Arquivo do mês: setembro 2010

Está aberta a temporada de promessas para 2011

PromessaKassabNos três ou quatro últimos meses do ano vigente, os governos – federal, estaduais e municipais – precisam enviar aos parlamentares, sejam eles deputados ou vereadores, as propostas orçamentárias para os gastos e investimentos planejados para o ano seguinte.

Um conjunto enorme de metas e promessas costumam constar nas propostas orçamentárias.

É um momento até mais importante do que as eleições, já que a lei que autoriza o gasto do orçamento é um documento oficial, um compromisso muito mais firme e real do que cadernos com propostas de campanha eleitoral.

É uma oportunidade ímpar para que todos os jornais, independentemente do tamanho e da abrangência da circulação, mirem a atenção para esse assunto, como fez O Estado de S. Paulo dia 29 de setembro. Mostrou metas e promessas na proposta orçamentária que o prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab, pretende enviar para a Câmara dos Vereadores da capital paulista.

Jornais de todas as cidades e todos os estados deveriam repetir a mesma pauta enquanto os leitores poderiam recortar e guardar a página para cobrar dos governantes o cumprimento daquilo que foi escrito.

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Quando rir realmente é cultura

2010 37 José Antônio Costa - TeresinaPI

Nas eleições para cargos legislativos este ano, há um ex-palhaço concorrendo ao cargo de deputado federal, com chance de ser um dos mais bem votados do país por dizer que não sabe o que faz um parlamentar e que o eleitor pode escolhê-lo porque a situação já está tão ruim que não ficará pior com ele.

Muitos que o escolhem imaginam que fazem uma espécie de voto de protesto por meio do humor. Ledo engano. O humor é uma das formas mais antigas de protesto, mas não no caso do ex-palhaço candidato a deputado federal.

Nesse momento, vale a pena relembrar alguns bons desenhos, charges e cartuns da história do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, cidade no interior paulista localizada a 150 quilômetros de São Paulo, realizado anualmente desde 1974. Vale uma boa reportagem para emissoras de televisão, jornais, revistas e portais da internet.

O evento consegue reunir, anualmente, uma nata de desenhos que, muito mais do que rir, fazem refletir e tomar consciência de fatos importantes da história e do cotidiano de diversos países, retratados por artistas locais.

Ao longo dos 37 anos de realização do Salão, artistas de todo o mundo rabiscaram e desenharam análises e críticas para temas variados, como ditaduras militares, desigualdade social, relações econômicas e trabalhistas, terrorismo, miséria, fome e muitos outros. O riso, por esses artistas, consegue ser uma manifestação cultural das mais importantes.

A 37ª edição, este ano, começou em 28 de agosto e segue até 17 de outubro. Nas primeiras três semanas, foi visitada por mais de 30 mil pessoas. O Café Expresso conferiu, gostou, aprovou e sugere a todos. Um dos vencedores deste ano criou a charge que inaugura este artigo. José Antônio Costa (Piauí), com muita criatividade, abordou uma das razões da proliferação da pedofilia no meio religioso.

Alguns jornais conseguem fugir das regras convencionais para preencher bem as capas

A edição de domingo, dia 26 de setembro, do The New York Times, não deixou passar a oportunidade de trazer para a capa do jornal uma bela foto e uma notícia interessante, mesmo que não esteja entre as mais importantes para o público norte-americano.

O jornal escancarou bela foto, mostrando detalhes arquitetônicos de uma construção em uma nova cidade que está sendo erguida próxima de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. A extravagância está na promessa dos planejadores, que prometem a primeira cidade do mundo com emissão nula de carbono. A arquitetura e a engenharia misturam aspectos modernos, ambientalmente corretos e também milenares – a nova cidade será murada, como os antigos núcleos habitacionais séculos ou milênios atrás.

NY Times zero carbon

A opção não elimina a necessidade  de informar, já na capa, assuntos importantes no dia a dia dos leitores e cidadãos – principalmente pautados pela economia e pela política, segundo ponto de vista majoritário dos editores. As disputadas entre partidos políticos e entre instituições públicas ocupam a manchete principal.

