Arquivo do mês: junho 2010

Famílias mais pobres gastam R$ 6 por mês com educação. As mais ricas, R$ 410

Para quem gosta de escarafunchar estatísticas, há milhares de dados recém-saídos dos fornos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a respeito do orçamento familiar. São informações que revelam como o brasileiro gasta a própria renda.

A Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) é abrangente e traz dados sobre o gasto das famílias por diversas clivagens, como faixa de renda, anos de estudo e por regiões. Um prato cheio para jornalistas e estudiosos, que gostam de lidar com amplos bancos de dados, com o objetivo de extrair boas pautas com belas infografias, mas é preciso entender ou se esforçar para compreender os dados. Saber “ler as tabelas” corretamente é fundamental.

Seguem algumas constatações, a partir de uma rápida leitura feita em algumas tabelas:

– A habitação é ainda o principal peso na renda das famílias mais pobres do Brasil, cuja renda total (incluindo todos os integrantes da família que tenham algum tipo de rendimento) é de até R$ 830. Esse perfil de família gasta, em média, 37% da renda com despesas ligadas à moradia. Já os mais ricos, cuja renda familiar soma mais de R$ 10.375 por mês, gastam 22,8% da renda com itens referentes à moradia, o que também não é pouco.

– As famílias mais pobres gastam 8,8% da renda com serviços como energia elétrica, telecomunicações, gás, água e esgoto. Os mais ricos desembolsam 3,9% da renda da família com tais itens, todos os meses. A diferença é que os 8,8% da renda dos mais pobres significa uma fatura mensal de R$ 65,26 por mês, em média. A fatura dos mais ricos custa R$ 549,86 por mês, em média.

– Apesar de o Brasil já ter mais de 190 milhões de linhas de telefone celular em circulação e este serviço ter grande penetração entre as famílias mais pobres, a fatura paga todo mês é quase insignificante para as operadoras. Os integrantes de famílias cuja renda conjunta não ultrapassa R$ 830 por mês podem até ter aparelhos celulares no bolso, mas, juntos, pagam R$ 5,84 por mês pelo consumo de chamadas telefônicas celulares. Já as famílias mais ricas pagam uma fatura mensal de R$ 133,47, em média.

– Educação é um item que ganha bastante atenção na cesta de consumo das famílias. Quanto maior a renda, mais destaque para o gasto com cursos diversos, incluindo de nível superior. As famílias mais pobres desembolsam, em média, 0,9% da renda mensal com educação, enquanto as mais ricas gastam 2,9% por mês. Em reais, essa fatura mensal representa R$ 6,83 (mais pobres) e R$ 409,31 (mais ricas).

Este último dado não significa que os mais pobres não estudam. Eles estudam, mas em escolas públicas, com as já conhecidas diferenças na qualidade do ensino. Como é sabido, é a educação – e não o consumo de energia ou de alimentos – que move a roda da fortuna da ascensão social. Como diz um ditado italiano, dinheiro faz dinheiro, piolho faz piolho.

Anúncios

TV de plasma ou remédio? Faz sentido

Opinião leitor 2 Como se sabe, o Café Expresso respeita a opinião alheia. A leitora abaixo, em carta enviada para O Globo, publicada dia 24 de junho, aderiu às metáforas para explicar princípios importantes por trás dos fatos. Indignada com o anúncio de milhões e milhões de recursos públicos para a construção de estádios de futebol para a Copa do Mundo em 2014, ela prefere aplicar os recursos em hospitais públicos. Opinião a gente respeita. Nesse caso, a gente também apóia.

Você gostaria de opinar sobre quais programas deveriam ganhar ou perder recursos?

No portal da BBC na internet, está disponível uma interessante, interativa e divertida ferramenta para que as pessoas façam facilmente simulações de corte no orçamento e de aumentos de impostos, medidas consideradas fundamentais para angariar 74 bilhões de libras por ano para fechar as contas no Reino Unido.

Chama-se “Budget: what would you cut?” (Orçamento: o que você cortaria?). Não creio que seja possível capturar as decisões dos internautas e a tendência dos ingleses – se preferem maiores ou menores cortes em educação ou segurança, se tendem a aceitar aumento de impostos. Seria importante e interessante se esses dados pudessem ser capturados e tabulados, para indicar, mesmo que sem caráter científico, o que deseja a população.

BBC Imaginem, também, o sucesso que uma ferramenta similar faria no Brasil, caso lançada por algum veículo de comunicação.

