Arquivo do mês: outubro 2010

Brasil patina há mais de uma década no desafio de reduzir corrupção

No mais recente atlas da Transparency International, organização que monitora o nível de corrupção no mundo todo, o Brasil, invariavelmente, não ocupa uma boa posição.

A organização consegue, a partir de um conjunto de pesquisas (entre 3 e 13 em cada país, dependendo da quantidade de fontes disponíveis em cada ano), avaliar qual é o nível de corrupção percebida.

O indicador oferece muito espaço para o debate. A partir de pesquisas de opinião e outras qualitativas, tenta medir o nível de percepção que a sociedade local tem sobre a corrupção no país onde vive ou negocia.

Não creio ser possível avançar muito mais que isso. É praticamente impossível determinar quais são os países nos quais há mais corrupção a partir da medição da quantidade de dinheiro desviado ou de propinas pagas.

A posição do Brasil – Entre 178 países, o Brasil se situa no pelotão do meio, no 69° lugar, com outras três nações. Toda a imprensa deu destaque para a lista dos mais e menos corruptos. Há menos corrupção por aqui do que em Vanuatu, que vem logo atrás. da mesma forma, há mais corrupção aqui que em Ruanda, na África.

Tão importante quanto a posição que o Brasil ocupa é saber quais posições ele ocupou no passado. Só assim é possível saber se houve retrocesso ou avanço.

Segundo os parâmetros da pesquisa, quanto mais próximo de 10, menor é a corrupção percebida no dia a dia nos países. Mais próximo de zero, o ‘toma-lá-dá-cá’ corre solto.

Desde 1995, quando as pesquisas começaram a ser feitas pela Transparency International, depois de melhorar significativamente entre 1995 e 1999, o país passou a patinar no combate à corrupção, mostram as estatísticas.

Corrupção no Brasil

Coloquei os dados no Tableau Public, ferramenta gratuita que permite inserir planilhas de dados e visualizá-los em gráficos. Achei que o velho e simples gráfico em formato de colunas mostraria bem a estagnação do Brasil no combate à corrupção.

Brinque com o gráfico – Quem quiser, pode verificar lá como os 178 países evoluíram ou regrediram. A ferramenta permite interação. Os interessados podem copiar a tabela de dados, clicando em ‘download’.

Montar a tabela deu um trabalho enorme. Coletei a tabela principal de todas as edições disponíveis da pesquisa anual da Transparency International, de 1995 até 2010 .

Depois, organizei os dados em uma planilha de forma que pudessem ser comparáveis, linha por linha. Muitos países entraram na pesquisa somente nas edições mais recentes. Para outros, faltam dados em pesquisas intermediárias.

Se alguém que for craque na arte de criar infográficos e visualizações, fique à vontade para refazer e melhorar.

Emissões de carbono: um centro de estatísticas para quem gosta do assunto

Os Estados Unidos são o principal emissor de dióxido de carbono, seguido pela China e pela Rússia. Ao menos, essa era a realidade em 2006, data-limite dessa série de estatísticas do CDIAC, Centro de Análise de Informação sobre Dióxido Carbono, em tradução livre.

O nome é horrível, mas trata-se de uma instituição que oferece estatísticas sobre diversos aspectos que envolvem mudanças climáticas, um dos mais pautados assuntos da mídia brasileira.

Cumulative emissions

A ilustração acima foi feita por Adam Nieman, usando o Many Eyes, ferramenta da IBM para permitir que leigos em infográficos mostrem informações e dados de forma visualmente agradável. O gráfico indica facilmente quais são os países que mais emitem CO². Os círculos menores, roxos, indicam países fora do G20, grupo das 19 maiores economias do mundo, mais a União Européia.

Aos interessados, o instituto traz estatísticas sobre assuntos que podem render boas reportagens: sensibilidade costeira à elevação do nível do mar, economia e consumo de energia, uso da terra e impactos nos ecossistemas e emissões de gases , entre outros.

As ferramentas Many Eyes e Tableau Public são de muita serventia para criar gráficos de formas variadas. São gratuitas e requerem somente um tempo de leitura para entender o funcionamento. Com eles, você também pode criar infografias com a elaborada acima e enriquecer a reportagem ou qualquer trabalho.

Calvim descobre a verdadeira força de bolinhas de papel, rolos de fita crepe e bexigas cheias de água

Calvim dá uma aula, novamente. Mesmo que você tenha princípios, infelizmente, na maioria das vezes, eles não ditarão o que acontece com sua vida. Diz muito em um momento em que a disputa para chegar ao cargo de Presidente da República usa, como instrumentos, bolinhas de papel, os rolos de fita crepe e as bexigas cheias de água. Começo a achar que são eles – e não os princípios  – que estabelerão aquilo que os cidadãos terão de fazer.