Em artigos anteriores, o Café Expresso trouxe exemplos e argumentos diferentes para sustentar a mesma tese. Os jornais deveriam usar fotos atrativas, assuntos inusitados, para trazer para a leitura de jornais públicos que muitas vezes preferem outras mídias, como internet, rádio ou televisão. Os jovens, principalmente. Esses ingredientes, muitas vezes, estão presentes em matérias frias, aquelas que não têm muita força para interferir nos principais fatos da agenda econômica, política  e social e que podem ser publicadas em qualquer dia, sem prejuízo ao tema. Mas podem atrair o leitor que procura dicas, estilo de vida ou assuntos menos cansativos e sérios. A capa de jornal é uma vitrine que não pode ser desprezada.

Correio capaNo Brasil, no mesmo dia em que o diário nova-iorquino trouxe com uma bela foto na capa a história da primeira cidade mundial com emissão zero de carbono, o Correio Braziliense deu visibilidade, ao mesmo estilo, à história da cearense Maria Nasaré Nunes, que trocou a depressão pelo hábito de caminhar diariamente e acabou se transformando em maratonista premiada inúmeras vezes.

A idéia do jornal é premiar o exemplo de superação e, com isso, tentar fisgar pessoas que se identifiquem com tais princípios ou que conheçam amigos na mesma situação do personagem relatado. Bola dentro.

Veja mais:

1) Infográfico do The New York Times explica aspectos da arquitetura e da engenharia adaptados à conservação do meio ambiente na nova cidade que surge perto de Abu Dhabi.

2) Além da foto da capa do jornal, portal do The New York Times também traz outras fotos-legendas (outra neurose do Café Expresso) explicando preocupação e função de detalhes paisagísticos e urbanísticos da primeira cidade com emissão zero de carbono.

Movimento político de norte-americanos não quer “mais Estado”

Nos Estados Unidos, desde que a crise financeira iniciada em 2008 fez desaparecer uma parte considerável dos empregos, nos bônus salariais, da renda e da riqueza das famílias norte-americanas, o governo federal e o Congresso passaram a aprovar um conjunto de novas leis para cortar gastos, evitar a falência generalizada dos bancos, diminuir os prejuízos das pessoas com com as perdas de imóveis e oferecer, na medida do possível, algum socorro para pessoas necessitadas.

Vale lembrar que a economia norte-americana é bastante dependende do consumo e o crédito ao consumidor e às empresas cresceu perigosamente, com fartura, aceleramente e com análise de risco frágil. Muitas famílias deram o imóvel como garantia para conseguir créditos – e fizeram isso repetidamente, usando o mesmo imóvel para conseguir mais de um ou dois empréstimos, em muitos casos.

O sistema financeiro, ávido por realizar muitas operações de empréstimo e embolsar o lucro das operações, com noção desvirtuada do risco inerente, abriu os cofres e ofereceu crédito para empresas e famílias com poucas e fracas garantias. O fim da história todo mundo já sabe: uma crise de proporção global, com epicentro nos países ricos, iniciada nas quebras de bancos importantes.

Desde então, quando o presidente democrata Barak Obama passou a publicar diversas leis para aumentar receitas via novos impostos e ampliar o sistema de saúde para pessoas sem condições de pagar um plano privado, parcelas consideráveis do público norte-americano passaram a criticar tais medidas e tal ingerência do Estado. Entre os críticos, principalmente simpatizantes republicanos, partido do ex-presidente George Bush, derrotado na última eleição presidencial.

Esse público do Partido Repúblicano, mais conservador, está no centro do movimento chamado Tea Party, pelo qual as pessoas protestam contra o aumento dos impostos. No entanto, no cerne, está a maior ingerência do Estado na vida no cidadão, onde a cobrança de impostos é um ponto central.

O nome do movimento relembra uma página da história dos EUA: o movimento Tea Party, ocorrido na cidade de Boston, em 1773, pelo qual os colonos americanos, mas principalmente os comerciantes, protestaram contra a decisão dos colonizadores ingleses de determinarem o monópolio para a Coroa inglesa na venda de chá em todos os países colonizados. Naquela época, foi entendido como uma ingerência descabida do Estado sobre a vida das pessoas.