Eu faria apenas uma sugestão: que fossem atrelados às áreas passíveis de cortes os nomes de alguns programas destas pastas, de forma que o internauta, ao decidir por um hipotético corte de 10% na verba para a Saúde, por exemplo, poderia saber qual ação governamental estaria sendo reduzida.

Para aqueles que quiserem se divertir no portal da BBC, a sigla VAT significa um imposto sobre valor agregado, conceito praticamente inexistente na cultura tributária brasileira.

Os jornais deveriam aproveitar melhor a vitrine gratuita que são as bancas de jornal

O Café Expresso costuma pegar no pé dos jornais quando eles perdem oportunidade de trazer para a capa matérias frias, mas com grande apelo para determinados grupos, nichos ou tribos. Este aspecto é importantíssimo por uma razão: pode atrair para a leitura de jornais aquelas pessoas que não costumam fazê-lo. E a primeira página, como se sabe, é a vitrine do jornal, cuja função prioritária é seduzir.

Por essa razão, volta a pegar no pé do Estadão, que deixou de estampar na capa, mesmo que sem a manchete principal, uma reportagem sobre a volta de grandes shows de rock e festivais de música, incluindo vários dos artistas e bandas mais cultuados pelos adolescentes e jovens adultos na atualidade. Perdeu uma oportunidade ímpar de, por meio das bascas de jornal, atrair tais públicos para comprar e consumir o produto. Afinal, quem não pára para conferir as chamadas de primeira página nas bancas antes de entrar no escritório, durante o almoço ou enquanto espera o ônibus?

FestivaisMatérias frias – a grosso modo, aquelas que não têm necessidade de serem publicadas imediatamente, independentemente de serem importantes, interessantes ou úteis – geralmente narram assuntos relativos a comportamento, cultura, entretenimento e variedades.

Com uma foto bonita ou inusitada, uma matéria fria pode fisgar para a leitura grupos de pessoas pelo gosto específico que têm, pela necessidade temporal que alguma data marcante impõe à agenda da sociedade ou pelo simples fato do tema da reportagem ser algo tão inusitado que há um interesse repentino em “consumir” a matéria, independentemente do leitor ser um gerente de negócios ou um mensageiro.

Dois exemplos recentes – Para ficar mais claro, duas matérias frias que exemplificam o ponto central – uma sobre uma rota européia de cervejarias artesanais e outra sobre receitas chiques para festas juninas. A primeira tinha um apelo incontestável: graças ao crescimento da economia, há cada vez mais consumidores apreciando cervejas (e outras bebidas) importadas ou artesanais, mesmo que mais caras. A segunda também: publicada em junho, mês que inaugura as festas juninas para milhões de brasileiros Brasil adentro. Ambas tinham belíssimas fotos, bastante atraentes.

Em geral, pode-se pensar que os jornais não o fazem porque o jornalismo está preso e acostumado a velhas fórmulas. Há uma espécie de obsessão por dar destaques para assuntos relacionados a política e economia, sobretudo de fontes governamentais. Quando muito, um fato metropolitano rompe esse hábito.

Outro fato que pode ajudar a explicar é que há uma ideologia reinante nas redações que as impedem de colaborar de forma mais enfática com as vendas. As equipes do conteúdo editorial por bem não se misturam com a comercial, mas não podem jamais se esquecer que estão no mesmo barco que, se afundar, leva a todos para o fundo do mar, jornalistas e vendedores.

O problema é o jornalista? – Muitos ainda dizem que jornalista tem uma mania inconsciente de fazer jornalismo para ele mesmo ou para os pares, esquecendo-se que o público pode se interessar por temas além daqueles com os quais os trabalhadores da imprensa preferem ou estão envolvidos.

Não há evidências para tal conclusão, mas se em algum momento tal mito for confirmado, explica-se boa parte do distanciamento do brasileiro com os jornais impressos. Basta lembrar que no Brasil, país de 190 milhões de pessoas, são comprados diariamente cerca de 8 milhões de exemplares. O maior jornal do País não vende 300.000 exemplares por dia.

É possível expandir essa audiência, mas acho que, para isso, os jornais deveriam aproveitar melhor a primeira página e as vitrines gratuitas que são as bancas de jornal.

Mais alfinetes no mapa dos conflitos mundiais

Semanas atrás, o Café Expresso publicou um rápido mapa dos conflitos e guerras ao redor do mundo a partir da leitura de jornais brasileiros e estrangeiros. Apontou combates no México, Iraque, Afeganistão, Somália e Sudão.