Calvim2

Para quem não entendeu o contexto político-eleitoral do momento no Brasil, vale ler o início do editorial publicado no jornal Folha de S.Paulo no dia 22 de outubro:

“Os incidentes ocorridos nesta quarta-feira, durante caminhada do candidato José Serra (PSDB) no Rio de Janeiro, e com a candidata Dilma Rousseff, do PT, ao desfilar ontem em carro aberto em Curitiba, constituem sinais de que a campanha eleitoral ameaça atingir um novo grau de exacerbação.
Não houve maiores consequências, felizmente, nos dois episódios. Serra foi atingido, sem ferir-se, por um objeto na cabeça, ao passo que um balão de água foi jogado sobre o capô do automóvel que transportava Dilma. É todavia preocupante uma situação na qual candidatos se vejam ameaçados em sua integridade física ao circularem pelas ruas e buscarem contato com o eleitor.”

Opinião a gente respeita: dona Sheila dá um recado para os produtores dos debates eleitorais

Opinião Globo 13out 1 Dona Sheila está incomodada com a forma como os debates são organizados. Certamente ela não está sozinha na bronca.

Todo debate é a mesma coisa: um leva-e-traz danado, um “disse me disse”, acusação para cá, acusação para lá.

Problemas? Ninguém diz como resolver. Por isso, opinião dos outros a gente respeita – e às vezes ainda divulga.

Já que a dona Sheila deu idéia, o Café Expresso aproveita para indicar a leitura do texto para lá de didático do consultor de empresas Stephen Kanitz. Na lista dele, problema é que o não falta – e dinheiro nos cofres públicos também não.

Um dos problemas que a dona Sheila certamente gostaria de ouvir soluções e que o consultor Kanitz oferece propostas é a Previdência Social brasileira. Como a população envelhece, haverá cada vez menos jovens para sustentar a pensão dos mais velhos. Sem contar que a maior parte das pensões pagas hoje são destinadas para pessoas que jamais contribuiram para tal – os chamados aposentados rurais, que passaram a ter o direito ao benefício a partir da Constituição de 1988.

Previdência Nada contra, nada contra, os aposentados rurais. Mas a conta não fecha. Para haver mais clareza, tais benefícios deveriam ser pagos com dinheiro do orçamento anual, composto pelos impostos da sociedade. Parece mera regra contábil, mas não é. Se os recursos para a aposentadoria rural tiverem de sair do orçamento anual, sobra menos dinheiro para políticas sociais do tipo bolsa isso, bolsa aquilo. Algum gestor público defenderia essa proposta?

Será que algum candidato sabe realmente o que o brasileiro pensa do governo?

O jornal norte-americano The Washington Post trouxe, dias atrás, uma reportagem com um título bastante sugestivo: “Além do Tea Party: o que os americanos realmente pensam do governo”. Os resultados são interessantes e até contraditórios, na medida que as pessoas querem que o governo limite a participação no dia a dia mas querem que atue mais firmemente em áreas como educação e saúde. Os Estados Unidos estão prestes a realizar eleições para escolher integrantes do Congresso – por isso, tal debate.

O Tea Party é um movimento surgido por lá e visa induzir a discussão sobre temas importantes, entre eles a presença do Estado na economia e na vida dos cidadãos. Em texto recente, o Café Expresso analisou algumas ansiedades dessa parcela da sociedade norte-americana que suporta o movimento. Tem, como seguidores, sobretudo adeptos do Partido Republicano, que faz oposição ao governista Democratas, do presidente Barak Obama.

No Brasil, depois de semanas de campanha eleitoral que resultaram na votação em primeiro turno, no dia 3 de outubro, e já transcorridas praticamente duas semanas da campanha em segundo turno, cuja votação será realizada dia 31 de outubro, fica a pergunta: os candidatos a qualquer cargo público realmente sabem o que o brasileiro pensa e quer do governo?

É claro que o cidadão quer mais saúde e educação, melhor segurança pública e transporte, menor carga de impostos e menos corrupção, mas será que uma ou duas pesquisas, entre as centenas que são realizadas em cada eleição para tentar capturar com antecedência a tendência de voto do eleitor, não poderia perguntar o que ele pensa do governo?

Vale algumas informações. Em 2010, a quantidade de pesquisas realizadas ou em realização já ultrapassou largamente o montante feito nas eleições presidenciais de 2006. No dia 13 de outubro, mais três pesquisas foram registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), totalizando 884 delas em 2010, até então. Quatro anos antes, foram produzidas 589 pesquisas.

Será que poucas delas não poderiam questionar o que o brasileiro pensa do governo, se quer mais ou menos governo, se quer privatização ou estatização, se abomina ou prefere empresas privadas ou públicas operando serviços básicos, se quer liberar ou proibir o aborto, se é realmente importante que o candidato seja religioso ou ateu?

Uma iniciativa bem planejada aproveita o Dia das Crianças para criar e fidelizar audiência

O portal UOL planejou e executou uma iniciativa muito, mas muito interessante, para atrair audiência e fidelizar o relacionamento com os internautas. No Dia das Crianças, abriu espaço para pais e mães mandarem fotos de seus filhos explicando porque é gostoso ser criança.

Vc manda O resultado – álbuns de fotos  na seção voltada para crianças  – ficou disponível durante o feriado, a partir de uma exibição na capa do portal. A iniciativa foi interessante por duas razões:

1) Preenche o desejo de pais e mães de verem fotos de seus filhos e familiares, em datas importantes ou momentos felizes, publicadas na imprensa. Tanto que, nos jornais impressos menores, principalmente de bairros de grandes cidades ou de municípios do interior dos estados, é bastante comum haver uma seção para publicar fotos de recém-casados ou aniversariantes.

