Arquivo do mês: julho 2010

A revista Época nos passos da Super?

Como transformar assuntos áridos, mas importantes, em algo mais interessante e inteligível para as pessoas? A revista Superinteressante é costumeiramente craque nesse campo, com uso de planejamento, design, infografias e linguagem descontraída.

Faz algum tempo, a revista Época tem utilizado recursos similares, explorando infografias ao estilo “Super” com a interatividade que o portal da publicação permite. Claro que cada revista tem público próprio e objetivos distintos, mas é agradável ver na primeira o que consagrou a segunda.

Santos no BrasilEm uma ocasião, fez um infográfico pra lá de completo, oferecendo informações sobre a quantidade de candidatos a santos brasileiros – e a relação entre a santificação e as estratégias de expansão da Igreja Católica pelo Mundo. Sensacional.

O infográfico interativo sobre as conexões partidárias eleitorais é exemplo disso. Conexões partidárias o quê? É, o assunto flui facilmente para poucos. Por isso, é importante a iniciativa da Época, de facilitar o entendimento.

coligações Independentemente da profundidade e abrangência do conhecimento do leitor sobre o assunto, a visualização gráfica permite a ele entender que não há ideologia de esquerda, direita ou centro quando um partido quer ampliar as parcerias com outros para chegar ao leitor. Todos se associam com todos, em diferentes estados. A afinidade é a conveniência local.

Já os recursos interativos permitem ao internauta surfar pelo gráfico, aprofundando mais no assunto de forma divertida. Bola dentro da Época!

Jornalismo e histórias em quadrinhos combinam?

Quadrinhos 3Sim, a resposta é afirmativa. As histórias em quadrinhos são uma das formas mais eficientes de narrar novelas e acontecimentos quaisquer, com ou sem diversos personagens, com ou sem múltiplos cenários.

Gerações inteiras têm conquistado o hábito da leitura pelas portas das histórias em quadrinhos, se envolvendo em enredos de ficção terrenos ou espaciais, possíveis ou não. Até empresas passaram a utilizar o recurso para ensinar e treinar funcionários. Além do mais, são uma ótima estratégia para atrair os jovens e adolescentes para a leitura de jornais.

No jornalismo impresso, o texto ainda impera, mesmo que haja pressão para que as redações cedam mais espaço para fotografias, gráficos e infografias. Fotos-legendas, também bastante eficientes, são raras nos jornais.

No entanto, há sinais de mudança no ar. Em agosto e setembro de 2008, o jornal O Globo publicou uma série de reportagens denominada Favela S.A., na qual relatou a dinâmica, a estrutura e a expansão da movimentação econômica nas favelas fluminenses. O Café Expresso já tratou dessa série aqui.

Quadrinhos 4

Além da pauta inovadora e do trabalho em equipe, foi interessante ver a utilização do recurso das histórias em quadrinhos para ajudar a narrar os fatos. Foi uma forma inteligente que mostrar como interagem moradores, policiais e traficantes em um ambiente muitas vezes sem lei. O cotidiano das favelas se passa em cenários inacessíveis para milhões de brasileiros, mostrando-se um terreno fértil para a utilização da narração em quadrinhos.Quadrinhos 2

Quadrinhos 1 Este ano, nos últimos meses, o portal UOL tem intensificado a utilização das histórias em quadrinhos para narrar fatos, recursos que blogueiros já vinham utilizando para fazer piada entre times e torcidas, para a diversão dos internautas.

Hoje, dia 28 de julho, publicou uma história em quadrinhos sobre a partida de futebol entre Internacional (RS) e São Paulo (SP) pela fase semi-final da Libertadores da América 2010. Para tanto, precisou apenas recuperar fotografias feitas e frases ditas pelos personagens principais do enredo ao longo dos últimos 40 dias que antecedem o jogo, mostrando os pontos psicológicos fortes e fracos acumulados por cada um no período. Vale a pena conferir e a esperança é que a iniciativa se alastre.

