Arquivo do mês: março 2010

Na capa do Washington Post, uma sugestão de pauta para a imprensa brasileira

Alguém se lembra do impacto que a denúncia de fraude na produção de leite por duas cooperativas causou nas autoridades e na sociedade brasileiras? Isso ocorreu em outubro de 2007. Até produtos químicos como água oxigenada e soda cáustica eram misturados no leite por duas cooperativas, segundo operação a Polícia Federal, para alterar condições de conservação do produto e aumentar as quantidades produzidas.

A edição de 30 de março do jornal norte-americano The Washington Post, há uma matéria que aborda o mesmo assunto, com grande impacto social, que pode servir de inspiração para uma reportagem similar pela imprensa brasileira, mesmo que o exercício não encontre as mesmas informações e constatações.

Food fraud2 O texto aborda as fraudes com alimentos, com exemplos de indústrias e comerciantes que literalmente estavam vendendo “gato por lebre”. Filé de um determinado peixe, mais caro, na verdade era filé de uma outra espécie, mais barata. O mel continha açúcar de beterraba, mas era vendido como 100% puro. E daí em diante.

Vale ressaltar que essas fraudes são diferentes da simples falta de qualidade de produtos alimentares, pois os fabricantes ou comerciantes têm a intenção de misturar substâncias “alienígenas” aos itens originais ou naturais.

Todos os alimentos têm de seguir características físicas e químicas e uma espécie de bula, reguladas pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa). Uma mortadela tipo italiana tem composição diferente da tipo bologna, da mesma forma que uma salsicha tipo viena tem composição distinta daquela utilizada em Food fraudcachorros-quentes.

Um especialista do meio acadêmico estima que, nos Estados Unidos, um montante entre 5% e 7% do suprimento de itens vendidos é afetado pelo problema – mas os números podem ser apenas uma parte do problema.

A indústria norte-americana que anda na linha, prejudicada pelos competidores  fraudulentos, reclama por mais atuação da FDA, a Anvisa dos Estados Unidos, responsável por aprovar e fiscalizar os alimentos.

As universidades ajudam a combater as fraudes, com tecnologia e testes de DNA nos alimentos para detectar a verdadeira espécie comercializada e checar se as embalagens dizem o mesmo que o resultado dos exames.

Com a internacionalização crescente do comércio mundial, é de se supor que problemas visto lá, nos Estados Unidos, podem ocorrer também cá, no Brasil. Universidades, reguladores e grandes redes varejistas poderiam ser convidados a ajudar a explicar esse importante tema.

Outra pauta importante seria atualizar a sociedade brasileira a respeito do caso de aduleração do leite com soda cáustica, ocorrido em 2007. O que ocorreu com os responsáveis e com as empresas? Alguma medida preventiva ou corretiva foi adotada pelos reguladores?

Muito mais do mesmo: o futebol, mas sob o prisma da administração

Valor futebol1

A semana que passou foi repleta de boas matérias da imprensa – e o Por Dentro da Notícia não está interessado ou avaliando tudo o que foi feito sobre o caso Nardoni. Com a iminente saída de José Serra e Dilma Rousseff dos cargos que ocupam no governo paulista e federal, respectivamente, reportagens bastante interessantes e importantes foram feitas sobre obras entregues, pela metade ou não. Sobre essa questão, o blog voltará ao assunto mais em breve e de forma abrangente. Outras matérias também mereceram destaque.

Uma merece destaque – e o título simbólico de a melhor da semana. Trata-se de uma reportagem publicada no caderno de fim de semana do jornal Valor Econômico, dia 26 de março. Aborda futebol, tema repleto de paixão, mas sob a ótica dos negócios – e um pouco da administração. E traz uma bela infografia.

A matéria aborda a gestão amadora dos clubes, o descaso com manutenção de estádios e formação de elencos, o crescimento das receitas, o equilíbrio das despesas e a diversificação da arrecadação de recursos. Se há um pecado, falha por ser superficial (não se aprofundar), apesar de abrangente (abordar muitos aspectos). Em vez de insistir muito nos profissionais de marketing, poderia focar mais nos de finanças. Mas alguns trechos são interessantes:

* Carlos Aragaki, sócio da Casual Auditores Independentes: "Se a Timemania resolveu, de certa forma, o problema da dívida fiscal, é preciso lembrar que hoje a Justiça usa a penhora de bens para casos de dívida trabalhista. E muitos clubes já estão também atrasando o pagamento dos novos impostos."

