O que uma incrível reportagem sobre Pancho Villa poderia inspirar sobre Tiradentes?


Dias atrás, o norte-americano The Washington Post publicou uma grande história. Os ingredientes conferem grande atratividade para a pauta: um personagem emblemático, protagonista de um evento de enorme relevância no último século, capaz de incentivar os leitores a buscarem detalhes nos livros. Mas talvez o mais importante tenha sido dar à reportagem um aspecto extremamente atual, construindo uma ponte sólida entre a data do acontecimento do fato com os dias de hoje.

Pancho Villa 1A matéria está centrada no paradeiro dos restos mortais de Pancho Villa, o mais conhecido general da Revolução Mexicana. O principal apelo da reportagem é mostrar que ninguém sabe ao certo em quais locais estão partes do corpo do líder revolucionário – e outros alegam tê-las guardadas. Vale a leitura direto na fonte, em inglês. Você poderia imaginar que um comerciante de El Paso, Texas, alega ter o dedo indicador que Pancho Villa utilizava no gatilho do revólver praticamente embalsamado, com unha e tudo, numa vitrine? Você acredita ainda que ele pode mostrar e provar o que diz? E que o dedo está à venda?

WP 15abr Se a história, por si só, já tem apelo suficiente para atrair a atenção, o jornal aproveitou os recursos disponíveis na internet e montou uma infografia tão simples e interativa quanto interessante e didática. São daquelas reportagens que realmente instigam os leitores a saber mais.

Uma das formas de trazer pautas como essas para dentro das redações é convidar especialistas de diversas áreas do conhecimento para debates internos, informando previamente a cientistas, historiadores e literatos, entre outros, o objetivo da conversa. Será que não há outros aspectos interessantes ou surpreendentes em torno de personagens emblemáticos que ainda permanecem desconhecidos ou desenterrados? A resposta é sim, há.

No próximo dia 21 de abril, comemora-se no Brasil a morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, considerado herói nacional e mártir da independência. Certamente profissionais de jornais, revistas, portais na internet e emissoras de rádio e televisão terão de oferecer à sociedade aspectos a respeito do personagem.

Aos interessados, ainda dá tempo de fugir do lugar comum e produzir matérias interessantes e que revelem aspectos desconhecidos a respeito de Tiradentes – mais especificamente, do processo que culminou com a condenação de execução dele.

Uma boa fonte para começar é o livro “O Processo de Tiradentes”, que narra a ofensiva da Corte Portuguesa para sufocar o movimento que ganhou o nome de Inconfidência Mineira e que tantas repercussões trouxe para a história nacional. Os autores tiveram acesso aos Autos da Devassa – o processo legal contra Joaquim José da Silva Xavier. Se os documentos históricos são restritos a poucos, o livro e os autores devem ser mais acessíveis para a produção de boas matérias para o próximo feriado.

Vale a pena ver uma entrevista de 9 minutos para o programa de Jô Soares. Começa o autor: “O Brasil não mudou muito em duzentos anos”. Explica que a inconfidência mineira foi um movimento da elite e as vezes a sociedade brasileira se esquece disso. Todos eram ricos, Tiradentes tinha quatro escravos.  As novidades surgem por segundo, intensamente.

Na época, a revolta foi porque o imposto representava 20% do PIB da época. Hoje, beira 40%. Joaquim Silvério devia para a Coroa – e para pagar a Coroa, delatou os inconfidentes. A conversa é deliciosa. Os advogados de Tiradentes defenderam que as conversas dos inconfidentes era “uma conversa de boteco” – mas não deu certo. E tinha muito mais gente por trás de Tiradentes. “Ele não foi bode expiatório, foi um homem corajoso, e por isso tem muito valor”, disse o autor para Jô Soares. Ele participou de 11 interrogatórios, a ferro. No quarto, ele não aguentou e caiu – pois deve ter apanhado muito. Os inconfidentes tinham uma biblioteca particular de 400 livros – algo extremamente extenso para a época. Até aqui, a entrevista consumiu só um terço do total. Imagine o que tem pela frente.

Para saber mais:

1) O Processo de Tiradentes, Editora Conjur, de Ricardo Tosto e Paulo Guilherme Mendonça Lopes.

2) YouTube, entrevista de Ricardo Tosto para Jô Soares, dezembro de 2007.

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