Arquivo do mês: fevereiro 2010

Isso porque Barak Obama estava determinado a retirar as tropas do Afeganistão e Iraque

 1000th US death O The Washington Post separou mais da metade da primeira página da edição do dia 24 de fevereiro para informar a sociedade norte-americana que os Estados Unidos estão próximos de notificar a milésima morte de um soldado no conflito do Afeganistão, que começou em outubro de 2001.

Estão na contabilidade de fatalidades muitos combatentes que tinham sobrevivido a campanhas no Iraque, guerra iniciada em março de 2003. No conflito localizado no Oriente Médio, 4.366 baixas já foram listadas. Olhando friamente, perto das estatísticas medidas em outras guerras do século passado, o número não assusta, mas não deixa de ser alarmante.

Mês a mês, o conflito se acirra. No ano passado, as tropas norte-americanas sofreram, de forma disparada, baixas muito mais elevadas, como mostra a infografia no formato de linha do tempo estampada na capa do Post. A ilustração é feliz por dois motivos: informa rapidamente que o número mensal de mortes de americanos é crescente e permite ao leitor rememorar alguns fatos marcantes ao longo dos mais de oito anos de conflito.

Em dezembro passado, por exemplo, Obama ordenou o envio de mais 30.o0o soldados para o Afeganistão. Vale lembrar que o atual presidente dos estados Unidos prometeu, durante a campanha eleitoral em 2008, retirar as tropas norte-americanas paulatinamente tanto do Afeganistão quanto do Iraque.

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Bela primeira página para o trem-bala californiano

No fim de janeiro, precisamente dia 28, o governo federal dos EUA anunciou que decidiu injetar US$ 2,25 bilhões em San Jose Mercury News financiamento para colaborar na viabilização de um trem-bala no estado da Califórnia. A intenção do presidente Barak Obama é criar empregos e movimentar a economia por meio de projetos de infraestrutura.

Lá, alguns são a favor do projeto, outros contra. Independentemente da opinião, é interessante notar como os diferentes jornais sediados nas cidades californianas abordaram o acontecimento. Numa pesquisa rápida na primeira página de 13 diários da Califórnia, alguns poucos deixaram inclusive de noticiar o fato na primeira página. A maioria estampou manchete, título ou fotos. Dois se destacaram.

Entre os destaques, o San Jose Mercury News foi o que mais pensou no leitor. Criou uma bela infografia e deu amplo espaço na primeira página, informando, inclusive, a respeito dos alertas e riscos do projeto. Colocou na capa que os críticos da obra acham que as etapas podem estar sendo aceleradas e detalhes podem estar sendo encobertos. Muitas comunidades locais também não querem uma linha férrea cortando seus bairros. O jornal mostrou tudo isso na primeira página e, por isso, não pode ser acusado de governista ou que tenha adotado uma linha que tende ao trem de alta velocidade.

Colocou de tudo na primeira página: uma bela foto, uma linha do tempo explicitando que o projeto vem de longa data, um texto de abertura dando as principais informações, inclusive alertando que há contrariedades, o mapa da região que será cortada pelo trem-bala pretendido e um gráfico em formato de pizza para deixar claro quais serão as fontes de recursos e de financiamento.  E fez tudo isso sem deixar de trazer na capa outras chamadas para outras matérias consideradas importantes.

Veja SP: melhor do que o blog sugeriu

Semanas atrás, o Por Dentro da Notícias sugeriu à mídia realizar uma matéria sobre a tecnologia por trás do controle e operação do trânsito nas grandes capitais. A idéia era revelar táticas instrumentos, métodos e todos os números que demonstrassem o gigantismo de controlar o congestionamento em cidades como São Paulo, onde é comum os congestionamentos somarem 200 quilômetros.

A Veja São Paulo que circula neste fim de semana fez muito melhor. Mais do que produzir uma reportagem interessante, como era a sugestão, o jornalista Henrique Skujis entregou uma matéria exclusiva. Entre informações importantes, interessantes e essenciais, destaco:vejasp-2402-capa-1

– Até o fim de 2008, todo dinheiro arrecadado com as multas de trânsito na cidade (de São Paulo) caía no caixa único da prefeitura e era aplicado nas mais diversas secretarias municipais. A mudança — agora o valor arrecadado vai para o Fundo Municipal de Desenvolvimento de Trânsito (FMDT) — trouxe mais dinheiro para os cofres da CET.