* Rogério Caboclo, vice-presidente financeiro da da Federação Paulista de Futebol: "Administrar futebol é completamente diferente de uma atividade empresarial. O gestor do clube está sempre sujeito à paixão, luta por espaço na mídia, é alvo de críticas da torcida, tem de se reportar a seus eleitores e não a um conselho administrativo e até mesmo, algumas vezes, enfrenta a vaidade dos atletas."

* José Carlos Brunoro, diretor de futebol do Grupo Pão de Açúcar e do Pão de Açúcar Esporte Clube: "Os clubes precisam de mais gestores para ampliar a arrecadação. Precisam lembrar que num campeonato de pontos corridos cada jogo é um evento, o estádio passa a ser fonte de renda, é possível vender ou alugar camarotes, fazer as promoções mais variadas."

Matérias como essa não são novas, mas costumam ser publicadas mais em blogs e em portais na internet do que na mídia imprensa ou na televisão. A Casual Auditores faz periodicamente análises sobre as finanças dos clubes brasileiros e o Futebol Finance produz exercícios similares sobre tudo quanto é assunto econômico e financeiro de equipes de futebol.

Dois ingredientes criam apelo natural nessa reportagem do Valor Econômico. O primeiro é publicar rankins – o leitor adora “os dez mais” ou “os dez menos” sobre tudo. Segundo, é revelar uma face diferente de um assunto que costuma ser mastigado sempre sobre um único prisma. Neste caso, o futebol foi tratado sob ótica das finanças e administração, como já foi dito.

Sobre esse último aspecto, imagine uma reportagem sobre moda, mas na ótica da violência ou da administração e finanças, em vez das cansativas descrições de glamour e novas coleções? Ou que tal uma matéria sobre culinária sob o prisma da logística? Ou uma reportagem abordando a política por traz do cotidiano dos acadêmicos (sim, eles brigam ferozmente por espaço e prestígio)> Ou ainda uma cobertura sobre a microeconomia e os negócios envolvidos no trânsito dos principais centros urbanos (e não os repetitivos textos sobre extensão do congestionamento)?

Fugir do lugar comum na abordagem de um tema cotidiano da imprensa é um prêmio para os leitores – e, por isso, também merece prêmio.

Saiba mais: Para assinantes, a íntegra da reportagem do Valor Econômico.

Governo transforma em ministérios secretarias com baixa eficiência nos investimentos

O governo federal enviou ao Congresso Nacional a Medida Provisória 483/2010 para ordenar a estrutura de secretarias e cargos vinculados à Presidência da República. Secretários e secretarias ganharam o título de ministros e ministérios de Estado. No bojo, alguns cargos foram criados para ministérios já existentes.

A promoção, no entanto, esconde contradições. Uma rápida análise na eficiência dos programas de investimentos gerenciados por quatro secretarias especiais criadas pelo governo federal entre 2006 e 2007 mostra que a eficiência é pequena. Na média, elas conseguiram gastar entre 8% e 33% dos recursos alocados para investimentos em políticas públicas diversas.

Medir a eficiência de um órgão ou gestor público somente pelo prisma da eficiência da execução orçamentária de investimentos – o quanto do volume de recursos destinado a investimentos foi efetivamente gasto em relação ao orçamento autorizado – é polêmica. Os números, apesar de frios, sempre aceitam abstrações.

A análise foi feita a partir de dados orçamentários disponibilizados no portal da ONG Contas Abertas, especializada no estudo dos gastos públicos. Foram considerados somente recursos disponibilizados para investimentos de quatro secretarias especiais: Aquicultura e Pesca, Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Políticas para as Mulheres, e Portos – esta última criada em 2007, enquanto as três primeiras foram instituídas em 2006. A secretária voltada para ações no setor pesqueiro não está contemplada na medida provisória enviada dia 25 ao Congresso Nacional.

Outro aspecto importante do método é considerar como eficiência orçamentária a relação entre o que foi realmente pago do orçamento autorizado de cada ano. Valores transferidos para serem executados e pagos nos anos seguintes – os chamados restos a pagar – não entram na conta, pois o objetivo é medir a eficiência. Se um volume de recursos foi alocado para ser gasto no ano, quanto maior for a parcela do gasto, maior pode ser considerada a eficiência do órgão gestor.

