Arquivo do mês: abril 2010

Quatro paradoxos brasileiros para questionar os brasilianistas

Segundo informação antecipada pelo jornalista Lauro Jardim, diversos brasilianistas virão ao Brasil para debater com acadêmicos brasileiros os encontros e desencontros e as idas e vindas da sociedade e da economia brasileiras, entre outros temas. Será um simpósio com quase mil debatedores durante três dias, em julho, em Brasília.

A iniciativa é extremamente interessante e tanto a imprensa quanto especialistas de tudo quanto é área do conhecimento não podem perder a oportunidade para tentar enxergas as mazelas e sucessos do Brasil por outros pontos de vista – o do estrangeiro.

Faz parte da história de qualquer país prestar atenção naquilo que dizem viajantes estrangeiros a respeito dos aspectos e comportamentos locais. Há diversos diários de bordo de viajantes que ajudam até hoje a explicar aspectos da vida cotidiana e privada no brasil e 1500 a 1800. O olhar de quem está de fora, muitas vezes, capta a essência de conformidades e distorções difíceis de serem percebidas por quem as vive e pratica, consciente ou inconscientemente.

Como naqueles séculos, o Brasil ainda é um país de muitas lacunas, perguntas sem respostas, contradições e paradoxos. Exemplos não faltam – e servem como sugestões de pauta para a imprensas.

1) Economia. Enquanto os países mais desenvolvidos buscam maneiras de estabilizar a economia e retomar o crescimento, o Brasil, sem desequilíbrios estruturais e com perspectiva de elevar o PIB em aproximadamente 6% em 2010, aumenta os juros com o intuito de fazer arrefecer esse crescimento econômico tão desejado pelo mundo desenvolvido.

2) Esportes. O Brasil, conhecido internacionalmente como o país do futebol, tem uma população de mais de 190 milhões de pessoas que são potencialmente 190 milhões de torcedores, tamanha é a paixão pela modalidade. isso pode ser facilmente ser traduzido em 190 milhões de potenciais consumidores de produtos e serviços relacionados ao futebol. No entanto, não há estádios confortáveis, não há medidas simples já adotadas por outros países na prevenção da violência, não há clubes fortes. A economia do futebol, que movimenta centenas de bilhões em países europeus, em solo brasileiro patina. As partidas são realizadas em horários esdrúxulos, com médias de público irrisórias, com banheiros fétidos, com torcidas organizadas ameaçadoras. Nem precisa lembrar que que os craques brasileiros estão todos disputando os campeonatos europeus, ajudando os clubes de lá a lotarem estádios.

3) Cidades. Na área prisional, a população carcerária dobrou nos últimos nove anos. Do total de 473 mil detentos, 44% são presos provisórios, que aguardam julgamento. Até dezembro de 2009, havia três vezes mais presos do que vagas em presídios. Construir e operar um presídio não é uma das tarefas mais complexas tanto da engenharia como da administração de empresas. Financeiramente, não é um dos investimentos mais caros, tanto da construção quanto na operação. No entanto, não há solução nem pressão da sociedade nem perspectiva de melhoria. É algo da cultura do brasileiro, que enxerga nelas uma espécie de depósito para pessoas indesejáveis. Mas esse fracasso invariavelmente se volta contra a própria sociedade.

População carcerária

4) Meio ambiente. Um último exemplo está no lixo produzido pelas cidades. Na Europa, lixo jogado em qualquer canto é algo inconcebível. Por aqui, é regra. , quase 400 usinas já operam, inclusive enclaves nos quais residem famílias ricas, com tecnologia que nada lembra as chaminés do século 18. Pesquisadores já mensuraram e publicaram os ganhos.

No Brasil, são geradas, diariamente, cerca de 170.000 toneladas de resíduos sólidos urbanos. Isso mesmo, 170.000 toneladas de lixo por dia, dos quais somente 25% seguem para locais considerados adequados do ponto de vista ambiental, os aterros sanitários. O restante é disposto em lixões ou aterros precários, que despejam gás metano na atmosfera e chorume nos lençóis freáticos. Além dos aterros sanitários, o Brasil inicia tardiamente uma discussão para construir e operar plantas industriais que produzem energia elétrica a partir da incineração dos resíduos ou da combustão do gás metano, processos estes precedidos por outros, como triagem, compostagem e reciclagem.