– A arrecadação em 2009 foi recorde, e o orçamento aprovado para 2010 supera R$ 600 milhões – quase 60% a mais que há cinco anos.

– Aproximadamente 87% do orçamento da CET (R$ 524 milhões) vem de multas. É comum os motoristas reclamarem que os agentes de trânsito dão mais atenção às infrações que ao controle do tráfego. Não é verdade. “Não se multa o suficiente por aqui”, diz Luiz Célio Bottura, consultor em engenharia urbana. “Ao contrário, o que se vê é uma crescente impunidade. Para cada multa, milhares deixam de ser aplicadas.”

– Os marronzinhos são cada vez menos responsáveis pelos flagrantes. No primeiro semestre de 2009, 36% das infrações foram anotadas por eles. Os policiais militares responderam por 11% e os radares por 53%.

– De 2006 para 2009, a velocidade média dos veículos nas ruas da capital caiu de 29 para 15 quilômetros por hora no pico da tarde (entre 17 e 19 horas).

– Das 302 câmeras de monitoramento, 137 estão quebradas. O problema retarda a localização de acidentes e de carros quebrados. Os agentes, que só recentemente voltaram a usar rádios de comunicação no lugar dos ineficientes palmtops, demoram a chegar e o congestionamento ganha corpo de um minuto para o outro.

– Carência semelhante à das câmeras assola os semáforos inteligentes, que, sem manutenção, emburreceram. Dos 1 457 cruzamentos com a tecnologia, somente 225 (15%) estão em ordem, ou seja, trabalham conforme o tráfego de veículos nos arredores.

 OESP CET – Uma falha de quinze minutos no cruzamento entre duas avenidas movimentadas no horário de pico é capaz de provocar uma fila de até 1 quilômetro.

O jornal O Estado de S.Paulo, em feliz coincidência, trouxe também uma reportagem sobre a gestão do trânsito na capital paulista. Mostrou que, em 2009, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de SP realizou 225.324 remoções de veículos quebrados ou sem combustível nas ruas, quantia 20%
superior à registrada em 2008. A matéria de Renato Machado mostrou que na Marginal do rio Tietê, por exemplo, “a interrupção por 15 minutos de uma faixa provoca 3 quilômetros de lentidão”.

Vale a pena mandar repórteres para a rua

Veja bem: mandar repórteres para a rua não é sugestão para despedi-los, mas sim para olhar, analisar e perceber os fatos sobre os quais ele precisa escrever. A reportagem que ilustra este comentário é prova disso.

Reportagem de Andrezza Trajano, para a Folha de S.Paulo, dia 28 de janeiro (para assinantes ou por site de ONG), mostrou que 1.277 moradias que estão entre as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)  em Boa Vista, capital de Roraima, estão sendo contruídas em um local pouco apropriado. Ao abrir as janelas da sala, há um lixão desativado. Ao abrir a porta da cozinha, uma fábrica de asfalto. Ao espiar pela janela do banheiro, uma lagoa onde é tratado o esgoto da capital.

Casas lixão Segundo o último balanço do PAC, realizado em fevereiro, obras como esta em Boa Vista, com o objetivo de melhorar condições de urbanização e saneamento básico, estão ocorrendo em 3,582 cidades brasileiras. Talvez seja o caso das redações mandarem jornalistas para verificar como está o andamento das obras e se as expectativas das comunidades locais estão sendo atendidas.

Sem ir para a rua, não há como trazer uma reportagem como essa para os leitores, ouvintes, internautas ou telespectadores.

E se os jornais narrassem as histórias com páginas de fotos-legendas?

Netgeo1Nos dias em que a cobertura do carnaval brasileiro foi o principal foco das redações, a sequência de fotos-legendas foi um recurso bastante utilizado. Ao contrário das fotos legendadas do dia-a-dia do jornalismo, as fotos-legendas trazem legendas mais extensas, pois a história passa a ser contada por elas e pelas fotos – e não mais pelos textos longos com uma ou duas fotos.

Netgeo2A National Geographic Brasil mostra como as fotos-legendas são bastante eficientes para contar histórias – e, em muitos casos, uma forma mais agradável que textos extensos com fotos.