Dias atrás, a The Economist publicou um gráfico que resume uma pesquisa que diagnosticou quem são os partidários do Tea Party. A constatação é que, entre os adeptos, a maioria é feita por pessoas mais velhas, mais ricos e brancos.

Para boa parte dos políticos e das famílias norte-americanas, o Estado deve ser um regulador e um indutor do crescimento e do bem-estar, cuja ingerência deve ser sempre pontual, sem desequilibrar princípios enraizados na sociedade. Um deles é que a igualdade social e econômica deve ser fruto principalmente do esforço das pessoas, não da ação escarancada dos governos.

Sabe-se que o governo Barak Obama teve de injetar bilhões de dólares para evitar quebradeira de grandes conglomerados empresariais nos Estados Unidos, incluindo fábricas e bancos, que poderiam colocar em risco a própria sobrevivência da economia no longo prazo. O dinheiro do contribuinte salvou não somente milhares de empregos, mas também empresas e gestores que embolsavam milhões de dólares anuais em bônus por desempenho. Boa parte da crise foi gerada pela ganância em produzir desempenhos fabulosos a cada ano, com pouca atenção aos riscos das operações.

O tamanho da participação do Estado na vida das famílias e das empresas sempre será uma questão vital para a vitalidade de uma economia e de um país. Às vezes, é preciso de um pouco mais de Estado, às vezes, um pouco menos. Acertar a dose do remédio ou da vitamina é crucial para fortalecer a saúde do doente, em vez de envenená-lo e matá-lo.

A quantidade de pessoas pobres cresceu nos Estados Unidos, mas eles são bem mais ricos que os pobres brasileiros

As condições econômicas e de bem-estar das famílias nos Estados Unidos pioraram desde que estourou a crise no sistema financeiro lá, em 2008. A pobreza aumentou, o nível de emprego não se recupera após o baque e os benefícios sociais crescentes pesam cada vez para o orçamento do poder público norte-americano, que não sabe onde cortar após tantos cortes já feitos desde a eclosão da crise.

Dias atrás, o U.S. Census Bureau, o IBGE norte-americano, divulgou que a taxa de pessoas vivendo em condições de pobreza aumentou novamente. Em 2009, 14,3% da população – o equivalente a 43,6 milhões de pessoas, uma em cada sete – viveram no ano passado em condições de pobreza. Em 2008, 39,8 milhões de pessoas estavam nessa faixa de renda.

Dentro dessa estatística estão famílias de quatro pessoas cuja renda familiar seja igual ou inferior a US$ 22.000 por ano. Essa renda inclui salário e qualquer benefício recebido do governo.

O valor equivale a uma renda média domiciliar mensal de R$ 3.100 para o grupo – ou R$ 780 por pessoa por mês. Nada mal comparado ao Brasil, mas pouco para indivíduos acostumados, em geral, a consumir em níveis elevados serviços e produtos de educação a saúde, de lazer a bens duráveis.

Apenas para comparação, no Brasil, 49% das pessoas vivem em famílias cuja renda média mensal é igual ou inferior a três salários mínimos. Isso equivale a uma renda anual de R$ 18.360 por família – ou R$ 493 por pessoa por mês nesta faixa (cuja renda total das pessoas que moram no domicílio é de até 3 salários mínimos). Na média, nessa categoria, há 3 pessoas por casa.

Com menos dinheiro, as famílias deixam de contratar seguros de saúde, cursos educacionais e todo tipo bens e serviços, dependendo cada vez mais dos governos e retirando oxigênio da economia.

Cálculos na lousa:

* 58,6 milhões de residências no Brasil. Desse total, 30,4 milhões são moradias nas quais a renda de todos os integrantes não supera 3 salários mínimos por mês. Essa quantidade equivale a 51,8% do total de residências no país.

* 191,0 milhões de brasileiros. Desse total, 93,6 milhões moram em residências cuja renda de todos os integrantes não supera 3 salários mínimos por mês. Essa quantidade equivale a 49,0% do total de pessoas no país.