Para saber mais: Acesse as reportagens da série Favela S.A (acesso mediante cadastro simples ou para assinantes do jornal).

No Manchester, treinadores ficam no cargo por 24 anos. No Brasil, técnicos têm de ganhar todo ano

Muricy Ramalho, cotado para ser o novo técnico da seleção brasileira, já deu entrevistas dizendo que gosta de seguir princípios como lealdade e esforço dentro do futebol. Prega o cumprimento de contratos firmados. Depois de rápida passagem como treinador do time principal do São Paulo Futebol Clube (SPFC), na década de 90, passou por diversos times até retornar ao mesmo SPFC, em janeiro de 2006. Ganhou três títulos brasileiros consecutivos mas não resistiu a uma nova desclassificação na Taça Libertadores da América – a quarta consecutiva. Em junho de 2009, três anos e meio de pois de assumir o cargo, foi demitido.

Controvérsias a parte, a relação entre Muricy Ramalho e o SPFC é uma das mais umbilicais no futebol brasileiro, devido a sintonia entre treinador e torcida. Superada, certamente, pela relação de Telê Santana com a mesma torcida e com o mesmo clube.

Telê Santana, à frente da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1982 e 1986, foi desclassificado nas duas vezes, e passou a ser considerado “pé frio”, um profissional sem sorte. Em outubro de 1990, assume o cargo de treinador no SPFC, do qual só saiu em em janeiro de 1996, por causa de uma isquemia cerebral. Os cinco anos e três meses à frente do time ficaram marcados na história das relações entre treinadores e torcidas de futebol.

A sintonia que existe entre os dois treinadores, o clube e a torcida são sintomáticas e exemplares, mas ainda distante do que existe no Manchester United, clube inglês.

O atual treinador do Manchester United, Sir Alex Ferguson, está no cargo desde novembro de 1986, há quase 24 anos, independentemente de conquistar os títulos mais desejados do clube em um ano ou não. Ganhou duas vezes a Liga dos Campeões da UEFA, o que corresponde à taça Libertadores na América do Sul, e um título intercontinental de clubes, o mundial extra-Fifa até 2005. Comparativamente, Telê Santana obteve desempenho melhor quando analisada tal meta: ganhar o principal título continental.

Poucos sabem, mas Fergunson não é (ainda) o mais longevo técnico do Manchester. Matt Busby comandou o time de Old Trafford entre 1945 e 1969. Ganhou cinco títulos nacionais e um continental. Se comparações numéricas forem permitidas, o escocês, em números absolutos, vence, mas o brasileiro teria mais 20 anos para tentar um título continental. Mas cá, diferente de lá, não há tanto tempo assim para os treinadores permanecerem no cargo entre um título e outro.

Vale lembrar essas histórias, principalmente em um momento em que diversos treinadores correm o risco de perderem os cargos após o retorno do Campeonato Brasileiro 2010, depois da Copa do Mundo. Ricargo Gomes, no SPFC, há um ano no cargo, terminou o Brasileirão 2009 em terceira colocação e classificou o clube para as semi-finais da Libertadores 2010. Dorival Junior, no Santos, liderou o melhor futebol no primeiro semestre no Brasil, ganhou o campeonato paulista 2010 e está na final da Copa do Brasil, que pode dar uma vaga tranquilizadora para o time na Libertadores 2011. Silas, no Grêmio, está há menos de um ano no clube e ganhou o campeonato estadual este ano.

Leitor quer saber diferença entre multa de trânsito e multa eleitoral

leitor

A seção de cartas do jornal O Globo, no dia 22 de junho, trouxe muitas indignações, entre elas a do leitor ao lado.

Multas de trânsito e eleitorais, para ele, deveriam seguir princípios similares e ter consequências parecidas.

Ele acha que a Justiça Eleitoral começa a cair no descrédito. Opinião a gente respeita, como se sabe, já que não é possível fazer nada. Ou é?