No total, considerando os quatro anos, entre 2006 e 2009, as quatro secretárias foram autorizadas a investir R$ 3,1 bilhões, mas só foram pagos R$ 583 milhões (*). O nível de execução orçamentária do ano de criação de cada secretaria até o ano passado varia bastante. A secretaria para pesca gastou, em média anual, 17,2% do orçamento autorizado para cada ano. A secretaria para promoção da igualdade racial gastou, em média, em cada ano, 8,3% dos investimentos autorizados para cada exercício fiscal. Para políticas para as mulheres, a terceira secretaria conseguiu gastar 33,2% do orçamento autorizado para investimentos em cada ano, em média. Já a secretaria de portos, a mais nova, em média, gastou 18,7% do orçamento de investimentos.

Secretarias especiais Se forem considerados todos os recursos realmente pagos – somando os recursos de investimentos que foram autorizados para cada ano com os recursos que foram pagos nos anos seguintes, os restos a pagar – o nível de execução do orçamento cresce, com mostra a tabela acima. Nada contra a promoção, mas talvez seria mais cirreto considerar a eficiência dos órgãos para promovê-los.

É sabido que, dentro da administração pública, não basta boa vontade para conseguir gastar recursos autorizados para investimentos. Há uma série de procedimentos legais que precisam ser cumpridos e, nesta longa jornada, há inúmeros riscos que podem paralisar, atrasar ou impedir o gasto. Isso ocorre principalmente em obras, fazendo, em tese, a secretaria que cuida dos portos a mais propensa a ter uma execução orçamentária baixa para investimentos.

Se os procedimentos são constitucionais ou legais e os percalços conhecidos, há duas diretrizes, em princípio: autorizar recursos para investimentos somente quando essas etapas preliminares estiverem cumpridas ou melhorar a eficiência no cumprimento dessas etapas, cumprindo-as mais rapidamente.

(*) Correção: na tabela, incorretamente, foi escrito “média anual entre 2006 e 2009”, quando o correto é “total entre 2006 e 2009”.

Vigilância sobre poder público além da área política

Um dos principais papéis do jornalismo é manter estrita vigilância sobre o poder público – governos e governantes, órgãos e instituições públicas e quaisquer funcionários. Não por menos, recente pesquisa apontou que 91% da população consideram que a imprensa ajuda a combater a corrupção no Brasil e 97% das pessoas são a favor da investigação de casos suspeitos por jornalistas.

Marcar de forma acirrada a atuação do poder público, no entanto, vai além – e essa boa reportagem de Edison Veiga e Lucas de Abreu Maia, publicada dia 15 de março no jornal O Estado de S.Paulo, prova isso.

15 mar OESP Eles estiveram nas instalações da Biblioteca de São Paulo, recentemente inaugurada no Parque da Juventude, espaço que ocupou o lugar do antigo presídio do Carandiru, na Zona Norte da capital paulista. Os repórteres estiveram na biblioteca por quatro semanas seguidas, duas vezes cada um. Verificaram o funcionamento, o atendimento e o acesso para portadores de deficiências. Entregaram ao cidadão uma análise de primeira, mostrando tanto a eficácia quanto os defeitos da biblioteca.

Esse tipo de pauta costumeiramente resulta em boas histórias, desde que haja objetividade. Na era de internet e telefonia à disposição em aparelhos portáteis, o trabalho do jornalista tem se resumido, cada vez mais, a apurar dados e informações diretamente das redações, saindo cada vez menos para as ruas.

Essa transformação do cotidiano das redações gerou ganho de produtividade e redução de custos importantes para a indústria da notícia, mas a sociedade perdeu matérias cujo método é a observação do jornalista, que atua como um pesquisador.

Que essa matéria – a melhor reportagem da semana – incite novas pautas como essa. Planejamento é fundamental para que os repórteres saiam para as ruas com objetivos bastante definidos, com questões claras para buscar as respostas, sem ceifar o espaço natural para as novidades que podem colher nas ruas.

Leitores, internautas, ouvintes e telespectadores certamente vão aplaudir essas iniciativas, pois tão importante quanto prevenir que o dinheiro público seja desperdiçado ou desviado é garantir que os serviços públicos que receberam investimentos funcionem com qualidade e eficiência.