Reciclagem Europa No Estado de São Paulo, estuda-se três desses projetos. Mas nem tudo é simples. As diretrizes e regras – a política nacional de resíduos sólidos – está ainda em tramitação do Congresso Nacional, desde 1991. A última versão prevê prioridade para reciclagem por meio de catadores, uma espécie de política social para uma parcela do Brasil miserável que consegue, nos resíduos da população, uma forma de sustento. Se seguir nessa toada, o País precisará manter uma tragédia ambiental para minimizar o sofrimento de uma fatia da sociedade que orbita a linha de pobreza.

Será que os brasilianistas ajudam a resolver esses paradoxos brasileiros? Você consegue apontar outros?

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Reportagem mostra aquilo que deveria ser regra nos jornais de fim de semana

O jornal O Estado de S. Paulo superou expectativas na edição no caderno Aliás, que circula aos domingos com o objetivo de expandir e aprofundar o conhecimento a respeito de algum assunto que foi alvo da cobertura midiática durante a semana.

Considero a matéria uma exceção e perfeita para um modelo de jornalismo que deveria prevalecer nos fins de semana, com coberturas especiais e prazerosas. O jornal acertou também em chamar, na capa, a atenção do leitor. Achei muito interessante o conjunto da obra por três razões:

Aliás1 1) Tema. A partir do resultado de mais uma pesquisa eleitoral, realizada pelo Ibope e divulgada dia 22 de abril, o caderno Aliás decidiu analisar transformações na forma da opinião pública se expressar em tempos de velocidade supersônica na transmissão a informação e na múltipla variedade de plataformas para as pessoas expressarem as próprias opiniões, amplificando o imediatismo e facilidade. Até anos atrás, a voz dos cidadãos costumava ser ouvida somente em anos eleitorais. Agora, as pessoas podem emitir opinião imediatamente, tão logo aprovem ou desaprovem algum ato de um político ou autoridade pública.

2) Edição. Para ilustrar o impacto das redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut na comunicação e na difusão da opinião dos cidadãos, o jornal pediu que pessoas comuns escrevessem, em folhas de papel grandes, qualquer opinião. Qualquer mesmo. Em seguida, fotografou-as. O resultado foram fotografias do que poderia ser apelidado de um Twitter no papel, pois as mensagens tinham de ser curtas para caberem na folha. Frases do tipo “Quanto vale a sua saúde? Valorize o médico”, “Brasil é tão lindo quanto Portugal” e “Coma mais manga” retratam o que pensam ou desejam os autores, além de sugerir algumas informações sobre a história ou a profissão deles, por exemplo.

3) Pauta. Para debater o tema, a redação convidou Massimo Di Felice e Célia Retz dos Santos, sociólogos, que trouxeram pontos de vista interessantes sobre um assunto que raramente os leitores parariam para pensar.

Para saber mais: Veja extras do conteúdo elaborado para a cobertura feita pelo caderno Aliás no portal do Estadão. Um detalhe é importante: pelos créditos, percebe-se a atenção em fotografar e ouvir pessoas de várias localidades brasileiras. A abrangência nacional e a representatividade dada à pauta são fundamentais em uma reportagem que se propõe a avaliar o que pensa o povo brasileiro. Bola dentro!

Que tal planejar hoje reportagens para serem publicadas daqui a cinco anos?

Imagine planejar e tomar decisões hoje a respeito de algo que vai gerar resultado apenas daqui cinco anos. Se isso é comum em várias atividades rotineiras, principalmente naquelas que signifiquem gastos, investimentos ou poupança, na rotina da produção jornalística não é algo tão comum. Para falar a verdade, quase alienígena.

é claro que há justificativas para a ausência dessa conduta de planejamento de longuíssimo prazo, inclusive porque o jornalismo é pautado pelo imediatismo, mas matérias dessa natureza poderiam ser feitas mais algumas vezes.