Boa pergunta do Calvin

Calvin

Em 1989, Exxon Valdez derramou 10,8 milhões de galões de óleo no Alasca. E a BP, agora, no Golfo do México?

O Exxon Valdez, até então considerado o maior desastre ambiental na indústria mundial do petróleo, carregava 53,1 milhões de galões de óleo quando foi avariado após colidir com gelo perto do Alasca, em 1989. Cerca de 20% da carga derramou no mar (algo em torno de 10,8 milhões de galões de óleo), de acordo com um relatório da Alaska Resources Library & Information Services (Arlis) a partir da coleta de dados em diferentes fontes.NYTimes óleo

A instituição apontou que ninguém sabe quantos animais foram mortos de fato,  mas que foram encontradas restos de 35.000 aves e cerca de 1.ooo animais marinhos que teriam sido mortos por causa do desastre. De tudo o que foi derramado, 14% foi recolhido.

WashPost óleo

No Golfo do México, BP, empresa responsável pela prospecção no poço, informou ter conseguido fechá-lo após 87 dias de vazamento contínuo, desde o dia 20 de abril, quando houve uma explosão no fundo do mar, na cabeça do poço.

O tamanho do desastre no Golfo do México ainda é incalculável. O governo norte-americano e a própria empresa divulgaram diversas estimativas até o momento, com larga margem de tolerância. No dia 11 de junho, o jornal britânico The Guardian publicou reportagem com a opinião de cientistas, que estimam que o vazamento fez jorrar no mar um volume entre 42 milhões e 100 milhões de galões de óleo.

Uma simples, porém completa e eficiente infografia do jornal norte-americano The Washington Post mostra que, no Golfo do México, estimativas governamentais divulgadas em junho apontam que podem ter vazado entre 1,47 milhão e 2,52 milhões de galões de óleo por dia. Isso produziria um volume extremamente gigantesco de óleo no mar.Info BP oil

A infografia é eficiente porque resumiu dezenas de dados de forma cronológica para contar a evolução da notícia: as tentativas da empresa para conter o vazamento, a quantidade de visitas do presidente norte-americano Barak Obama ao local, o volume de óleo que vazou e as ações do governo.

A sociedade internacional ainda terá de esperar um bom tempo para conhecer estimativas realistas e críveis da quantidade de óleo que vazou no Golfo do México. De certo, apenas que esse acontecimento é de longe o maior desastre ambiental da história da indústria petrolífera.

Observação: fiz uma pequena mudança no título, para melhorá-lo, conforme crítica do leitor nos comentários.

Qualidade da saúde no Brasil: só colocar mais dinheiro resolve?

A The Economist publicou no portal dela na internet um gráfico com uma rápida notícia, mostrando crescimento do gasto dos países ricos com saúde. Entre 2000 e 2008, em média, os gastos com saúde por pessoa aumentaram 4,2% ao ano, de acordo com informações da OCDE (Organização para a Cooperação Econômica Européia). Health-care spendingsA média de gasto nessa área atingiu, entre os países ricos, 8,4% do PIB no período em questão, enquanto na década anterior a média era de 7,3%.

Por trás do aumento de gastos, muitas explicações. As novidades tecnológicas fazem os tratamentos mais caros e há também maior demanda por tratamento com a elevação da expectativa de vida. A certeza é que o aumento de gastos com saúdes continuará.

No Brasil, não há dados organizados e disponíveis sobre o assunto, considerando que os gastos com saúde provêem dos governos federal, estaduais e municipais, além dos dispêndios privados das famílias com planos particulares. A tarefa é mesmo árdua. Alguns cálculos já apontaram que o gasto total com saúde no Brasil pode ter atingido R$ 166 bilhões em 2006 e R$ 192,8 bilhões em 2007. A conta para chegar a um número final e crível sobre o gasto com saúde no Brasil é complexa.

O IBGE publicou, em dezembro de 2009, um estudo sobre o assunto. Os gastos com saúde, segundo o órgão, atingiram 8,4% do PIB brasileiro em 2007, dos quais mais da metade foi desembolsado pelas famílias. O IBGE computou gastos com medicamentos também para chegar ao resultado.