Estatísticas insinuam qual é o grupo da morte – o mais fraco – da Copa Libertadores 2010

Este ano, a Copa Santander Libertadores da América promete uma briga à parte: a brasileira. Das cinco equipes do Brasil disputando a segunda fase, de grupos, estão três das maiores torcidas do País: Flamengo, Corinthians e São Paulo, além de Cruzeiro e Internacional. Há outras faíscas em campo: a rivalidade entre os times paulistas; a rivalidade recente entre o São Paulo diante de Cruzeiro e Internacional, equipes que desclassificaram o São Paulo em edições anteriores do torneio; e a rivalidade entre Internacional e Corinthians, na qual a equipe paulista levou a melhor no Brasileirão 2005 e na Copa do Brasil 2009. Naquele Brasileirão, os gaúchos ainda não esqueceram toda a confusão e a reviravolta causada pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) na tabela após a revista Veja descobrir indícios de que um árbitro manipulara resultados.

Se a rivalidade entre brasileiros será uma disputa à parte, há equipes sul-americanas tradicionais que sempre fazem jogos extremamente difíceis. Os mexicanos, também, sempre convidados pela Conmebol, já têm dois times automaticamente classificados para as oitavas de final, além de mais dois disputando a fase de grupos. As duas já classificadas são remanescentes da edição da Libertadores do ano passado, quando foram perderam os jogos por WO por não aceitarem jogar em países neutros. Em abril e maio de 2009, o mundo estava apavorado com a perspectiva de uma pandemia de gripe suína, cujo epicentro foi o México e os Estados Unidos.

A idéia surgiu de uma análise bastante interessante que li sobre como era possível imaginar o grupo da morte da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, a partir de algumas contas, considerando a posição das seleções em dois rankings – o FIFA’s world soc­cer rank­ings e o Nate Silver’s Soc­cer Power Index da ESPN.

O primeiro desafio para determinar o grupo da morte da Libertadores 2010 – o grupo com equipes mais fortes – foi criar um ranking com todos os times sul-americanos e mexicanos – ao menos com todos aqueles que participam da atual fase de grupos. Não foi uma tarefa fácil. Se para as seleções nacionais há dois rankings bem feitos, pra o futebol sul-americano, em tese, deveria haver dois – o da Conmebol e o da IFFHS. Mas eles são incompletos.

 

Os desafios para construir um ranking completo e único

Quatro problemas iniciais surgiram.

1) O ranking da IFFHS se mostrou extremamente rarefeito para comparações, já que não abrange muitas equipes sul-americanas e mexicanas. O foco é a Europa. Por isso, o descartei.

2) Já a Confederação Sul-americana de Futebol, a Conmebol, não faz uma lista desse tipo (todos os times de todos os países), posicionando as equipes de acordo com os resultados que conquistaram ao longo da história do futebol sul-americano.

Na verdade, ela produz vários rankings, exatamente dez, um para cada país participante, nos quais lista melhores e piores. O problema é que não compara times de países diferentes. Ela simplesmente não diz se argentinos são melhores que brasileiros, se peruanos são piores que equatorianos, se paraguaios e uruguaios são equivalentes.

Este obstáculo foi relativamente simples de superar. Para conceder pontos para cada equipe, a Conmebol criou uma regra: dois pontos por partida disputada e pontos extras para títulos conquistados. Assim, se a Conmebol não compara todas as equipes para não acirrar os ânimos das federações nacionais, eu mesmo comparei, já que tudo aqui não passa de um exercício estatístico.

3) Se criar um ranking único da Conmebol não foi difícil, havia nele também lacunas, mesmo que poucas em comparação à lista da IFFHS. As equipes mexicanas, apesar de já disputarem a Libertadores há alguns anos, não são mensuradas pela entidade máxima do futebol sul-americano.

Para superar este desafio, pesquisei o desempenho das duas equipes mexicanas que participam atualmente da fase de grupos – Monterrey e Monarca Morelia – em todas as competições organizadas pela Conmebol. Adotei com elas o mesmo critério: dois pontos para cada partida disputada e pontos extras para títulos.

Como os times do México não participam da Copa Sul-americana, iniciada em 2002, ou outras quaisquer, até onde consegui entender, não precisei fazer pesquisas adicionais para dar-lhes pontos extras.

O Monterrey (MEX), segundo o blog do Victor Birner, só participou da Copa Libertadores de 1999 e foi eliminado na primeira fase (6 jogos, 2 vitórias, 1 empate e 3 derrotas, 10 gols feitos e 0 sofridos). TOTAL = 12 pontos.

