No jornalismo, relembrar é obrigação, mas sem superficialidade


Relembrar é viver, prega a velha máxima. No jornalismo, é uma obrigação. Dificilmente os fatos encerram-se no momento em que aconteceu – carregam consequências e exigem novas ações e atitudes no futuro. Quando envolve somente agentes privados, pessoas e empresas, vale ao jornalista relembrar a notícia para verificar se a sociedade aprendeu com erros cometidos ou se repetiu acertos. Quando há o poder público envolvido, a tarefa é verificar se as medidas corretivas e preventivas foram adotadas, já que que o governo é nada mais que o zelador dos bens e recursos de todos.

Bem fez, então, a Folha de S.Paulo ao relembrar o que tem feito pessoas comuns e administração pública municipal para remediar e evitar as inundações e as perdas materiais no Jardim Pantanal, Zona Leste da cidade de São Paulo, derivadas dos problemas ocorridos durante meses de chuvas fortes e atípicas que causaram enchentes e muito transtorno na capital paulista.

A reportagem recupera a frustração da famílias que perderam mobiliário e expectativa de receberem dinheiro do poder público, na medida em que se vêem como vítimas da inação do poder público. Do outro lado, a prefeitura caminha para retirar do local moradores que invadiram áreas, se é que será possível detectar tal comportamento, e investe na construção de um dique e de um piscinão.

3jul Jd Pantanal O ponto forte dessa matéria do jornal é tentar contar o fim da história de fatos amplamente abordados poucos meses atrás – considerando que as chuvas fortes na capital paulista ocorreram entre os últimos meses de 2009 e os primeiros de 2010.

Peca, no entanto, por tratar o tema de forma superficial, dramatizando de forma pasteurizada o cotidiano das famílias e relegando ao papel de coadjuvante as ações do poder público para todo um bairro. Diante da dimensão do acontecimento, importa mais a foto panorâmica que permita visualizar a permanência da devastação do que a imagem fechada de um casal na soleira da porta. Importa mais trazer dados que dimensionem a quantidade d famílias prejudicadas e os gastos do poder público do que a descrição dos móveis dentro de uma casa ou das atividades informais que um comerciante pratica para auferir renda.

O erro jornalístico no caso é superdimensionar o drama de forma artificial e tentar criar empurrar o leitor para uma percepção sem dar a ele a chance de comparar e tirar as próprias conclusões. Sem dúvida que cabe e é imprescindível a narração das dificuldades das famílias que ainda moram no local, mas não deve ser o começo, meio e fim da matéria.

Há perguntas demais sem respostas para permanecer somente na superfície do drama. Como viviam essas pessoas antes das enchentes? Será que a população local já não vivia de atividades informais antes? Será que a família que perdeu móveis é diferente dos milhares de pessoas que vivem a mesma situação depois de enchentes? Qual era a infraestrutura o bairro antes e depois das fortes chuvas? A remoção das famílias para locais sem risco é algo juridicamente, financeiramente e fisicamente possível? Ou apenas engambelação?

No fundo, talvez tenha faltado método e discussão para ajudar a equipe de reportagem a ir para as ruas com uma lista mínima de dados essenciais para serem colhidos e tornar bem-sucedida a boa pauta jornalística. Há muita pergunta sem resposta para dar superexposição para o velho e mascado retrato da família pobre em situação de sofrimento.

Para saber mais: De volta ao Pantanal, reportagem (só para assinantes do jornal Folha de S. Paulo ) que busca relatar como está o bairro Jardim Pantanal, um dos mais prejudicados com as mais recentes enchentes de Sâo Paulo.

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