FamíliasDeveria ser uma prática mais comum – e a reportagem da Folha de S.Paulo que ilustra esse texto é um exemplo de como é possível construir grandes histórias e reportagens imaginando hoje uma pauta que se concretizará anos depois.

No caso específico, o jornal decidiu acompanhar a trajetória de duas famílias beneficiadas por um programa de renda mínima do governo federal brasileiro. A decisão da pauta foi tomada em 2005, o que propiciou a coleta de dados ao longo dos últimos cinco anos que seriam perdidos se não fosse o planejamento e o método adotados.

Vale ressaltar também que a evolução das condições de vida das duas famílias – fatos apurados pela reportagem – pôde ser narrada por meio de fotos-legendas, facilitando o entendimento para o leitor e tornando a apresentação do conteúdo mais agradável.

É possível imaginar hoje pautas cujas reportagens serão veiculadas ou publicadas somente daqui alguns anos? Sim.

1) As editorias de esporte poderiam acompanhar a trajetória de um grupo de jogadores das divisões de base de uma equipe qualquer e apresentar periodicamente ou após um período de cinco anos os resultados que cada atleta conseguiu. Aspectos da vida dos adolescentes seriam colhidos pelos repórteres ao longo dos meses, de forma que seja possível evitar que os próprios personagens selecionem o que querem ou não apresentar ao jornalista como pontos marcantes da trajetória deles. Quando isso acontece, é comum os entrevistados abrirem somente as páginas da vida deles que os glorifiquem.

2) As editorias de política poderiam visitar periodicamente alguns vereadores ou deputados, principalmente aqueles sem muita visibilidade, para mostrar que tipo de atividades ele desempenhou ao longo de um mandato de quatro anos, que resultados alcançou, que fracassos enfrentou. É fundamental definir antecipadamente a puta (quais informações serão colhidas ao longo dos anos) e o método da pauta (a forma como as informações serão colhidas). Assim, facetas e aspectos da vida do político poderão ser acompanhadas a partir da criação de um banco de dados – e esse banco de dados será uma fonte extraordinária para a criação de infografias.

3) As editorias de cidades poderiam acompanhar a rotina de um grupo de motociclistas que trabalham fazendo entregas, medindo as dificuldades, os quilômetros rodados, as transformações nas tarefas executadas, a ascensão profissional, a evolução do bem-estar. Inclusive, será possível coletar dados sobre as condições de trânsito, de forma que a reportagem narre mudanças tanto na vida do personagens quanto no ambiente em que eles interagem.

Infográfico mostra o mapa mundial dos estoques nucleares

Segundo o portal da The Economist, juntos, todo o estoque de urânio enriquecido e de plutônio disponível nos depósitos mundiais seria suficiente para construir 200.000 armas nucleares.

Em um momento que o presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, tenta um novo acordo mundial para tornar mais seguros esses estoques, a publicação inglesa foi muito feliz em mostrar em quais países estão estocados todo esse explosivo conteúdo por meio de um infográfico simples e didático.

Economist urânio

O que uma incrível reportagem sobre Pancho Villa poderia inspirar sobre Tiradentes?

Dias atrás, o norte-americano The Washington Post publicou uma grande história. Os ingredientes conferem grande atratividade para a pauta: um personagem emblemático, protagonista de um evento de enorme relevância no último século, capaz de incentivar os leitores a buscarem detalhes nos livros. Mas talvez o mais importante tenha sido dar à reportagem um aspecto extremamente atual, construindo uma ponte sólida entre a data do acontecimento do fato com os dias de hoje.

Pancho Villa 1A matéria está centrada no paradeiro dos restos mortais de Pancho Villa, o mais conhecido general da Revolução Mexicana. O principal apelo da reportagem é mostrar que ninguém sabe ao certo em quais locais estão partes do corpo do líder revolucionário – e outros alegam tê-las guardadas. Vale a leitura direto na fonte, em inglês. Você poderia imaginar que um comerciante de El Paso, Texas, alega ter o dedo indicador que Pancho Villa utilizava no gatilho do revólver praticamente embalsamado, com unha e tudo, numa vitrine? Você acredita ainda que ele pode mostrar e provar o que diz? E que o dedo está à venda?

