertaram em cheio em estourar essa matéria na capa”.

Na maioria das vezes, mesmo quando têm em mãos grandes reportagens, personagens interessantes, porém matérias frias (como são chamadas no jargão técnico, por não estarem conectadas aos assuntos econômicos, políticos e sociais mais candentes no momento), os editores acabam escondendo tais assuntos nas páginas internas.

Guerra dos Barbudos 1 Depois de horas ininterruptas, noite adentro, de leitura das 24 páginas do especial jornalístico, a única imagem que me veio à cabeça foi: – “Surgiu o vencedor do grande prêmio Esso do ano que vem”. Vamos às explicações:

– O caderno especial do Estadão aborda um conjunto de conflitos armados ao longo de pouco mais de um século que foram esquecidos ou negligenciados pela memória oficial brasileira. Como diz um dos textos: – “Tropas legais fuzilaram ou causaram a morte de 538 civis tiveram pelo menos 100 baixas ao reprimir 32 revoltas desconhecidas ou esquecidas no brasil, ao longo do século 20. Os episódios mostram a paranoia do Estado brasileiro em usar seu poder de fogo para conter beatos barbudos, rezadeiras, descontentes com a política econômica ou pequenos agricultores em busca de terra.”

– O jornalista Leonencio Nossa e o repórter fotográfico Celso Júnior percorreram 13,5 mil km de estradas nos últimos 17 meses, visitaram 41 cidades em oito estados, nos quais ouviram 335 pessoas.

– Na minha opinião, os 17 meses de estrada resultaram em um dos mais significativos exercícios de reconstrução da História do Brasil a partir de fontes orais e da memória coletiva de pessoas comuns, simples, esquecidas. Foram resgatados personagens que a sociedade jamais imaginou que existissem e que História oficial brasileira se esforçou para serem perdidos no tempo.

– Na era da interatividade da internet, a cobertura foi planejada para trazer áudio, fotografias, documentos e relatos, todos reunidos no portal do Estadão.

Gatilheiro Quintino – O jornalismo vive de informar e anunciar, mas sobretudo de lembrar se promessas foram cumpridas, programas foram realizados, metas foram alcançadas. Isso é fundamental, mas não basta.  O jornalismo cumpre também a função de trazer à tona personagens relevantes. As reportagens, nesse caderno, não caíram na armadilha de mitificar histórias banais. Conseguiram fazer emergir grandes personagens sem o uso de adjetivos desnecessários e deram eles uma dimensão exata ao inseri-los no contexto e no enredo histórico.

– Percebe-se o esmero em cada fotografia – fortes, impressionistas. O projeto gráfico ajudou a dar visibilidade para cada expressão – diria até para a personalidade de cada entrevistado.

– Vou tentar fazer uma rápida entrevista com o autor das reportagens, o repórter Leonencio Nossa, por meio dos depoirmentos do blog, para relatar aspectos fundamentais para o exercício do jornalismo, ainda mais para os iniciantes. Como surgiu a ideia da pauta? Como convencer os editores que vale a pena investir tempo, equipe e recursos na investigação? Como não se envolver emocionalmente com as histórias? Como manter distância necessária dos personagens na hora de escrever as reportagens? Que princípios ou técnicas usar no momento de abordar personagens como esses, às vezes desconfiados, nem sempre dispostos a falar.

O trabalho, enfim, mostra que o jornalismo está longe, mas muito longe de acabar na versão impressa. Não tem como: o caderno especial “Guerras Desconhecidas do Brasil” é a melhor reportagem da semana por resta – e até do ano.

Atualização (26/12/2010): As respostas do repórter Leonencio Nossa, autor das reportagens, está na seção de comentários deste texto.

Matéria fria, mas ótima para a capa do jornal

19dez OESP conflitos O jornal O Estado de S. Paulo acertou em cheio ao dar amplo destaque, na capa, de uma reportagem mostrando conflitos esquecidos ou desconhecidos no Brasil ao longo de mais de um século. A foto é bonita, impactante. A história é curiosa, 19dez OESP conflitos2intrigante. Melhor dizendo, as histórias.

