Quando o jornalista dá dois passos para trás para analisar um assunto, a sociedade dá três para frente


Reportagens como a que foi publicada pela Folha de S.Paulo dia 10 de março conseguem surpreender. Uma matéria fria, mas nem por isso deixou de ser um espetacular, sobre o aniversário simbólico de 25 anos da axé music, gênero da música brasileira que foi avassalador quando lançado em âmbito nacional. É daquelas que poderiam estampar facilmente a capa de um jornal como o The New York Times para analisar a evolução da cultura ou da sociedade de um país qualquer.Axé1

A pauta preenche tudo aquilo que o leitor de cultura deseja. Vai além dos lançamentos de CD, livros, filmes e peças teatrais, que superlotam as páginas dedicadas ao tema. É claro, é importante entregar ao leitor as novidades, principalmente as de autores mais consagrados, que fazem parte da cesta de consumo das pessoas. Mas a enorme quantidade de material de divulgação causa nos cadernos de cultura a mesma sensação quando se abre o caderno de economia e só se ele, quase que na totalidade, reportagens cuja fonte foi um anúncio ou uma coletiva de imprensa de uma fonte governamental ou oficial.

Axé3 De outro lado, a matéria sobre axé music, escrita por Bruna Bittencourt, é daquelas que dá dois passos para trás para visualizar o tema em perspectiva. Lembra quando e como esse gênero musical foi lançado para o Brasil e conseguiu romper os limites tanto geográficos quanto de renda e escolaridade. Escuta produtores para explicarem como está essa indústria atualmente e analisa o espaço que os principais artistas ocupam e para quais vertentes enveredaram as carreiras deles.

Essas matérias, em tese, podem ser feitas a partir de qualquer lançamento de CD, livro ou filme, como muitas vezes a revista Veja costuma fazer. O lançamento é apenas um ponto de partida para dar dois passos para trás e analisar um outro assunto, mais amplo. É um exercício de pauta interessante nas redações, muito mais difícil do que o trivial, mas muito mais interessante para quem consume notícia. Promove a reflexão em vez simplesmente estampar um lançamento. Abre o leque, em vez de fechá-lo.

Vale lembrar que a Folha de S.Paulo, dia 18 de fevereiro, já tinha feito um exercício semelhante – e bastante interessante. Após as declarações de Mauro Aurélio Garcia, assessor da Presidência da República, que disse, em um seminário, considerar perigoso e “esterco” para a cultura brasileira a quantidade de programas estrangeiros na TV a cabo, o jornal buscou cineastas e produtores de TV para analisarem a declaração o representante do governo federal. A partir das entrevistas, ninguém, inclusive os mais nacionalistas, concordou. As declarações de Garcia foram taxadas de termos similares a ultrapassadas, ideológicas e sem sentido. O jornalismo cumpre ótimo papel quanto dá esses dois passos para trás para a sociedade dar três para frente. E a matéria sobre axé music, independente de quem gosta ou não do gênero, merece um prêmio simbólico como a melhor da semana.

Para saber mais:

Infelizmente, somente para assinantes. É possível ler as matérias e artigos publicados pelo jornal Folha de S.Paulo sobre a qualidade da produção das emissoras a cabo, consideradas por Marco Aurélio Garcia como esterco.

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