WP 15abr Se a história, por si só, já tem apelo suficiente para atrair a atenção, o jornal aproveitou os recursos disponíveis na internet e montou uma infografia tão simples e interativa quanto interessante e didática. São daquelas reportagens que realmente instigam os leitores a saber mais.

Uma das formas de trazer pautas como essas para dentro das redações é convidar especialistas de diversas áreas do conhecimento para debates internos, informando previamente a cientistas, historiadores e literatos, entre outros, o objetivo da conversa. Será que não há outros aspectos interessantes ou surpreendentes em torno de personagens emblemáticos que ainda permanecem desconhecidos ou desenterrados? A resposta é sim, há.

No próximo dia 21 de abril, comemora-se no Brasil a morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, considerado herói nacional e mártir da independência. Certamente profissionais de jornais, revistas, portais na internet e emissoras de rádio e televisão terão de oferecer à sociedade aspectos a respeito do personagem.

Aos interessados, ainda dá tempo de fugir do lugar comum e produzir matérias interessantes e que revelem aspectos desconhecidos a respeito de Tiradentes – mais especificamente, do processo que culminou com a condenação de execução dele.

Uma boa fonte para começar é o livro “O Processo de Tiradentes”, que narra a ofensiva da Corte Portuguesa para sufocar o movimento que ganhou o nome de Inconfidência Mineira e que tantas repercussões trouxe para a história nacional. Os autores tiveram acesso aos Autos da Devassa – o processo legal contra Joaquim José da Silva Xavier. Se os documentos históricos são restritos a poucos, o livro e os autores devem ser mais acessíveis para a produção de boas matérias para o próximo feriado.

Vale a pena ver uma entrevista de 9 minutos para o programa de Jô Soares. Começa o autor: “O Brasil não mudou muito em duzentos anos”. Explica que a inconfidência mineira foi um movimento da elite e as vezes a sociedade brasileira se esquece disso. Todos eram ricos, Tiradentes tinha quatro escravos.  As novidades surgem por segundo, intensamente.

Na época, a revolta foi porque o imposto representava 20% do PIB da época. Hoje, beira 40%. Joaquim Silvério devia para a Coroa – e para pagar a Coroa, delatou os inconfidentes. A conversa é deliciosa. Os advogados de Tiradentes defenderam que as conversas dos inconfidentes era “uma conversa de boteco” – mas não deu certo. E tinha muito mais gente por trás de Tiradentes. “Ele não foi bode expiatório, foi um homem corajoso, e por isso tem muito valor”, disse o autor para Jô Soares. Ele participou de 11 interrogatórios, a ferro. No quarto, ele não aguentou e caiu – pois deve ter apanhado muito. Os inconfidentes tinham uma biblioteca particular de 400 livros – algo extremamente extenso para a época. Até aqui, a entrevista consumiu só um terço do total. Imagine o que tem pela frente.

Para saber mais:

1) O Processo de Tiradentes, Editora Conjur, de Ricardo Tosto e Paulo Guilherme Mendonça Lopes.

2) YouTube, entrevista de Ricardo Tosto para Jô Soares, dezembro de 2007.

Alguns ingredientes de uma boa reportagem

Uma boa reportagem publicada dia 29 de março no diário Valor Econômico mostra o quanto uma boa idéia, acompanhada de um método eficiente, bastante persistência dos repórteres e um eficiente trabalho em equipe pode resultar em matérias exclusivas (por revelar um fato latente), abrangentes (por abordarem um amplo espectro de situações), profundas (por não darem trégua a questões mal respondidas) e bem dimensionadas (por apresentarem números que mensurem o tamanho do problema).

Dias atrás, o Café Expresso trouxe dois exemplos de reportagens produzidas a partir da transformação de boas idéias em matérias importantes e interessantes graças ao sucesso no estabelecimento de um método eficiente e habilidade no cruzamento de dados. Hoje, mais um, que além daqueles ingredientes, conseguiu explorar o trabalho em equipe ao extremo para ouvir várias fontes e evitar um problema que é um risco gigantesco na produção de notícias: os interesses justos, porém sempre parciais e às vezes contraditórios, das fontes ouvidas.