Essas duas informações – os estudos da OCDE e do IBGE – trazem dados interessantes. O Brasil e os países ricos gastam 8,4% do PIB com saúde. A diferença é que, lá, os serviços parecem funcionar muito melhor em comparação ao atendimento prestado ao brasileiro. Estados Unidos, Suíça, França e Alemanha gastam mais de 10% do PIB com saúde e os norte-americanos recentemente aprovaram uma lei ampliando o acesso aos serviços entregues pelo poder público, o que deve ampliar os dispêndio nos próximos anos.

Mais do que retratar filas de pessoas sem atendimento e idosos doentes deitados em macas nos corredores – o que não deixa de ser extremamente importante -, a imprensa poderia fazer matérias mostrando à população que o Brasil gasta tanto quanto os países ricos em saúde, mas os brasileiros não recebem tantos serviços quanto americanos e europeus. Colocar mais dinheiro resolverá o problema? Ou colocar mais dinheiro está longe de ser a solução para a qualidade do atendimento no sistema de saúde brasileiro?

Em 2009, os três bancos brasileiros mais rentáveis somaram quase US$ 25 bi de lucro

O gráfico é da The Economist e mostra os bancos que mais lucraram em 2009. Em ano de crise, que atingiu em cheio o mercado financeiro europeu e norte-americano, sem deixar de respingar em tais instituições de outras regiões, os campeões de lucratividade foram bancos chineses.

Biggest bank profitsVale notar que há bancos brasileiros na lista dos 20 mais lucrativos: Itaú Unibanco (10° lugar), Banco do Brasil (13° lugar) e Bradesco (17° lugar). A análise é da revista Banker, que escreve que, com crise ou sem crise, os bancos brasileiros estão galgando degraus no ranking mundial das empresas do sistema financeiro. O recém-integrado Itaú Unibanco é o maior da América Latina, relata a publicação,seguido por Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal (CEF).

Top 25 Latin America Banks

As tabelas acima poderiam inspirar uma reportagem sólida sobre o sistema financeiro brasileiro, juntando tais dados estatísticos com entrevistas de analistas e economistas, para ser lançada perto do aniversário de dois anos da crise que começou em setembro de 2008, nos Estados Unidos.

Os três mais rentáveis bancos brasileiros somaram um lucro de quase US$ 25 bilhões, segundo a revista Banker, mesmo em um ano de recuperação de uma das maiores crises financeiras da história mundial.

A esses dados, poderiam ser comparados outros como o lucro (ou perdas) obtidos em 2008 e as perspectivas de crescimento no curto e longo prazo.

Cobertura da mídia sobre esportes: entretenimento ou jornalismo?

O debate tomou fôlego recentemente: a cobertura da mídia sobre futebol está mais para o lado do entretenimento ou do jornalismo? Eu fico com o primeiro caso. Considero que quase tudo o que é produzido pela mídia sobre futebol, conscientemente ou não, é feito mais para entreter e menos não para informar (salvas as exceções de sempre).

Veja o que acontece quando há as chamadas janelas de contratação e venda de jogadores. Nomes de diversos jogadores são lançados para o público. A fonte nunca é revelada, mas é confiável, diz o portador do furo jornalístico. No total, imagino que um estudo sobre o assunto comprovaria que só 10% de tudo o que é dito realmente se confirma.

Além do mais, a prática do “jornalismo esportivo” tem desde profissionais que misturam paixão clubística com profissão e também muitos ex-jogadores. Nesses casos, as regras de apuração e os princípios do jornalismo podem ser neglienciados, no primeiro pelotão, ou simplesmente desconhecidos, no último. Veja bem, aqui não há nenhuma defesa pela obrigatoriedade do diploma de jornalismo para ocupar a função, somente uma defesa pelo uso das regras e princípios da atividade. Ouvir, apurar, cruzar informações com atores diversos e só esconder a fonte em casos de vida ou morte.