O Café Expresso usualmente defende que matérias frias devem ser destacadas na capa dos jornais, desde que seja suportadas por uma boa pauta, histórias instigantes ou reveladas por fotos extraordinárias.

É uma chance ímpar dos jornais cativarem novos leitores, principalmente aqueles que compram as publicações nas bancas vez ou outra.

Em tempo: vale ler o caderno, da primeira à última página, para entender também um pouco de como o exercício do Jornalismo se confunde um pouco com o exercício da História, por mais que os praticantes desta área não gostem de lembrar daquela outra, mais imediatista.

Veja mais: Se quiser ler mais sobre os motivos que justificam destacar temas frios nas capas dos jornais, pode ler os seguintes textos:

1) Jornais precisam ousar nas estratégias para atrair leitores mais jovens (25/05/2010)

2) Os jornais deveriam aproveitar melhor a vitrine gratuita que são as bancas de jornal (21/06/2010)

3) Os mesmos comes e bebes, mas com receitas bem inovadoras. Que tal fazer essa festa junina? (11/06/2010)

Há 30 anos, faleceu Nelson Rodrigues: dez trechos da crônica esportiva dele – e porque a unificação de títulos no futebol brasileiro é uma besteira

No próximo dia 21 de dezembro, completa-se 30 anos do falecimento de Nelson Rodrigues. O personagem dispensa qualquer leitura de currículo. Prefiro mencioná-lo como o maior dramaturgo do futebol brasileiro – ou o maior boleiro da dramaturgia brasileira.

Nelson Rodrigues 1 Selecionei, com muita dificuldade, dez trechos de um livro de crônicas esportivas de Nelson Rodrigues. Digo dificuldade e já justifico: – poderiam ser 30, 50, 100. O autor sempre teve a facilidade natural para enxergar a alma do brasileiro e do craque tupiniquim, e raros os textos nos quais não transbordava dramaturgia nos mais simples gestos – inclusive para o arremesso do mais mundano lateral.

Ah, como usava bem os adjetivos. Para Nelson Rodrigues, todos os canalhas eram magros e até para chupar um Chicabon era necessário ter alma. Os trechos abaixo foram retirados do livro “O Berro Impresso das Manchetes – crônicas completas da Manchete Esportiva 55 – 59”. Para aqueles que querem pensar e discutir seriamente sobre a unificação de títulos da Taça Brasil e do torneio Roberto Gomes Pedrosa, vale ler os livros de crônicas de Nelson Rodrigues. Naquelas décadas, de 50, principalmente, o futebol – e a política do mundo futebolístico – circulava na esfera do eixo Rio-São Paulo, Belo Horizonte ou Porto Alegre.

O futebol brasileiro sempre existiu – e foi muito bem representado. O que nunca existiu, de fato, foi algo como um campeonato brasileiro. A razão é a desorganização. O futebol brasileiro nunca foi organizado corretamente, nunca foi tratado com seriedade administrativa e mercadológica. Até hoje não o é – imagine, então, décadas atrás.Nelson Rodrigues 2

Mas, seguem os trechos de Nelson Rodrigues, que são leitura muito, mas muito mais prazerosa.

1) O sujeito que não acredita em milagres é capaz de tudo. (…) É suscetível dos piores sentimentos. (…) Quanto a mim, com satisfação o confesso: – acredito piamente em milagre. Ou por outra: – só acredito em milagre. A meu ver, o fato normal, o fato lógico, o fato indiscutível merece apenas a nossa repulsa e o nosso descrédito. É preciso captar ou, melhor, extrair de cada acontecimento o que há, nele, de maravilhoso, de inverossímil e, numa palavra, de milagre. ((Manchete Esportiva – 03/03/1956)