MiniapagõesA reportagem mostrou que os miniapagões, que compreendem interrupções de pequena duração no fornecimento de energia elétrica, cresceram 70% em um ano. A pauta surgiu a partir de uma dessas quedas de energia, que afetou também a redação do jornal. No intervalo de poucos dias, as redações do diário em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro tinham sofrido cortes de eletricidade. Decidiram apurar as razões, pois se tratava de amplo interesse social ao afetar residências e empresas repetidamente. A fonte primária para a coleta dos dados foi a Aneel, agência reguladora do setor elétrico. Uma equipe de jornalistas nas três cidades cuidou de entrevistas e coletou e organizou dados sobre qualidade do serviço (que mede quantidade de interrupções e duração média delas), satisfação do consumidor e preço das tarifas.

Miniapagões2 “Então decidimos publicar as três informações, porque percebemos, a partir de entrevistas, que os preços das tarifas, a satisfação do consumidor e a qualidade do fornecimento têm uma relação. E, o mais curioso, é que os consumidores parecem se preocupar mais com a qualidade do fornecimento do que com o preço que pagam”, respondeu-me, por e-mail, Danilo Fariello, autor da matéria principal. Para evitar quaisquer equívocos – afinal, os repórteres não são consultores ou especialistas das tecnicidades do mercado de energia elétrica – procuraram e entrevistaram autoridades e instituições, geradores, transmissores, distribuidores e consumidores de energia, para explicar a razão dos ‘miniapagões’. “Cada um apontava um motivo, mas o consenso maior acabou se formando em torno da falta de investimentos das distribuidoras na manutenção da rede”, respondeu Fariello. O resultado foram duas páginas analisando as causas, consequências e medidas das autoridades.

Como evitar conclusões equivocadas em uma matéria na qual a própria redação cruza dados e números e tira as próprias conclusões? O repórter responde:

– “Exaurir o máximo das fontes disponíveis de informações, tanto pessoas quanto dados. Além das pessoas citadas na reportagem, outras foram procuradas.”

– “A cada conversa com alguma pessoa ligada ao setor (elétrico), eu colocava a questão e perguntava por explicações. A apuração durou mais de uma semana, pelo que me lembro. Como o próprio texto mostra, foram muitas as razões apontadas para o problema e muitos os responsáveis.”

O jornalista deixou claro que a pauta conseguiu ser bem-sucedida graças ao tempo disponível para prepará-la e ao esforço de ouvir muitos envolvidos, dos mais variados elos da cadeia e de grupos de interesse, para não cometer equívocos. Era fundamental conseguir “discernir as informações do lobby puro”. “É um desafio diário filtrar o que realmente é dado objetivo do que pode ser uma informação questionável, que pode beneficiar A, B ou C”, informou-me Fariello.

Mesmo em um grande jornal, ou principalmente nesses, os interesses das fontes, autoridades e agentes de mercado são tremendos – e nem sempre é possível evitá-los. Invariavelmente, como me respondeu Fariello, “a informação que beneficia ou prejudica alguém é também, de fato, uma notícia”, e, por isso, precisa ser publicada.

Para saber mais: Assinantes do jornal podem ler a matéria completa por aqui.

Com um bom método, jornalismo põe números em boas idéias

Boa parte das notícias com as quais a imprensa trabalha nasce de fontes governamentais ou empresariais. Nem sempre são as mais atraentes do ponto de vista do interesse e da importância, mas é preciso ouvi-los, pois, repentinamente, podem soltar uma informação de grande relevância e que muda completamente uma situação pré-estabelecida.

Outras matérias, no entanto, nascem da capacidade dos profissionais da imprensa de observação, análise e cruzamento de dados. Muitas vezes, nesses casos, não basta ter uma idéia, tem de ‘criar’ – buscar, organizar, filtrar, tabular – números para mensurar e dimensionar o acontecimento imaginado. Podem ser matérias ‘frias’ ou  ‘quentes’, dependendo do quanto estiverem relacionadas aos temas de cobertura do momento. Quanto mais próximas estiverem do calor dos fatos, mais repercussão ganharão.