Li um artigo de Jeff Jarvis, professor da Escola de Jornalismo da Universidade da Cidade de Nova Iorque. Ele está por trás de algumas iniciativas para modernizar e melhorar o ensino de jornalismo por lá. Primeiro, criou um programa para aprimorar a capacidade dos futuros jornalistas em produzir histórias que sejam interativas, usem recursos de todas as mídias (áudio, vídeo, internet, texto, infografia, tabelas etc) e que possam ser publicadas em plataformas variadas. Agora, recentemente, lançou um novo programa, sobre empreendedorismo na indústria da mídia, para fomentar a criação de novos modelos de negócios par ao setor. Mas ele ressalta que toda a modernidade passa pelos tradicionais pilares do jornalismo: forte capacidade de relatar, boa redação, pensamento crítico e valores éticos. Vale ler.

No jornalismo esportivo, parece que esses pilares lembrados por Jeff Jarvis são dispensados na maioria das vezes, salvando raras exceções. A informação crível geralmente cede espaço para boatos, suposições, opinião do jornalista, comentarista ou boleiro. Todas as revelações, falsas ou verdadeiras, têm uma fonte oculta, demonstrando um enorme desrespeito com a audiência e uma relação perigosa entre a imprensa e os interesses das fontes. Muitos programas jornalísticos apelam para o barulho, para a polêmica e para a confusão, enquanto deveriam fazer o contrário – esforçar-se para esclarecer e informar corretamente e contextualizar a notícia para a audiência.

Por trás das fontes ocultas, há sempre o interesse de cartolas, agentes de jogadores, dirigentes e até dos próprios jornalistas, que muitas vezes fazem favores para as fontes, na espectativa de receber um presente mais na frente, que pode ser um bem material ou uma notícia exclusiva, em primeira mão, fazendo o profissional prevalecer diante dos pares. Isso, na minha opinião, acaba transformando a cobertura jornalística sobre futebol em uma espécie de classificado, onde não importa se o que está escrito é verdade ou mentira, mas sim promover o jogador ou a iniciativa da fonte da notícia.

Claro, se uma fonte entrega a notícia para o jornalista em primeira mão, a função do jornalista não é brigar com ela, e sim divulgá-la, como já disse Juca Kfouri, quando antecipou que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) excluiria o estádio do Morumbi, pertencente ao São Paulo Futebol Clube, da lista de sedes dos jogos da Copa do Mundo em 2014 no Brasil, boa parte em razão da briga política decana do clube com a a entidade. Kfouri é lembrado pela produção jornalística à frente da revista Placar, com foco na política e nos negócios (ou negociatas) por trás da atividade dos clubes e entidades de esporte. Além disso, mantém até campanha para que jornalistas não pratiquem atividades comerciais ou publicitárias.

Outro exemplo da má prática do jornalismo na cobertura envolvendo futebol  está no vaivém de informações que colocam e tiram, a todo momento, e às vezes no mesmo dia, o estádio do Morumbi da Copa do Mundo em 2014. A mídia, cada qual um caso diferente, tomou posição contra ou a favor dos agentes envolvidos, numa conduta que praticamente loteou o espaço nos jornais, internet, rádios e TVs para que os envolvidos na disputa divulguem boatos, verdades ou mentiras, mas quase sempre sob o sigilo da proteção da fonte.

Há uma conhecida e antiga briga política nos bastidores do futebol entre os cartolas e, infelizmente, a imprensa tem corroborado com as versões de um ou de outro lado. Para evitar desconfiança, a informação teria, obrigatoriamente, de vir acompanhada de quem a relatou, mesmo que isso signifique o risco de “perder a fonte”, quando o dono da informação deixa de oferecê-la de forma espontânea e facultiva.