2) Quando o Brasil levantou o Pan-americano, eu só lamentei uma coisa – que Bilac não estivesse vivo. (…) Outrora, cada acontecimento tinham um Homero à mão, ou um Camões, ou um Dante. Recheado de poesia, entupido de rimas, o fato adquiria uma dimensão nova e emocionante. (…) Os correspondentes brasileiros, que estava no México, deviam mandar, de lá,  telegramas rimados, ungidos de histerismo cívico. Mas, como estamos em crise de Bilacs, o fabuloso triunfo só inspirou mesmo uma pífia correspondência, que nos enche de humilhação e vergonha profissional. Cada cronista da delegação, em vez de babar materialmente de gozo, mandou dizer ao seu jornal o seguinte: – “que os argentinos jogaram mais, que os argentinos mereceram vencer e que os brasileiros estavam apáticos.” Vejam vocês o que dá a mania da justiça e da objetividade! Um cronista apaixonado havia de retocar o fato, transfigurá-lo, dramatizá-lo. Daria à estúpida e chata realidade um sopro de fantasia. Falaria com os arreganhos de um orador canastrão. Em vez disso, os rapazes cingiram-se a uma veracidade parva e abjeta. Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação. (Manchete Esportiva – 31/03/1956)

3) Pois bem: – há o jogo e o Brasil consegue uma dessas vitórias definitivas, antológicas. Sim, amigos: – os 3 X 2 sobre os austríacos, na própria Viena, deviam figurar, merecidamente, numa antologia. Pela primeira vez apresentamos ao Velho Mundo uma imagem fidedigna do futebol brasileiro. E como se não bastasse a vitória em si, houve um elemento que a valorizou e, mesmo, dramatizou: – o juiz ladrão. Sempre digo, nas minhas crônicas, que a arbitragem normal e honesta confere às partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permite, shakespeareana. O espetáculo deixa de se resolver em termos chatamente técnicos, táticos e esportivos. Passa a ter uma grandeza específica e terrível. Eis a verdade: – o juiz ladrão revolve no time prejudicado e respectiva torcida esse fundo de crueldade, de insânia, de ódio que existe adormecido no mais íntegro dos seres. O mínimo que nos ocorre é beber-lhe o sangue. (Manchete Esportiva – 21/04/1956)

4) Nenhum gordo gosta de ser gordo. Sobe na balança e tem um incoercível pudor, uma vergonha convulsiva do próprio peso. E, no entanto, vejam: – pior do que ser gordo é o inverso, quer dizer, pior do que ser gordo é ser magro.(…) é preciso ver os magros com a pulga atrás da orelha. São perigosos, suscetíveis de paixões, de rancores de fúrias tremendas. e, até hoje, que eu me lembre, todos os canalhas que eu conheci são, fatalmente, magros.(Manchete Esportiva – 03/05/1958)

Vicente feola 1 5) Um Feola magro teria sido melhor para o escrete? Não creio e explico. (…) Pois uma de suas consideráveis vantagens de homem e, atrevo-me a dizê-lo, de técnico está nesta circunstância (ser gordo), que ele deplora e repudia. Numa terra de neurastênicos, deprimidos e irritados, convém ter o macio, o inefável humor dos gordos. A banha lubrifica as reações, amacia os sentimentos, amortece os ódios, predispõe ao amor. Nós temos, aqui, um preconceito, de todo improcedente, contra a barriga. Erro crasso. Na verdade, há uma relação sutil, mas indiscutível, entre a barriga e o êxito, entre a barriga e a glória. Examinem a figura de napoleão como Imperador. Era ele, na ocasião, algum depauperado? Não, senhor. Pelo contrário: – os quadros mostram a inequívoca e imperial barriga napoleônica. E uma das coisas que me levam a acreditar no Brasil como campeão do mundo é o fato de termos, finalmente, um técnico gordo. (Manchete Esportiva – 03/05/1958)