Mais do que mortos e feridos, os conflitos ao redor do mundo deixam também um rastro de refugiados. O Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) publicou o Relatório Tendências Globais 2009 informando que, no ano passado, os conflitos expulsaram 43,3 milhões de pessoas, que foram forçadas a deixar as localidades onde viviam, mesmo que não tenham sido obrigadas a sair do país de origem delas

Kyrgyzstan

Nos últimos dias, mais uma dessas guerras eclodiu. Nas redondezas da Rússia, um conflito étnico estourou no dia 10 de junho envolvendo Uzbequistão e Quirguistão. O alvo é a minoria de origem uzbeque residente em Osh, a segunda maior cidade do  Quirguistão. Um porta-voz do Comitê Internacional da Cruz Vermelha sugeriu cerca de 700 mortos e não menos de 3.000 pessoas que precisam de ajuda médica. Mais de 80.000 pessoas já atravessaram a fronteira para o Uzbequistão.

Escalada México No México, a guerra contra os cartéis de drogas continua intensa. Um dos principais jornais norte-americanos relata que uma explosão de violência recente foi responsável pela morte de “centenas de pessoas nos últimos cinco dias”. A escalada de mortes de traficantes, policiais e oficiais públicos empurrou o presidente mexicano, Felipe Calderon, para um pronunciamento na televisão, exortando a população a não retroceder no apoio ao governo, pois, caso contrário, teriam todos de viver sempre com medo.

Este ano, o enfrentamento entre forças policiais e traficantes no México pode resultar em cerca de 13.ooo óbitos, segundo estimativas. Em 2001, esses embates deixaram 1.080 mortos, número que não pára de crescer desde então.

Os mesmos comes e bebes, mas com receitas bem inovadoras. Que tal fazer essa festa junina?

O caderno Paladar, do jornal O Estado de S. Paulo, inovou novamente na pauta. A idéia era, a partir dos mesmos ingredientes tradicionalmente utilizados para os comes e bebes das festas juninas, propor receitas totalmente inovadoras com a ajuda de chefs de cozinha e sommeliers (especialistas em bebidas) de restaurantes renomados.

Paladar1 A equipe do jornal se preocupou com as receitas. Os leitores adoram reportagens de oferecem os procedimentos, o passo a passo, os caminhos para eles aprenderem e fazerem algo sozinhos.

E as receitas eram inovadoras: sorvete de pipoca doce, pé de moleque de chocolate com rapadura e castanha em vez de açúcar queimado e amendoim, raspadinha de quentão, pedaços de abóbora fritos no formato de lascas gigantes de batatas chips, milho assado com cobertura de queijo meia cura ralado e derretido e depois salpicado com páprica doce (na foto).

A pergunta que fica é sempre a mesma: porque uma matéria tão inusitada, diferenciada, inovadora, com ótimas fotos, não ganhou a capa do jornal, com destaque, no topo?

Difícil responder. O assunto ganhou apenas um pequeno espaço na capa, um Paladar4 título minúsculo. Em vez de estourar a fotografia dos pratos diferenciados, a foto escolhida abordou uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) que debateu sanções ao Irã – um assunto tão importante no contexto mundial quanto distante do leitor brasileiro, sem utilidade prática alguma para ele, por mais que o governo federal esteja tentando mediar uma negociação entre os envolvidos na discussão.

As festas juninas, mesmo nestas semanas de Copa do Mundo, serão realizadas por famílias, vizinhos, escolas e comunidades inteiras. Já que é uma prática comum, as pessoas certamente gostariam de aprender novidades e inovar. E elas amam isso. Não é por acaso que se disseminaram no Brasil grandes redes varejistas de bricolagem – trabalhos manuais feitos em casa, na escola ou em qualquer lugar, seja por distração ou economia. Milhões de pessoas, mesmo que sem habilidade alguma, gostam de tentar fazer as coisas.

Paladar2 Por essas razões, as reportagens sobre receitas inovadoras para as festas juninas têm vários dos ingredientes que justificam uma exposição destacada na capa: uma bela e inusitada imagem, procedimentos e lições para as pessoas aprenderem a fazer com as próprias mãos e um assunto totalmente relacionado ao presente, ao momento atual.

Não é a primeira vez que o Estadão deixa de dar destaque, na capa, para uma reportagem bem feita do caderno Paladar. E também não é a primeira vez que o Café Expresso defende que reportagens que abordam temas frios – interessantes ou importantes, mas que não exigem publicação imediata – ganhem a primeira página dos jornais, com belas fotos e títulos atraentes. Nada mais, nada menos, pode ser uma enorme contribuição para aumentar a venda de exemplares nas bancas e atrair para a leitura de jornais grupos de pessoas que não têm o hábito de lê-los.

