Arquivo do mês: novembro 2010

Exemplos de páginas de jornal para ninguém colocar defeito

Selecionei algumas páginas de jornais que são um primor. Misturam muitos ingredientes: planejamento para transmitir notícia visualmente, criatividade no desenho, inteligência na infografia e na organização de dados, além de cultura e dicas para o leitor de uma forma agradável. Se os jornais impressos apostarem nesse tipo de reportagem e de arte, terão longa vida, ainda.

O jornal britânico Evening Post foi ainda mais arrojado por produzir uma arte muito boa na capa do diário, no dia 23 de novembro. Conta a história da prisão de um assaltante que escolhia como vítimas pessoas idosas ou em condição desfavorável. Estampou o rosto de algumas dessas vítimas com frases curtas que indicaram a forma ou o momento em que cada uma foi atacada.

Fiz uma pequena seleção de páginas sensacionais. Claro que há outras, em diversos outros jornais. Mostro aqui as que tive acesso. Nessa seleção, além do Evening Post, você pode ver:

– Correio Braziliense (Distrito Federal): ensina como selecionar carnes de acordo com a necessidade culinária do consumido. Deu até contade de fazer um churrasco.

– O Globo (Rio de Janeiro): analisa o momento atual da crise internacional iniciada em 2008, com quebra bancária nos EUA e Europa, esclarecendo que ela ainda não acabou para diversos países.

– A Tarde (Bahia): depois da 36ª rodada do campeonato brasileiro de futebol de 2010, a matéria coloca no céu e no inferno diversos times, de acordo com objetivos de cada um: briga pelo título e fuga do rebaixamento. Divertida e criativa. Arte de Danilo Bandeira e Tulio Carapiá.

– A Notícia (Santa Catarina): semanas antes da eleição presidencial que deu a vitória para Barak Obama, nos Estados Unidos, o jornal aproveitou para mostrar como funcionam as eleições norte-americanas. Autor: Fábio de Abreu Mello.

– A Notícia (Santa Catarina): campeonato de Fórmula 1 de 2007 foi decidido em São Paulo. Infografia mostrou detalhes da disputa. A imagem mostra a página praticamente acabada, faltando apenas um subtítulo. Autoria novamente de Fábio de Abreu Mello.

– A Notícia (Santa Catarina): uma das mais interessantes que já vi na minha vida. Mostrou final da Champions League de 2009. Um detalhe: a final foi na Itália, não na Rússia, como consta no subtítulo. O próprio autor, Fábio de Abreu Mello, explicou o que houve. Ele salvou na página dele no Flickr uma versão anterior à que foi publicada no jornal. A que chegou aos leitores, chegou correta.

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Leitor mostra exemplo simples da diferença brutal entre custo Brasil e custo Estados Unidos

carta O Globo Opinião, é fato, a gente precisa respeitar. Ainda mais quando quem opina dá um exemplo incontestável ou um daqueles números que fazem qualquer um que ouve concordar e, inclusive, balançar a cabeça lenta e negativamente, não entendendo porque problemas como tais ainda acontecem no Brasil. No jornal O Globo, dia 23 de novembro, aconteceu isso. Então, a gente respeita mesmo!

Mapa mundial da pena de morte mostra declínio de execuções em muitos países, mas vigor em outros

O diário sueco Dagens Nyheter produziu uma infografia interativa bastante interessante e abrangente a respeito da pena de morte no mundo desde 1900. Para tanto, teve de identificar a quantidade de condenados realmente executados nos corredores da morte em diversos países e verificar a legislação em cada nação, de forma a mostrar ao leitor onde este tipo de pena está vigente, onde foi abolido pela lei e onde foi abolido na prática.

Pena de morte A equipe de reportagem sueca constatou que a pena de morte está em declínio no mundo, mas resiste nos Estados Unidos e mantém vigor na Ásia, continente que executou dezenas de milhares de pessoas na última década. E prossegue:

“Punir as pessoas com a morte tem sido uma forma bastante comum desde que a ação humana tem sido documentada. O direito penal, por séculos, foram marcados pela idéia de vingança pelos pecados praticados no passado. Hoje em dia, no entanto, a tendência é de um mundo sem a pena de morte – mas o caminho não é linear.”