6) Só um Garrincha poderia fazer isso. Porque Garrincha não acredita em ninguém e só acredita em si mesmo. Se tivesse jogado contra a Inglaterra, ele não teria dado a menor bola para a Rainha Vitória, o Lorde Nelson e a tradição naval do adversário. Absolutamente. Para ele, Pau Grande, que é a terra onde nasceu, vale mais do que toda a comunidade britânica, Com esse estado de alma, plantou-se na ponta para enfrentar os russos. Os outros brasileiros poderiam tremer. Ele não e jamais. Perante a platéia internacional, era quase um menino. Tinha essa humilhante sanidade mental do garoto que caça cambaxirra com espingarda de chumbo e que, em Pau Grande, na sua cordialidade indiscriminada, cumprimenta até cachorro. Antes de começar o jogo, o seu marcador havia de olhá-lo e comentar para si mesmo, em russo: “Esse não dá pra saída (por causa das pernas tortas)!” E, com dois minutos e meio, tínhamos enfiado na Rússia duas bolas na trave e um gol. Aqui em toda a extensão do território nacional, começávamos a desconfiar que é bom, que é gostoso ser brasileiro. (…) Cada vez que Garrincha passava por um, o público vinha abaixo. Mas não creiam que ele fizesse isso por mal. De modo algum. Garrincha estava, ali, com a mesma boa-fé inefável com que, em Pau Grande, vai chumbando as cambaxirras, os pardais. Via nos russos a inocência dos passarinhos. Sim: os adversários eram outros tantos passarinhos, desterrados de Pau Grande.(Manchete Esportiva – 21/06/1958)

7) A glória de um craque vive não dos jogos de rotina, mas dos clássicos eternos. O torcedor não se lembra das peladas, mas tem uma memória implacável para as batalhas decisivas. E o sujeito que apanha a bola num Botafogo X Flamengo parece estar chutando para a eternidade. (Manchete Esportiva – 06/09/1958)

8 ) Eu sei que nós, da imprensa, somos uns criminosos do adjetivo. Com a mais eufórica das irresponsabilidades, chamamos de ilustre, de insigne, de formidável qualquer borra-botas. Isso com as pessoas. Com os fatos, a mesma coisa. Em nossa histeria verbal, enfeitamos os fatos como se eles fossem índios de carnaval. (Manchete Esportiva – 27/09/1958)

9) Eis a verdade: o brasileiro se considera um povo feio. Aqui, quando se fala em espanhola, em italiana, em americana, há, em todos nós, uma salivação imensa, torrencial. Há indivíduos que assistem um livro de Gina Lollobrigida e, na saída do cinema, gostariam de trocar a namorada, a esposa, a amante. (Manchete Esportiva – 27/09/1958)

10) E, com efeito, ao entrar no estádio tricolor, eu vi, diante de mim, um deserto imenso e irremediável. Meia dúzia de gatos pingados, inclusive eu.Ora, isso mostra que as últimas atuações do “timinho” espavoriram a torcida. O pessoal está fugindo dos jogos. (…) Ainda domingo, outro “pó-de-arroz” como eu debruça-se no meu ombro e rosna-me: “Coitadinho!” Referia-se ao nosso quadro. Eu compreendi o diminutivo apiedado. Eis a verdade: há certos estados em que um time deixa de irritar, de enfurecer e passa a suscitar, tão somente, uma profunda compaixão. Mas eu confesso: prefiro a blasfêmia, a praga, o nome feio e, enfim, a cólera, do que esse “coitadinho” quase terno e quase lírico, que ofende mais que uma cusparada. (Manchete Esportiva – 11/10/1958)

Na frenética infovia das redes sociais, fragmentos só viram histórias a partir da ação de jornalistas

As redes sociais – Facebook, Twitter, Orkut – criaram um frenético fluxo de informação que tanto informa como desinforma. Um sujeito pode se considerar um ignorante tanto numa era de ausência de informação quanto em outra de excesso de notícias. Hoje, a sociedade está no limiar dessa segunda era.