Uma das reportagens da última edição narra o modo de vida dos integrantes da Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, um grupo poligâmico de dissidentes da Igreja Mórmon, ou dos Santos dos Últimos Dias. Conta o texto da revista que os primeiros fundamentalistas poligâmicos fincaram bases entre os anos de 1920 e 1930 na divisa entre os estados de Utah e Arizona após os líderes da Igreja Mórmon começar a deixar ára trás o passado poligâmico com o objetivo de ser aceita pela sociedade americana.

Netgeo3 O texto é longo, com profundidade, como é característica da revista. Os fiéis leitores dela certamente deixariam de comprá-la se não fosse dessa forma. Na versão digital publicada no portal da revista, no entanto, uma boa sequência de fotos-legendas acompanha o texto, sintetizando as principais descobertas dos repórteres. O resultado é sempre fantástico, pois as imagens, além de belas, como é característica da Netgeo, são explicadas por legendas mais extensas. Ensinam e encantam.

Hipoteticamente, a publicação de páginas com reportagens por meio de fotos-legendas poderia trazer muitos benefícios para os jornais impressos. Primeiramente, uma bela foto poderia ser estampada na capa para tentar atrair mais audiência, principalmente nas bancas de jornais, canais de vendas nos quais as pessoas só compram se considerarem as manchetes interessantes.

Além disso, a adoção das matérias com fotos-legendas poderia abrir espaço para centenas de bons repórteres-fotográficos que colhem material de ótima qualidade em diversos lugares do Brasil e do mundo mas não encontram jornais e revistas para publicá-los. Os leitores, de diversas faixas de renda ou de gostos e nichos distintos seriam brindados com histórias diferentes, inusitadas, esquecidas. Esses profissionais, por estarem fora das redações, certamente devem ter formas diferentes de olhar e contar as histórias – e isso pode ser um sopro interessante para arejar as redações.

Para saber mais:

Veja outras recentes sequências de fotos-legendas na NetGeo Brasil.

1) A força da Patagônia: Com seus picos escavados por geleiras, o sul do Chile é um dos lugares mais agrestes do planeta. Mas talvez por pouco tempo.

2) O tráfico da vida: Na Ásia, a demanda por remédios tradicionais, animais exóticos e iguarias culinárias impulsiona um negócio – legal e ilegal de bilhões de dólares que está esvaziando as selvas, os campos e os mares.

3) Amizade colorida: Unidos por uma aliança de benefício mútuo, o peixe-palhaço e sua anêmona hospedeira são as joias da coroa dos recifes de coral.

Na cadeia dos pobres, 56,7 graus!

56graus A foto está na capa da edição de O Globo de hoje, de autoria de Gustavo Stephan. A reportagem de O Globo conseguiu fazer a foto ao levar um termômetro digital durante uma visita de inspeção da Defensoria Pública.

A carceragem da Polinter, no RJ, tem dez celas com um total de 690 presos. O delegado instalou, como emergência, dois aparelhos de ar-condicionado que não conseguem resfriar o ambiente, que ele mesmo chama de “masmorra medieval”.

Uma favela foi reurbanizada. Nenhuma imagem, nenhuma reportagem. Por quê?

A prefeitura paulistana inaugurou, este mês, um conjunto habitacional numa das regiões mais carentes de equipamentos sociais: Capão Redondo, na Zona Sul da cidade de São Paulo. Foram 160 unidades habitacionais, cerca de 300 pessoas beneficiadas. Diante do tamanho do problema existente na cidade – milhares de favelas para serem reurbanizadas, milhões de residências em situação precária para serem substituídas por conjuntos habitacionais mais dignos -, a intervenção foi pequena. Mas, mesmo assim, mereceria uma cobertura mais eficiente da impresa.

Cortesia Sehab As fotos que ilustram este comentário foram copiadas do portal da Prefeitura na internet. Não encontrei imagens que mostrem como o local estava antes, mas é perceptível que ficou bonito. Os prédios ocupam o lugar no qual estavam construídos barracos e casas precárias. As ruas, calçadas e garagens, com área verde, mostra um espaço urbano mais condizente com as necessidades mínimas dos cidadãos. A pergunta que fica é: porque um fato como este passa despercebido ou é conscientemente ignorado pela imprensa?

