O leitor precisa lembrar, mas esquece. Os governos querem esquecer, mas lembram


As melhores reportagens da semana têm um mesmo gene: escancaram problemas e informações encobertas ou esquecidas pelas autoridades públicas ao investigarem o desempenho dos governos na execução de programas e políticas públicas prometidas com alarde. O falecido Aldred Harmswoth, fundador dos jornais britânicos Daily Mail e Daily Mirror, teria dito que “notícia é aquilo que alguém em algum lugar quer esconder – o resto é publicidade”.

Esse olhar rigoroso e vigilante da imprensa é importante para que as políticas públicas atinjam os resultados esperados e prometidos. Sabe-se que, dentro da administração pública, muitas idéias ficam no papel não somente por ineficiência dos gestores, mas também por causa de um embaralhado de leis e regras burocráticas que precisam ser cumpridas, que visam o bom emprego do dinheiro do contribuinte. Quando os governos esquecem das promessas ou querem esquecer delas, cabe à imprensa lembrar a todos.

14ago Estadão ciclovia No último fim de semana, dias 14 e 15 de agosto, boas reportagens cumpriram essa função. O jornal O Estado de S. Paulo mostrou, dia 14 de agosto, que as obras para a construção da maior ciclovia na cidade de São Paulo ainda estão no papel. A prefeitura da capital paulista poderia ganhar alguns pontos com a população se fosse a público informar o atraso e os motivos. Ao adotar uma postura de silêncio, teve de se defender ao ser cobrada pela imprensa.

O Globo, também dia 14, divulgou o desempenho do programa Minha Casa, Minha Vida, que promete viabilizar a contrução de 1 milhão de unidades habitacionais até o fim de 2010, dos quais 400 mil para famílias pobres, com renda até três salários mínimos. Dentro desse grupo, apenas 3,5 mil casas foram entregues. A Caixa Econômica Federal (CEF), que financia as obras, explicou que 93% das casas previstas para os mais pobres já foram contratadas, jargão que significa haver um contrato entre construtora e banco para a contrução. Se o número for correto, e não há razão para duvidar, acredito que, até o fim do ano, o resultado deve ser bem melhor.

13ago FSP habitaçãoA matéria é similar à feita pela Folha de S. Paulo, que noticiou, no dia anterior, que da meta de 400 mil casas para os mais pobres, 240,5 mil já tinham contratos de contrução assinados, e só 545 casas tinham sido entregues. Mas a CEF teria omitido dados negativos e desfavoráveis sobre o programa, alegando que eles não existiam – mas existiam, como mostrou o diário.

Mas não somente os governantes derrapam no cumprimento das regras e promessas. As pessoas comuns, os cidadãos, também. No dia 14 de agosto, o jornal O Globo mostrou que moradores do Complexo do Manguinhos  estão transformando imóveis recém-recebidos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em lojas, bares e até açougue, o que é proibido por lei. Os moradores sabem da proibição, pois, para receberem as chaves, foram obrigados a frequentar um rápido curso de 15 horas sobre as regras de utilização. Quem descumpriu a lei o fez sob a confiança da ausência de punição que marca a história da relação entre Estado e cidadão no Brasil.

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