Que tal planejar hoje reportagens para serem publicadas daqui a cinco anos?


Imagine planejar e tomar decisões hoje a respeito de algo que vai gerar resultado apenas daqui cinco anos. Se isso é comum em várias atividades rotineiras, principalmente naquelas que signifiquem gastos, investimentos ou poupança, na rotina da produção jornalística não é algo tão comum. Para falar a verdade, quase alienígena.

é claro que há justificativas para a ausência dessa conduta de planejamento de longuíssimo prazo, inclusive porque o jornalismo é pautado pelo imediatismo, mas matérias dessa natureza poderiam ser feitas mais algumas vezes.

FamíliasDeveria ser uma prática mais comum – e a reportagem da Folha de S.Paulo que ilustra esse texto é um exemplo de como é possível construir grandes histórias e reportagens imaginando hoje uma pauta que se concretizará anos depois.

No caso específico, o jornal decidiu acompanhar a trajetória de duas famílias beneficiadas por um programa de renda mínima do governo federal brasileiro. A decisão da pauta foi tomada em 2005, o que propiciou a coleta de dados ao longo dos últimos cinco anos que seriam perdidos se não fosse o planejamento e o método adotados.

Vale ressaltar também que a evolução das condições de vida das duas famílias – fatos apurados pela reportagem – pôde ser narrada por meio de fotos-legendas, facilitando o entendimento para o leitor e tornando a apresentação do conteúdo mais agradável.

É possível imaginar hoje pautas cujas reportagens serão veiculadas ou publicadas somente daqui alguns anos? Sim.

1) As editorias de esporte poderiam acompanhar a trajetória de um grupo de jogadores das divisões de base de uma equipe qualquer e apresentar periodicamente ou após um período de cinco anos os resultados que cada atleta conseguiu. Aspectos da vida dos adolescentes seriam colhidos pelos repórteres ao longo dos meses, de forma que seja possível evitar que os próprios personagens selecionem o que querem ou não apresentar ao jornalista como pontos marcantes da trajetória deles. Quando isso acontece, é comum os entrevistados abrirem somente as páginas da vida deles que os glorifiquem.

2) As editorias de política poderiam visitar periodicamente alguns vereadores ou deputados, principalmente aqueles sem muita visibilidade, para mostrar que tipo de atividades ele desempenhou ao longo de um mandato de quatro anos, que resultados alcançou, que fracassos enfrentou. É fundamental definir antecipadamente a puta (quais informações serão colhidas ao longo dos anos) e o método da pauta (a forma como as informações serão colhidas). Assim, facetas e aspectos da vida do político poderão ser acompanhadas a partir da criação de um banco de dados – e esse banco de dados será uma fonte extraordinária para a criação de infografias.

3) As editorias de cidades poderiam acompanhar a rotina de um grupo de motociclistas que trabalham fazendo entregas, medindo as dificuldades, os quilômetros rodados, as transformações nas tarefas executadas, a ascensão profissional, a evolução do bem-estar. Inclusive, será possível coletar dados sobre as condições de trânsito, de forma que a reportagem narre mudanças tanto na vida do personagens quanto no ambiente em que eles interagem.

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