Nas últimas semanas, coletei dois exemplos de reportagens que exigiram uma habilidade cada vez mais preciosa para o jornalismo. Em todas elas os repórteres, além de uma boa pauta, tiveram de se preocupar em garimpar e organizar dados. Parece algo simples e típico da profissão, mas não é. Essa função, na maioria das vezes, é feita pelas fontes, como universidades ou consultorias, geralmente por pessoas que são especialistas no assunto tratado.

Escolas SP 1 Além de um bom exercício de pauta, é preciso um método infalível. O faro do jornalista serve, primeiramente, para detectar potencial de informação nova, exclusiva, com impacto e relevância social. Mas, quando os dados não estão disponíveis e organizados por consultorias e universidades, por exemplo, caberá ao próprio repórter assumir o papel de consultor e acadêmico.

É claro que há riscos de cometer equívocos no tratamento dos dados, mas, para evitá-los, a tática de trabalhar em equipes nas redações (duas cabeças pensam melhor que uma) e também de checar as conclusões da garimpagem com especialistas do ramo, que podem inclusive fazer parte da matéria. Esse processo elimina possíveis e potenciais erros.

Conversei, por e-mail, com um dos repórteres envolvidos nos dois exemplos que listo aqui. Fabio Takahashi, jornalista da Folha de S.Paulo, publicou matéria sobre qualidade do ensino público no Estado de São Paulo. Descobriu que 32 escolas estaduais paulistas podem ser consideradas “top” no que se refere à qualidade do ensino, pois conseguiram atingir níveis semelhantes ao da Finlândia, país que lidera este tipo de estatística. Das 32, 24 obtiveram desempenho 100% melhor no período de um ano.Escolas SP 0

Mesmo que a informação seja positiva, governos não costumam divulgar listas desse tipo, pois imaginam que a comparação desestimula escolas em pior situação e cria barreiras entre servidores públicos e os métodos da secretaria. Por isso, lê-se, geralmente, notas médias, que misturam escolas ótimas, boas, regulares, ruins e péssimas no mesmo balaio. Mas, após tentativas de obter os dados segregados, as notas das escolas, de forma individual, foram publicadas sem alarde no Diário Oficial do Estado. Bastou, então, montar manualmente uma tabela, com apoio de colegas de redação, pela qual pôde fazer as mais variadas experiências.

“Consideramos essas informações importantes para que a sociedade possa comparar escolas que, teoricamente, têm as mesmas condições, mas que possuem desempenhos muito diferentes”, respondeu-me, por e-mail. Bom para o leitor, que ganhou uma matéria exclusiva, positiva e de extrema importância.

Rodoanel Bandeirantes Outra matéria interessante, que segue o mesmo procedimento – criar a pauta, garimpar e organizar dados – foi de José Ernesto Credencio e Ricardo Galo, também ara a Folha de S. Paulo. Para medir o impacto da inauguração do trecho Sul do Rodoanel, que circunda a capital paulista, utilizaram um contador do Datafolha, empresa do mesmo grupo que edita a Folha, para contar, manualmente, os caminhões que circularam em dias antes e depois do início de operação da nova estrada.

Como o trecho Sul do Rodoanel recebeu R$ 5 bilhões em investimentos e foi considerado a maior obra rodoviária do País nos últimos anos, tornou-se extremamente importante avaliar o resultado para verificar a relação entre custo e benefício da obra. Os jornalistas estabeleceram um método: contar veículos pesados que transitaram pela avenida dos Bandeirantes, corredor de exportação para o Porto de Santos que era passagem obrigatória para os caminhões, durante uma hora, entre 16 horas e 17 horas, uma espécie de horário de pico para este tipo de trânsito. Concluíram que o fluxo de caminhões foi reduzido em 46%. Com o método criado, conseguiram mensurar o ganho – antes mesmo dos consultores e das autoridades – e entregaram à população aquilo que ela desejava saber logo após a inauguração da estrada.