A má qualidade, a má formação ou a má conduta dos profissionais envolvidos na cobertura midiática sobre futebol, quando ocorre, não pode justificar a pouca qualidade do que é entregue ao público, até porque, acima de todas as equipes em campo ou nos bastidores, há editores e chefes de redação – estes sim, em teoria, os zeladores da confiabilidade da notícia. Mas a leitura diária por anos seguidos dos cadernos de esporte – e agora ainda mais dos blogs na internet debaixo do guarda-chuva de empresas jornalísticas tradicionais – não tem mostrado essa regra.

No jornalismo, relembrar é obrigação, mas sem superficialidade

Relembrar é viver, prega a velha máxima. No jornalismo, é uma obrigação. Dificilmente os fatos encerram-se no momento em que aconteceu – carregam consequências e exigem novas ações e atitudes no futuro. Quando envolve somente agentes privados, pessoas e empresas, vale ao jornalista relembrar a notícia para verificar se a sociedade aprendeu com erros cometidos ou se repetiu acertos. Quando há o poder público envolvido, a tarefa é verificar se as medidas corretivas e preventivas foram adotadas, já que que o governo é nada mais que o zelador dos bens e recursos de todos.

Bem fez, então, a Folha de S.Paulo ao relembrar o que tem feito pessoas comuns e administração pública municipal para remediar e evitar as inundações e as perdas materiais no Jardim Pantanal, Zona Leste da cidade de São Paulo, derivadas dos problemas ocorridos durante meses de chuvas fortes e atípicas que causaram enchentes e muito transtorno na capital paulista.

A reportagem recupera a frustração da famílias que perderam mobiliário e expectativa de receberem dinheiro do poder público, na medida em que se vêem como vítimas da inação do poder público. Do outro lado, a prefeitura caminha para retirar do local moradores que invadiram áreas, se é que será possível detectar tal comportamento, e investe na construção de um dique e de um piscinão.

3jul Jd Pantanal O ponto forte dessa matéria do jornal é tentar contar o fim da história de fatos amplamente abordados poucos meses atrás – considerando que as chuvas fortes na capital paulista ocorreram entre os últimos meses de 2009 e os primeiros de 2010.

Peca, no entanto, por tratar o tema de forma superficial, dramatizando de forma pasteurizada o cotidiano das famílias e relegando ao papel de coadjuvante as ações do poder público para todo um bairro. Diante da dimensão do acontecimento, importa mais a foto panorâmica que permita visualizar a permanência da devastação do que a imagem fechada de um casal na soleira da porta. Importa mais trazer dados que dimensionem a quantidade d famílias prejudicadas e os gastos do poder público do que a descrição dos móveis dentro de uma casa ou das atividades informais que um comerciante pratica para auferir renda.

O erro jornalístico no caso é superdimensionar o drama de forma artificial e tentar criar empurrar o leitor para uma percepção sem dar a ele a chance de comparar e tirar as próprias conclusões. Sem dúvida que cabe e é imprescindível a narração das dificuldades das famílias que ainda moram no local, mas não deve ser o começo, meio e fim da matéria.

Há perguntas demais sem respostas para permanecer somente na superfície do drama. Como viviam essas pessoas antes das enchentes? Será que a população local já não vivia de atividades informais antes? Será que a família que perdeu móveis é diferente dos milhares de pessoas que vivem a mesma situação depois de enchentes? Qual era a infraestrutura o bairro antes e depois das fortes chuvas? A remoção das famílias para locais sem risco é algo juridicamente, financeiramente e fisicamente possível? Ou apenas engambelação?

No fundo, talvez tenha faltado método e discussão para ajudar a equipe de reportagem a ir para as ruas com uma lista mínima de dados essenciais para serem colhidos e tornar bem-sucedida a boa pauta jornalística. Há muita pergunta sem resposta para dar superexposição para o velho e mascado retrato da família pobre em situação de sofrimento.

Para saber mais: De volta ao Pantanal, reportagem (só para assinantes do jornal Folha de S. Paulo ) que busca relatar como está o bairro Jardim Pantanal, um dos mais prejudicados com as mais recentes enchentes de Sâo Paulo.