Os jornalistas, após organizarem os dados, mostram que quase todos os países que ainda aplicam a pena capital estão nos continentes asiático e africano. “Ao sul do Saara foram executadas dez pessoas em 2009, no Norte de África e do Oriente Médio mais de 600 – e na Ásia mais de mil pessoas, das quais a esmagadora maioria na China”.

No mapa interativo, você pode perceber:

1) Entre as nações desenvolvidas, os Estados Unidos e o Japão são os únicos que mantém a prática constante. Os norte-americanos executaram 52 condenados em 2009, contra sete dos japoneses. Mas 15 dos 50 estados dos EUA já baniram a prática – o último foi o Novo México, em 2009.

2) Nos últimos dez anos, a China executou mais de 15.000 pessoas.

3) O Brasil é considerado um país no qual a pena de morte foi abolida na prática, pois a última execução que se tem notícia teria ocorrido em 1.855. Mas traz uma informação interessante: 1979 é o ano em que a pena de morte foi abolida, exceto para crimes extraordinários.

No caso brasileiro, as informações contidas no trabalho de reportagem sueco seria um ótimo ponto de partida para uma investigação, buscando identificar que lei é essa, o que é considerado um crime extraordinário (já que parece que eles têm sido constantes por aqui desde 1979) e qual foi o último condenado (que o mapa indica ter sido morto em 1855, depois da Independência, antes da República e durante a escravidão). Que tal?

The New York Times: restrições ao fumo dão certo em alguns países, mas não em outros

Em reportagem recente, o jornal norte-americano The New York Times publicou uma boa matéria sobre restrições à propaganda da indústria de cigarros, uma prática que muitos países passaram a adotar na última década como forma de tentar reduzir o número de fumantes e, consequentemente, a incidência de doenças decorrentes de tal hábito. O objetivo final é economizar em gasto com o sistema de saúde pública.

A matéria mostrou, em poucas palavras, que mais e mais países estão criando diferentes tipos de barreiras à propaganda da indústria tabagista. No entanto, o consumo de cigarros aumenta em algumas nações. O foco da indústria, segundo a matéria, está nos mercados emergentes.

Restricting tobacco map

A excelente pauta e a apuração eficiente foram melhoradas com a criação de um infográfico bastante eficaz. A partir do cruzamento de duas informações – a intensidade da restrição à propaganda tabagista e a adesão ao hábito de fumar –, um simples mapa com tonalidades de uma mesma cor bastou para passar o recado.

O mapa mundial das restrições ao tabagismo deixa claro que as barreiras à propaganda têm funcionado em alguns países, mas não em outros. É o caso brasileiro, onde há impedimentos para a publicidade, inclusive na internet, mas o consumo pode ter crescido 40% entre 1998 e 2008, segundo projeções feitas pela indústria em 2002.

Vale uma nota, que prejudica as informações da infografia. O aumento ou a redução no consumo de cigarros em diversos países está baseado em dados de 2002 que projeta para 2008 a expectativa da indústria tabagista com relação às vendas em diversas regiões.

No Brasil, leis recentemente aprovadas foram além da proibição à propaganda, banindo o fumo em locais fechados e instituições públicas, entre outros. Certamente essa nova legislação, ainda mais restritiva do que barreiras à publicidade, alterou os hábitos ou a tolerância das pessoas com relação ao fumo.

O mapa dos maiores derramamentos de óleo do mundo conta história “sem efeito manada”

Por meio do projeto Visualing, achei uma infografia muito interessante sobre os maiores derramamentos de petróleo no mundo ao longo da história. Por ele, percebe-se o feito devastador da divulgação de informações pelas mídias – principalmente televisão e internet – para dimensionar um fato específico dentro da linha do tempo de desastres provocados pela indústria petrolífera.

Pelo tamanho da gritaria, o desastre envolvendo a empresa britânica BP no Glofo do México em 2010 parecia ser o pior derramento de petróleo já ocorrido no mundo. Ledo engano. A infografia deixa claro que dois dos mais televisionados e divulgados desastres – incluindo o famoso envolvendo o petroleiro Exxon Valdez, no Alasca – são pequenas gotas perto dos campeões de estragos.

Worst oil spills O trabalho foi feito por Gavin Potenza, ilustrador free-lance. Ele utilizou dados organizados pela The International Tanker Owners Pollution Federal Limited (ITOPF), instituição situada em Londres, Reino Unido.