O Monarcas Morelia, segundo Wikipedia, participou da Copa Libertadores de 2002 (10 jogos, 6 vitórias, 2 empates e 2 derrotas, 23 gols feitos e 13 sofridos). TOTAL = 20 pontos.

4) Outra decisão difícil foi inserir no ranking equipes sul-americanas estreantes na Libertadores. É o caso do Racing (URU). A equipe jogou bem contra Corinthians em São Paulo e já tem uma vitória, conquistada contra o Cerro Portenho (PAR). Mas não tive escolha a não ser adotar o mesmo critério da Conmebol para dar pontos à equipe uruguaia e inseri-la no ranking.

Assim, como o Racing não tem quaisquer participações em campeonatos da Conmebol, inseri-lo na última colocação do ranking que envolve todos os times, mesmo que esta equipe não me pareça pior do que muitos times bolivianos (que estão em posições melhore). Mas não encontrei regra melhor, por princípio.

Grupos Libertadores 2010

Como eleger o grupo mais forte?

 

1) A primeira maneira de analisar a força dos grupos é calcular uma nota média entre a posição dos quatro times de cada grupo, de forma que a nota média mais elevada significa um grupo teoricamente mais fraco. Dessa forma, Cruzeiro e Flamengo estariam em grupos mais difíceis enquanto Corinthians e São Paulo estariam em grupos mais fáceis.

2) Como, além do campeão de cada grupo, há vagas para os segundos colocados, outra forma de analisar a força dos grupos é calcular a distância entre os segundos e os terceiros colocados de cada grupo, considerando as posições deles no ranking da Conmebol que foi adaptado. Entre os brasileiros, novamente o Cruzeiro estaria, teoricamente, no grupo mais forte. E o São Paulo, seguido por Internacional e Corinthians, estaria no mais fraco.

3) Nesta edição da Copa Libertadores da América, especificamente, não haverá vagas para todos os segundos colocados. Em vez de oito vagas, há somente seis, pois os dois times mexicanos remanescentes das oitavas de final da edição passada da Libertadores já têm vaga garantida nesta edição do torneio. Então, talvez seja interessante e importante identificar quais são os terceiros colocados mais fortes. A terceira força de cada grupo será uma pedra no sapato dos restantes, fazendo-os, teoricamente, perder pontos preciosos. Essa perda de pontos será danosa principalmente para os segundos colocados, que podem ver seus pares obterem pontuações melhores em grupos cujos terceiros colocados sejam mais fracos. Dessa forma, novamente Cruzeiro e Flamengo estão em grupos com terceiros colocados mais fortes em comparação com todos os outros grupos. E Internacional, seguido pelo São Paulo, tem um terceiro colocado considerado o mais fraco entre todos os grupos.

 

Cruzeiro no grupo da morte? São Paulo no grupo mais fraco?

Prismas Libertadores 2010É extremamente complicado acertar qual é o grupo mais difícil e o grupo mais fácil somente analisando a posição de cada equipe participante em um ranking. Mas não podemos desconsiderar que seja uma forma de tentar enxergar a questão.

A conclusão que esse exercício entrega é que o Cruzeiro estaria, hipoteticamente, no grupo da morte da Copa Libertadores 2010, enquanto o São Paulo estaria, em tese, no grupo mais fácil.

É difícil imaginar quais serão os dois segundos colocados que ficarão de forma das oitavas de final. Em tese, onde houver maior disputa, nos grupos mais fortes, é grande a chance de haver equilíbrio e, dessa forma, o segundo colocado não obter uma pontuação tão boa em comparação aos pares de outros grupos. O risco é ficar de forma por causa desse equilíbrio.

É óbvio que esse exercício não é conclusivo – é apenas mais uma maneira de comparar. A última posição que o Racing (URU) ganhou no ranking não condiz com a dificuldade imposta ao Corinthians na primeira partida do time brasileiro no Grupo 1.

Da mesma forma, o São Paulo, no Grupo 2, voltou a perder para o Once Caldas (COL) lá na Colômbia – e o time paulista enfrentou muita dificuldade. Ainda no Grupo 2, Once Caldas e Monterrey (MEX) estão em posições bastante diferentes no ranking da Conmebol adaptado para este exercício (54ª e 154ª posições), mas empataram em ambos os jogos.

Já o Estudiantes (ARG), a primeira força do Grupo 3, mesmo que ganhe o próximo jogo, em casa, contra o modesto Bolívar (BOL), ficará ainda a dois pontos do Alianza Lima (PER), terceira força do grupo, de acordo com o ranking, que já obteve três vitórias e uma derrota.

