As pessoas comuns têm poder de guiar a cobertura da imprensa? Parece que sim


Fotoleitor3As multidões ganham cada vez mais atenção e espaço na cobertura da imprensa. O fenômeno pode ser explicado por uma palavra na língua inglesa: crowdsourcing. Mais do que serem fontes primárias das notícias, as multidões passam a ser produtoras dessas informações. Na minha opinião, um bom texto para explicar essa mudança de prisma na produção jornalística – claro, trata-se de algo incipiente, mas nem por isso desprezível – foi feito por Carlos Castilho. Cito uns trechos para exemplificar:

– Cresce cada vez mais o número de jornais que buscam na aproximação com o leitor a fórmula para encontrar sair da crise em que as publicações impressas estão mergulhadas.

– Na comparação um a um, é claro que um jornalista sabe mais do que um leitor. Mas se tomarmos em conta que os leitores são milhares ou milhões, fica fácil entender que não há profissional no mundo, por melhor que ele seja, capaz de ter um conhecimento individual superior ao da soma dos conhecimentos dos seus leitores. Até agora, os leitores estavam isolados por falta de ferramentas capazes de transformá-los numa multidão dinâmica e interativa.

– A internet operou este milagre, e o público passou a poder manifestar-se de forma coletiva e interativa. É o que os especialistas chamam de crowdsourcing (as multidões como fonte de conhecimento).

Tentar entender esse fenômeno é algo fascinante, pois trata-se de algo ainda em construção. Não creio que as multidões substituirão a produção da imprensa como a conhecemos. Acredito que as pessoas comuns – o que costumo chamar de sociedade civil desorganizada, em contraponto à organizada, na forma de ongs e instituições diversas que costumam ser ouvidas pela imprensa de forma mais rotineira – terão uma função colaborativa para a imprensa.

As pessoas comuns poderão guiar a cobertura da imprensa. Foi o que aconteceu durante a correria dos profissionais de Twitter Notícia em focojornalismo para fazer a cobertura de todos os acontecimentos derivados das chuvas e dos deslizamentos ocorridos nas cidades do Rio de Janeiro e de Niterói, no início de abril. Foi o que informaram Bette Lucchese (TV Globo), Marcia Menezes (G1) e Mauricio Martins (CBN Rio) em debate promovido pelo programa Notícia em Foco, da Rádio CBN, na noite do dia 12 de abril, com alguns trechos transcritos no Twitter.

A multidão ajudou os jornalistas responsáveis pela chefia de reportagem e pela pauta a dimensionarem o tamanho dos problemas que estão começando. Para o portal G1, os internautas enviaram cerca de 370 vídeos e 300 fotos, além de muitos e-mails. O jornal impresso O Globo recebeu mais de 700 fotos dos leitores.

11abr pg leitores GloboOuvir as multidões, as pessoas comuns ou a sociedade civil desorganizada passou a ser uma alternativa para ativar o interesse da sociedade pelos jornais. Da mesma forma que alguém procura conhecer a opinião de outrem sobre algum serviço ou produto antes de comprá-lo, desejam ouvir a opinião de outros antes de darem a própria. Os jornalistas que são formadores de opinião ocupam papel relevante nesse convencimento prévio, mas as multidões passam a querer ouvir também as próprias pessoas comuns para formatar um ponto de vista.

O Globo tem sido pioneiro em dar mais espaço para as opiniões das pessoas comuns que escrevem ou enviam material para o jornal. O colunista Ancelmo Gois, usualmente, utiliza imagens enviadas pelos leitores na coluna diária que produz – e complementa cobrando as autoridades públicas, dependendo do assunto. O mesmo diário adotou uma diagramação em diversas matérias – e inclusive na capa, em algumas oportunidades – pela qual reproduz a opinião de um leitor entre aspas, com letras maiores, em destaque no meio da reportagem, como mostra a notícia 13abr Arrudaao lado, sobre a decisão do STJ de soltar o ex-governador do Distrito Federal. Há cerca de um mês, inovou mais uma vez, oferecendo diariamente uma página inteira para publicar a opinião que as pessoas comuns enviam ao jornal. O concorrente que mais se aproximou de algo com esse objetivo – Folha de S.Paulo – ampliou o famoso Painel dos Leitores em meia página, mas somente aos domingos.

FotoleitorNão raramente as fotos e informações dos leitores pautam a cobertura da imprensa, como mostram estes exemplos de O Globo ao lado, sobre o desrespeito de carros que sobem nas calçadas e sobe goteiras dentro dos trens. A diferença entre ter uma foto ou informação publicada em um jornal de grande circulação ou em um blog próprio é que, no primeiro caso, a publicação é precedida de uma averiguação, de forma que os fatos possam ser comprovados, expandidos ou contrapostos.

Fotoleitor2  A participação das pessoas comuns na produção do jornalismo diário terá sempre de ser aceita com cuidado, para que a imprensa não seja utilizada para a prática do contra-jornalismo ou tentativa de alguns de difamar ou denunciar adversários sem provas. Mas, se bem conduzida, tende a dar mais criatividade, abrangência e foco em notícias locais que muitas vezes os grandes jornais, por causa do próprio gigantismo, não conseguem abordar.

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