Pessoas com quem eu faria boas entrevistas durante a Copa do Mundo

A comissão técnica brasileira blindou os jogadores e tem evitado o espetáculo da cobertura jornalista, quando os atletas se preocupam tanto ou mais com as entrevistas e com a notoriedade do que com a preparação física e a competição. Por isso, tem sido muito difícil para as centenas de profissionais de imprensa que estão na África do Sul se desdobrando para inventar pautas e matérias. Está faltando notícia.

Por isso, tentei imaginar alguns personagens do mundo do futebol que poderiam render algumas boas entrevistas. Mais alguma sugestão?

Toninho Cerezo. Atualmente com 55 anos, foi um volante inteligente e vigoroso no meio campo durante os primeiros anos de carreira, para depois se tornar em um dos mais cerebrais jogadores do futebol internacional na posição. Brilhou no Brasil (Atlético Mineiro e São Paulo), na Itália (Roma e Sampdoria) e na seleção brasileira. Atualmente, foi recentemente contratado para treinar o Sport, de Recife. Nos dias que antecedem a Copa do Mundo na África do Sul, certamente renderia uma boa entrevista, na qual poderiam ser analisadas questões como modelo de preparação antes (1978 e 1982) e depois (hoje em dia) para uma Copa, o comportamento dos craques e estrelas do futebol atualmente, aspectos positivos e negativos dos negócios milionários em torno da indústria do futebol atualmente (agentes, empresas investidoras em jogadores, crescimento das receitas etc) e, inclusive, os planos e perspectivas do ex-jogador. Vale perguntar sobre política e economia no mundo da bola também. Recentemente, sabatina com o ex-jogador Zico rendeu boa entrevista no jornal Folha de S.Paulo (somente para assinantes).

Silvio Luiz. O tradicional locutor esportivo famoso pelos bordões que sempre utilizou durante a narração das partidas de futebol por emissoras de rádio e TV está trabalhando atualmente na cobertura de futebol da Rede TV. Diz a lenda que esse paulistano jamais gritou a palavra gol durante qualquer partida. Em vez disso, grita: “Éeéééééééeééééééé doooooooooo (a) "nome do time (ou a seleção mundial)", confira comigo no replay! (gaguejando, nome do jogador), é dele a camisa n° "x". Quem não se lembra das expressões “Pelo amor dos meus filhinhos!” e “Pelas barbas do profeta!”? Acredito que Silvio Luiz seria um ótimo personagem para uma entrevista ao estilo pergunta-resposta para abordar assuntos como: as intrigas, dificuldades e pressões dentro das equipes de profissionais enviados para a cobertura da Copa do Mundo por emissoras de rádio e TV e jornais impressos, o dia-a-dia das seleções com a imprensa e a opinião dele a respeito de toda a estratégia do técnico Dunga, comparando com outros técnicos do passado, ao restringir o acesso da imprensa e da torcida aos jogadores da seleção e cortar os chamados medalhões e celebridades do escrete. Silvio Luiz, como muitos conhecem, não costuma ter papas na língua.

Carrascos do Brasil em Copa. A imprensa brasileira poderia fazer uma boa reportagem sobre os carrascos do futebol brasileiro em Copas do Mundo. certamente seria possível fazer uma bela infografia. Para complementar, dois personagens principais poderiam ganhar entrevistas ao especiais. Claudio Caniggia e Paulo Rossi. Caniggia venceu Taffarel após um passe de Maradona (que driblou vários jogadores brasileiros) no fim do segundo tempo de uma partida das oitavas de final e mandou o Brasil mais cedo para casa em 1990. Rossi simplesmente marcou três gols na seleção brasileira de 1982, até hoje na lembrança da população como uma das melhores já enviadas para uma Copa do Mundo. Há, certamente, fatos interessantes que podem vir à tona em entrevistas com os dois. E há histórias engraçadas para contar ao público brasileiro sobre os carrascos. Caniggia gerou enorme polêmica quando regressou no futebol italiano para jogar no Boca Juniors, grande rival do River Plate, clube que se destacou e ganhou Libertadores e Mundial Interclubes. Numa partida contra o time que o revelou, marcou três gols (o jogo terminou quatro a um) e lascou um enorme beijo na boca de Diego Maradona durante a comemoração de um dos tentos. Já Paulo Rossi foi expulso de um táxi,  em 1987, quando veio ao País para jogar um torneio de futebol. O motorista o reconheceu e o fez descer.