Algumas respostas logo vêm à mente. A obra é de pequeno porte e o impacto social é pequeno e extremamente localizado. Há sempre muita desconfiança quando uma fonte governamental divulga um fato positivo. O que foi feito é apenas uma pequena fração do que precisa ser feito. Sempre há muitas justificativas.

jd irene 1 A imprensa está errada em adotar esta postura. Primeiro, porque notícia boa tem de ser divulgada seguindo os mesmos princípios que são adotados quando são divulgadas as notícias ruins. Segundo, porque um fato cujo impacto social é pequeno e circunscrito pode ser facilmente abordado de um ponto de vista mais amplo, com maior impacto social. Terceiro porque os gestores públicos acertam, erram e se omitem: e todos esses atos ou comportamentos são dignos de cobertura da imprensa.

Um outro argumento importante, que está por trás da censura prévia que a imprensa faz sempre que há inauguração ou divulgação de notícia boa, é o juizo de valor que os meios de comunicação de massa sérios têm em relação às autporidades. A desconfiança acaba descamba para o preconteito e a sociedade fica sem saber dos acontecimentos.

Engana-se quem acreditar que a inauguração de somente 166 apartamentos no conjunto habitacional Jardim Irene II, no Capão Redondo, Zona Sul da capaital paulista, interessa somente ao público local. Ao contrário, interessa a todos. O eleitor, quando vota em um candidato, quer que ele resolva os problemas de habitação, transporte público e saneamento, entre outros. Ignorar e censurar um fato positivo do administrador público, por menor que ele seja, é deixar a população de toda a cidade com a sensação de que nada está sendo feito.

As equipes de reportagem estão corretas em ter uma postura cética e desconfiada com relação às divulgações das autoridades públicas, mas precisam ponderar melhor sobre os riscos de uma censura prévia automática sempre que há pequenas inaugurações e obras ou quaisquer fatos positivos do pdoer público. A população tem direito de ler, ver e ouvir sobre todas as notícias para que ela mesma possa avaliar e julgar, segundo princípios, valores e conceitos próprios, e não dos jornalistas, se os fatos são positivos ou negativos.

Para os jornalistas, que receberam o comunicado da Prefeitura da capital paulista, o fato deve ter sido considerado irrelevante ou com pouco impacto social. Será que a população da Zona Sul de São Paulo, que soma cerca de 2,1 milhões de pessoas, pensa o mesmo? Será que essas pessoas não têm o direito de saber que as favelas no entorno do bairro delas está sendo reurbanizadas?

Ficam algumas dicas, tanto para os comunicadores da gestão municipal quanto para os jornalistas.

Aos comunicadores da Prefeitura:

1) Seria melhor inserir fotos no portal, para que jornalistas possam passear por elas e verificar o impacto da obra. Imagem, neste caso, diz mais que o texto distribuído.

2) O portal da Secretaria Municipal de Habitação da prefeitura paulistana já tem a ferramenta para dar visibilidade às fotografias. Poderia reunir fotos mostrando como estava antes e depois da intervenção urbana.

3) Além disso, tentei procurar o Google Earth o Jardim Irene II para perceber espacialmente a transformação. Não consegui. No comunicado da Prefeitura, não há o endereço do conjunto habitacional. E se a imprensa se interessasse e quisesse vistoriar o local?

Às redações de rádio, TV, impressos e internet, cabe um esforço de pauta, mais intenso e criativo:

1) Para solucionar o impacto localizado da obra, é possível ampliar a cobertura e verificar a situação de todas as intervenções em reurbanização de favelas que estão sendo feitas na Zona Sul de São Paulo – onde moram mais de 2 milhões de pessoas. Se o impacto das obras ainda for considerado insatisfatório, a cidade inteira pode se tornar universo da reportagem.

2) Por que não fazer uma ou duas páginas inteiras de fotografias e legendas, narrando, por imagens, as transformações e intervenções urbanas que estão em andamento?

3) Se a reportagem não quiser se ater somente aos fatos positivos, como no Jardim Irene II, pode mostrar também aspectos que evidenciem omissão ou descaso do poder público.

4) Por fim, vale lembrar que as pessoas gostam de ver as coisas dando certo. Isso não significa que a imprensa deve omitir notícias de corrupção, politicagens ou quaisquer absurdos praticados por quem quer que seja. Basta mirar a pauta também para os fatos positivos, para os exemplos de bons gestores públicos, para aqueles que fazem as coisa acontecerem, estejam eles nas ONGs, nas empresas ou nas administrações públicas. Dizer que nada funciona é, no mínimo, uma visão simplista e destrutiva.