Times como o Bolívar (BOL) conseguem boa pontuação somente pelo fato de estarem sempre presentes na Copa Libertadores da América, ganhando, por edição do torneio, no mínimo os pontos relativos às partidas disputadas. Não significa que sejam fortes ou páreo para as outras equipes do grupo, apesar de terem uma posição interessante no ranking que adaptei.

No fim, é claro que vencerá a Libertadores 2010 a equipe que combinar melhor tática, técnica, raça, sorte, experiência e jogadas individuais de jogadores habilidosos, entre outros fatores.

 

Trabalho colaborativo

Da mesma forma que tentei imaginar critérios para determinar qual é o grupo da morte da Copa Santander Libertadores da América 2010 e regras para superar as dificuldades técnicas e ausência de informações, outras pessoas podem pensar em maneiras diferentes de fazer o mesmo exercício. Este blogueiro ficará satisfeito se receber críticas e colaborações, incluindo novas formas de resolver este exercício.

Calvin explica

Calvin 16mar

Quando o jornalista dá dois passos para trás para analisar um assunto, a sociedade dá três para frente

Reportagens como a que foi publicada pela Folha de S.Paulo dia 10 de março conseguem surpreender. Uma matéria fria, mas nem por isso deixou de ser um espetacular, sobre o aniversário simbólico de 25 anos da axé music, gênero da música brasileira que foi avassalador quando lançado em âmbito nacional. É daquelas que poderiam estampar facilmente a capa de um jornal como o The New York Times para analisar a evolução da cultura ou da sociedade de um país qualquer.Axé1

A pauta preenche tudo aquilo que o leitor de cultura deseja. Vai além dos lançamentos de CD, livros, filmes e peças teatrais, que superlotam as páginas dedicadas ao tema. É claro, é importante entregar ao leitor as novidades, principalmente as de autores mais consagrados, que fazem parte da cesta de consumo das pessoas. Mas a enorme quantidade de material de divulgação causa nos cadernos de cultura a mesma sensação quando se abre o caderno de economia e só se ele, quase que na totalidade, reportagens cuja fonte foi um anúncio ou uma coletiva de imprensa de uma fonte governamental ou oficial.

Axé3 De outro lado, a matéria sobre axé music, escrita por Bruna Bittencourt, é daquelas que dá dois passos para trás para visualizar o tema em perspectiva. Lembra quando e como esse gênero musical foi lançado para o Brasil e conseguiu romper os limites tanto geográficos quanto de renda e escolaridade. Escuta produtores para explicarem como está essa indústria atualmente e analisa o espaço que os principais artistas ocupam e para quais vertentes enveredaram as carreiras deles.

Essas matérias, em tese, podem ser feitas a partir de qualquer lançamento de CD, livro ou filme, como muitas vezes a revista Veja costuma fazer. O lançamento é apenas um ponto de partida para dar dois passos para trás e analisar um outro assunto, mais amplo. É um exercício de pauta interessante nas redações, muito mais difícil do que o trivial, mas muito mais interessante para quem consume notícia. Promove a reflexão em vez simplesmente estampar um lançamento. Abre o leque, em vez de fechá-lo.

Vale lembrar que a Folha de S.Paulo, dia 18 de fevereiro, já tinha feito um exercício semelhante – e bastante interessante. Após as declarações de Mauro Aurélio Garcia, assessor da Presidência da República, que disse, em um seminário, considerar perigoso e “esterco” para a cultura brasileira a quantidade de programas estrangeiros na TV a cabo, o jornal buscou cineastas e produtores de TV para analisarem a declaração o representante do governo federal. A partir das entrevistas, ninguém, inclusive os mais nacionalistas, concordou. As declarações de Garcia foram taxadas de termos similares a ultrapassadas, ideológicas e sem sentido. O jornalismo cumpre ótimo papel quanto dá esses dois passos para trás para a sociedade dar três para frente. E a matéria sobre axé music, independente de quem gosta ou não do gênero, merece um prêmio simbólico como a melhor da semana.

Para saber mais:

Infelizmente, somente para assinantes. É possível ler as matérias e artigos publicados pelo jornal Folha de S.Paulo sobre a qualidade da produção das emissoras a cabo, consideradas por Marco Aurélio Garcia como esterco.