* Salário mínimo no Brasil = R$ 510. Renda familiar mensal de até três  salários = R$ 1.530. Renda anual por família = 18.360.

* Quantidade média de pessoas por família nesta faixa de renda = 3,1. Renda anual por pessoa por mês = R$ 493.

Para saber mais: Passeie pela página do IBGE que traz indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2009) e pela página na Wikipédia sobre a história e evolução do salário mínimo no Brasil.

Leitor faz lembrar ditado importante

leitor2

Opinião a gente respeita, concorde ou não com ela. Foi rápida e rasteira a mensagem incutida na carta que o leitor envio para o jornal fluminense O Globo, publicada dia 16 de agosto. Parafraseando o que costumam dizer pelas ruas, quem com ferro fere, com ferro poderá ser ferido. Dispensa comentários.

Melhores reportagens da semana: se não há dados disponíveis, construa-os

Dias atrás, o Café Expresso listou três reportagens que revelaram situações ou informações encobertas a partir de levantamentos realizados pelos próprios jornalistas. Em vez de procurar estudos sobre temas interessantes, eles passaram a imaginar temas interessantes e realizar os estudos para responderem as perguntas e cumprir as pautas.

Naquela ocasião, três reportagens mereceram destaque. Uma delas identificou, em todos os estados brasileiros, quais tinham itens e estrutura mínima para realizar perícias necessárias para o esclarecimento de crimes. Outra comparou recursos públicos investidos em obras para a mobilidade de pessoas e de carros a partir da seleção das obras empreendidas pelo poder público em determinado período. Na terceira, os jornalistas mostraram qual era a “hora da morte”, o horário com maior incidência de homicídios na capital paulista, refinando informações de um banco de dados sobre criminalidade.

vôos atrasadosUma delas, publicada pelo O Estado de S. Paulo, mostrou que mais da metade dos vôos que mais atrasam partem dos aeroportos no entorno da capital paulista. Os jornalistas estabeleceram um método e foram em frente depois que as autoridades públicas responsáveis pela informação alegarem que ela não existia, como relataram na reportagem:

“O levantamento foi feito com base nos relatórios de atrasos das companhias aéreas e nos índices dos principais aeroportos brasileiros. Além disso, o Estado compilou mais de 90 mil dados oficiais de exatos 4.022 vôos que atrasaram no País nos meses de abril e maio. (…) a reportagem pediu essas mesmas informações à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e à Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), que afirmaram não ter os números. Com esses dados, foi possível descobrir quais são os aeroportos que mais atrasam, as companhias que menos respeitam os horários e os piores trechos.”

carros per capitaUm segundo caso – novamente publicado pelo Estadão – é exemplar para mostrar como jornalistas estão construindo – no bom sentido – números que permitam circunscrever e dimensionar os fatos que suportam as reportagens.

Os jornalistas descobriram que seis das dez cidades com mais carros por habitante ficam no eixo entre a capital paulista e Campinas, que distam cerca de cem quilômetros uma da outra. Ouviram especialistas para entender que a opção pelo automóvel é resultado de três fatores: status, má qualidade do transporte público e flexibilidade de tempo. E explicaram aos leitores o passo a passo que os permitiu chegar às conclusões da matéria:

“O ranking foi feito do cruzamento dos dados da frota do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) com a população medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).”

Avaliação professor Outro exemplo, desta vez do jornal Folha de S. Paulo, informou que o sistema de avaliação de professores, com remuneração adicional para os mais bem qualificados, começa a ganhar adeptos nos estados, mesmo que a polêmica e a contrariedade dos sindicatos ainda persistam.

A matéria não tinha bancos de dados por trás, pelo qual seria possível revelar algo encoberto após cruzar ou refinar informações. A metodologia foi a boa e velha apuração jornalística. Após imaginar a pauta, a jornalista telefonou para as secretarias estaduais de educação para mapear o assunto – os resistentes e os adeptos do sistema de avaliação de professores.

Tabelas simples e infográficos modernos e ousados completaram com chave de ouro as matérias. Escritas pelos jornalistas, são “apenas” reportagens. Se produzidos por alguns institutos ou universidades, seriam chamados de estudos.