No turbilhão de notícias que cruzam as redes sociais, a diferença entre a informação e a ignorância está nos filtros. Por mais que as pessoas escolham com quem se relacionar ou quem seguir, haverá sempre o excesso ou o supérfluo.

Há séculos que os jornais têm servido – bem ou mal – como filtros no crescente fluxo de informações que viaja pelo mundo, antes a navio ou cavalo, hoje via eletrônica.

Storyful Um projeto interessante – o Storyful – foi criado por jornalistas para capturar nas redes sociais fragmentos de uma mesma história que, lado a lado, tenham interesse jornalístico. Exercem filtros, como rádios e jornais.

É difícil prever qual será o futuro do Storyful, se será bem-sucedido (inclusive financeiramente) ou se é mais uma boa idéia na web que não passa de entretenimento.

Mas a simples existência desse projeto derruba alguns mitos: que todos os internautas são potenciais jornalistas na internet, que as redes sociais são a nova fonte de informação das pessoas e que as multidões podem ser poderosas fontes de histórias. Tudo isso é meia verdade, recheado de modismo e frenesi.

Sem os filtros, o que os internautas têm feito pelas redes sociais é tirar as pessoas da ignorância por causa da falta de informação para jogá-las, em seguida, na ignorância causada pelo excesso de informação.

Veja mais: Um exemplo do que faz o Storyful pode ser percebido em uma recente história narrada por passageiros  de um cruzeiro marítimo que enfrentou uma tempestade. O drama deles e algumas reclamações são a base da história que o Storyful conta a partir de fragmentos – comentários, dados, vídeos ou fotos – encontrados no Flickr, Facebook, Twitter e Youtube. Outra matéria do Storyful mostra incríveis relatos e imagens de uma tempestade de neve que ocorreu uma localidade de Ontario, no Canadá, novamente se apoiando em dados, relatos e imagens disponibilizadas nas redes sociais. Vale conferir.

Um desenho, um desenho

Charge publicada no jornal Folha de S.Paulo, dia 16 de dezembro.

char16122010 

A charge, do cartunista Penett, retrata a decisão do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, de publicar em livro e registrar em cartório, as ações realizadas durante os oito anos dos dois mandatos cumpridos entre 2003 e 2010.

Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, no balanço – um total de seis volumes, cujo resumo tem 310 páginas – consta “até mesmo obras que sequer começaram, como a usina de Belo Monte e o trem-bala”.

Não perca o fôlego: fragmentos dos três maiores minutos do futebol de todos os tempos

Ora com a camisa 7, ora com a 11, ora com a 16, Garrincha infernizou em três copas do mundo, mais nas duas primeiras, menos em 1966. Os vídeos e os relatos escritos abaixo não deixam mentir. Não raras vezes, três ou quatro marcadores tentavam, ao mesmo tempo, tomar a bola do ponta do brasileiro que fez história no Botafogo do RJ.

Os marcadores, depois de ir e vir, prostravam-se diante do craque, colocavam as mãos na região lombar, em descanso, tomando poucos segundos de fôlego para o próximo round. Bailaram, todos, indubitavelmente.

Um dos momentos mais marcantes da crônica esportiva foi o duelo contra a União Soviética, na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Garrincha, com a camisa 11, entortou os russos no terceiro jogo na seleção canarinho naquele ano. Em três minutos, duas bolas na trave e um gol. Foi sintomático.

A partida foi realizada no estádio Nya Ulleni, em Gotemburgo, no dia 15 de junho de 1958. Algumas imagens atuais (abaixo) mostram a arena, que foi palco dos três maiores minutos do futebol para muitos torcedores do mundo inteiro, segundo muitos narradores da época. Em plena Guerra Fria, os russos eram temidos, vistos como uma seleção científica, fria, imbatível.