Vc manda3 2) Na internet, cada clique importa para a composição da audiência. Ao acessar fotografias dos filhos, os adultos estarão contribuindo um pouco para a elevação da audiência. Mas não é isso o fato mais importante. Ao publicar as imagens na seção voltada para crianças, na qual há atividades lúdicas e brincadeiras que vão de histórias infantis e jogos pelo computador até piadas e dicas de passeios par aa criançada, o portal aproveita a data para lembrar aos pais que há uma seção no portal voltada os pequenos – e cria uma chance real de fidelizá-los e, consequentemente, turbinar a audiência de forma significativa. Conteúdo voltado para auxilizar as crianças na realização das tarefas de casa ou sugestões de livros infantis é nitroglicerina para chamar a atenção de pais zelosos.

O UOL não deixou ativo o recurso para as famílias continuarem enviando fotos durante todo o Dia das Crianças – e também não divulgou tão bem a possibilidade dos pais o fazerem nos dias anteriores. Se, em um primeiro instante, parece um pecado, torna-se bastante compreensível, e até acertado, se for considerada a possibilidade do portal receber uma enxurrada de dezenas de milhares de fotos. Esse volume poderia, inclusive, inviabilizar o projeto e causar um efeito contrário ao planejado. Imagine, depois de mandar uma foto, a família não ver a imagem de seu filho selecionada e publicada devido ao acúmulo de contribuições?

A comparação pode ser o fiel da balança para fazer boas reportagens ficarem ótimas

Uma das principais regras para fazer um bom jornalismo e facilitar a compreensão do leitor ou da audiência é a comparação. Veja um caso simples, hipotético, e pense qual foi a melhor solução. 1) Governador inaugura novo piscinão capaz de reter 18 milhões de litros de água. 2) Governador inaugura novo piscinão capaz de reter “dois maracanãs” de água. Para dar noção de quantidade ao leitor, remetê-lo à lembrança do tamanho do famoso estádio municipal do Rio de Janeiro é a melhor alternativa.

A partir da comparação, é possível comprovar se algo melhorou ou piorou, aumentou ou diminuiu, é mais ou é menos. Dados padronizados ou fotografias passam a ser essenciais. No jornalismo, há algumas maneiras rotineiras de comparar. Uma é verificar a situação de algum aspecto da economia ou da sociedade brasileira com outros países. Outra é avaliar a evolução de determinado indicador ao longo do tempo. Ou os dois juntos, quando possível.

No Valor Econômico, dia 7 de outubro, uma reportagem mostrou dúvidas a respeito da construção do trem de alta velocidade no Brasil. Entre elas, o custo da obra e as expectativas de demanda por parte dos passageiros. A fonte foi o Senado Federal, que pesquisou projetos similares construídos em outros países. A partir daí, ao jornal bastou elaborar uma infografia organizando espacialmente as informações sobre custo por km construído em cada nação.

Valor trem-bala 2

Muitas vezes, as fotografias são melhores do que mil palavras ou indicadores, principalmente quando mostram o antes e o depois. Imagine uma praça degradada. É mais fácil perceber a transformação no local a partir de duas imagens lado a lado evidenciando a degradação e a recuperação da área.

Em outros casos, a comparação pode ser muito bem feita a partir de um banco de dados com estatísticas que demonstram facilmente a evolução de qualquer aspecto da economia ou da sociedade. É o caso abaixo.

Segundo turno 2

O Valor Econômico é novamente exemplo. A partir de estatísticas abundantes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), constatou que somente 14% dos eleitores brasileiros terão de votar para governador em segundo turno em 2010, o menor índice desde 1990, quando 62% dos eleitores tiveram de votar novamente para fazer prevalecer a regra eleitoral que determina que o candidato deve ter 50% dos votos mais um. Em 1994, o índice foi 78%. Em 1990, 16 estados realizaram segundo turno, contra 18 em 1994 e 9 em 2010. A partir da eficiente infografia, a reportagem explica o fenômeno com pouco texto: as coligações reduziram a quantidade de candidatos fortes em disputa, entre outras razões.

A similaridade entre as duas reportagens está no fato da preocupação dos jornalistas em apresentar a informação visualmente, com dados distribuídos espacialmente em mapas. A diferença está na obtenção da principal informação que sustenta cada matéria. No caso do trem de alta velocidade, as estatísticas já tinha sido coletadas e organizadas pela fonte – bastou mostrá-las em um belo infográfico. No caso das disputas eleitorais nos estados em segundo turno, os jornalistas tiveram de garimpar os dados, organizá-los e entregar a informação ao leitor de forma agradável. Em ambas as situações, foram bem-sucedidos.

Para saber mais:

Assinantes do jornal Valor Econômico podem acessar aqui a íntegra das reportagens sobre o trem de alta-velocidade e a quantidade de eleitores envolvidos no segundo turno das eleições 2010.