Fica a dica: o avanço da tecnologia permite que as informações cheguem cada vez mais longe e cada vez mais rápido. Isso é bom, sem dúvida. Quando a notícia é ruim, gera comoção, revolta, possivelmente superdimensionamento do fato e até um efeito manada, quando todos que tomam conhecimento de uma informação seguem o mesmo comportamento dos primeiros. O que ocorreu no Golfo do México, envolvendo a empresa BP, foi realmente um desastre, só que bem menor do que derramamentos semelhantes e menos escandaloso – até por causa do raquitismo dos meios de comunicação em décadas passadas.

É claro que a infografia parte do pressuposto que os dados apurados pelo instituto que serve como fonte são críveis, considerando toda a dificuldade que sempre houve para dimensionar o tamanho do estrago ocorrido no Golfo do México.

Para saber mais: Vale a pena visitar a página do Visualizing, projeto extremamente interessante. Permite que especialistas divulguem trabalhos na área de infografia e oferece desafios que ajudem a criar formas visuais interessantes a partir de bancos de dados brutos. Pelo que o portal demonstra, a empresa GE patrocina os desafios, com prêmios de até US$ 3 mil.

Pouco texto, muita infografia. Um novo estilo de reportagens, feitas também por jornalistas

Nos últimos dois ou três anos, uma gama interessante de ferramentas surgiram, em ambiente internet, para facilitar a produção de infografias baseadas em dados. Elas têm permitido que jornalistas e interessados no assunto, mesmo que ignorantes em programação e diagramação, possam substituir modorrentas tabelas e cansativos parágrafos por infografias inovadoras.

Entre as diversas ferramentas, considero algumas muito boas, com diferentes graus de dificuldade para usuários comuns. Uma delas é o Many Eyes. Outra é o Tableau Public. Gratuitas, ambas permitem transformar bases de dados e tabelas em formatos diferenciados de gráficos. Matérias interessantes estão sendo construídas, associando pouco texto, gráficos inteligentes e interatividade – o leitor pode passear pelos dados. Veja alguns exemplos:

Mobile network 1) Desempenho de operadores de banda larga sem fio. A publicação PC Megazine comparou, em 18 cidades norte-americanas, a velocidade para baixar arquivos e tempo de resposta para receber o primeiro bite. A qualidade do serviço oscila bastante entre cidades e entre operadoras, mostrando negligência no atendimento ou saturação na infraestrutura.

2) Energia renovável pelo mundo. A matéria mostra o ímpeto de alguns países – emergentes e desenvolvidos – na produção e no investimento em energia renovável em 2009. A China, pelo gigantismo da economia local, é disparada a nação que mais investe, mas praticamente empata com espanhóis quando os investimentos são comparados ao PIB de cada país e com os norte-americanos quando se mede a capacidade de geração acrescentada à rede.

3) Sucesso de companhias de tecnologia. O jornal norte-americano The Wall Street Journal preparou um gráfico que compara o desempenho de cem das maiores empresas de software ao longo de mais de três décadas. Os dados foram organizados de forma que pode-se perceber a performance delas a partir de 15 diferentes segmentos da indústria de tecnologia de informação, a quantidade de anos anos que cada uma levou para atingir US$ 50 milhões de faturamento anual e o valor agregado de vendas em 2008. Com todos esses números, a publicação criou três categorias para classificar as empresas de acordo com a curva de crescimento de cada uma: foguete, quente ou lento. Só vendo para crer. Sensacional.Empresas TI4) Mudanças da fome mundial. A partir de estatísticas de um índice que mensura a fome do mundo, produzido a partir da mescla de dados como proporção de pessoas que vivem com menos do que o adequado, de crianças menores de cinco anos abaixo do peso e de mortalidade infantil. A imprensa já havia preparado gráficos sobre o resultado em 2010, quando divulgados. A novidade, agora, nessa nova infografia, é mostrar a intensidade  da mudança no mapa mundial da fome, comparando o índice de 1990 e 2010. Permite perceber quais países estacionaram, melhoraram e pioraram – e quanto. Nos últimos anos, houve melhoria no combate à fome, que ainda desafia o mundo, principalmente na África.Global hunger index

Pense nisso quando tiver de resolver qualquer problema

Calvin4