Nya Ullevi Stadium 2 Nya Ullevi Stadium 5 Nya Ullevi Stadium 4 Nya Ullevi Stadium 3

Nelson Rodrigues (1912 – 1980), inigualável cronista esportivo brasileiro, capaz de dramatizar e engrandecer espetacularmente lances do futebol, descreveu, em 21 de junho de 1958, em Manchete Esportiva, os primeiros três minutos do jogo contra a Rússia:

“E eis que, pela primeira vez, um “seu” Manuel é o meu personagem da semana. Com esse nome cordial e alegre de anedota, ele tomou conta da cidade, do Brasil e, mais do que isso, da Europa. Creiam, amigos: o jogo Brasil X Rússia acabou nos três minutos iniciais. Insisto: nos primeiros três minutos da batalha, já o “seu” Manuel, já o Garrincha, tinha derrotado a colossal Rússia, com a Sibéria e tudo o mais. E notem: bastava um empate. Mas o meu personagem não acredita em empate e se disparou pelo campo adversário, como um tiro. Foi driblando um, driblando outro e consta, inclusive, que, na sua penetração fantástica, driblou até as barbas de Rasputin. Senhores: a desintegração da defesa russa começou, exatamente, na primeira vez que garrincha tocou na bola. Eu imagino o espanto imenso dos russos diante desse garoto de pernas tortas, que vinha subverter todas as concepções do futebol europeu. (…) Foi para o público internacional uma experiência inédita. Realmente, jamais se viu, num jogo de tamanha responsabilidade, um time, ou melhor, um jogador começar a partida com um baile. Repito: baile, sim, baile!”

Outro relato importante, contemporâneo, foi feito pelo escritor Ruy Castro, na biografia sobre Garrincha. É deperder o fôlego:

Monsieur Guingue, gendarme nas horas vagas, ordena o começo da partida. Didi centra rápido para a direita: 15 segundos de jogo. Garrincha escora a bola com o peito do pé: 20 segundos. Kuznetzov parte sobre ele. Garrincha faz que vai para a esquerda, não vai, sai pela direita. Kuznetzov cai e fica sendo o primeiro João da Copa do Mundo: 25 segundos. Garrincha dá outro drible em Kuznetzov: 27 segundos. Mais outro: 30 segundos. Outro. Todo o estádio levanta-se. Kuznetzov está sentado, espantado: 32 segundos. Garrincha parte para a linha de fundo. Kuznetzov arremete outra vez, agora ajudado por Voinov e Krijveski: 34 segundos. Garrincha faz assim com a perna. Puxa a bola para cá, para lá e sai de novo pela direita. Os três russos estão esparramados na grama, Voinov com o assento empinado para o céu. O estádio estoura de riso: 38 segundos. Garrincha chuta violentamente, cruzado sem ângulo. A bola explode no poste esquerdo da baliza de Iashin e sai pela linha de fundo: 40 segundos. A platéia delira. Garrincha volta para o meio de campo, sempre desengonçado. Agora é aplaudido.

A torcida fica de pé outra vez. Garrincha avança com a bola. João Kuznetzov cai novamente. Didi pede a bola: 45 segundos. Chuta de curva, com a parte de dentro do pé. A bola faz a volta ao lado de Igo Netto e cai nos pés de Pelé. Pelé dá a Vavá: 48 segundos. Vavá a Didi, a Garrincha, outra vez a Pelé, Pelé chuta, a bola bate do travessão e sobe: 55 segundos. O ritmo do time é alucinante. É a cadência de Garrincha. Iashin tem a camisa empapada de suor, como se já jogasse há várias horas. A avalanche continua. Segundo após segundo, dizima os russos. A histeria domina o estádio. E a explosão vem com o gol, de Vavá, exatamente aos três minutos.”

Segundo Ruy Castro, “foi assim que o repórter Ney Bianchi reproduziu em Manchete Esportiva aquele começo de jogo, como se tivesse um olho na bola e outro no cronômetro”.

Dá ou não dá arrepio?

Para saber mais:

Livro “Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha”, de Ruy Casto. Companhia das Letras, 1996.

Livro “Nelson Rodriges – O Berro Impresso das Manchetes – crônicas completas da Manchete Esportiva 55-59”, Editora Agir, 2007.